Negócios

Metrópole em transformação


O declínio de empresas na capital paulista teria sido bem maior não tivesse sido parcialmente compensado pela forte expansão no número de empreendedores individuais


  Por Reinaldo Gregori 29 de Janeiro de 2018 às 08:00

  | Ph.D pela Universidade Berkeley, na Califórnia (EUA) e sócio-fundador da Cognatis Big Data e Geomarketing


Para começar, o que se observa é que o número total de empresas formais (com CNPJ) teve forte aumento nos últimos 15 anos, atingindo seu máximo patamar em 2015, quando começa a apresentar um pequeno declínio, dando falsa impressão, talvez, de que a recessão tenha sido pouco severa para a cidade de São Paulo.

Tal conclusão não se sustenta, porém, ante uma análise um pouco mais profunda. Ao decompor as empresas entre empreendedores individuais (EI + EIRELLIs) e demais sociedades percebe-se que o declínio teria sido bem maior não tivesse sido parcialmente compensado pela forte expansão no número de empreendedores individuais (Eis e EIRELLIS) no período que se estende de 2006 a 2016.

De fato, se considerarmos todas as empresas exceto as de empreendedores individuais observaríamos um declínio de até 3,5% em três anos desde 2013.

Como a expansão de EI+EIRELLis possivelmente reflete em parte a crise econômica (desempregados que se lançam no empreendedorismo por necessidade) e, em parte, as mudanças legais que facilitaram e incentivaram a formalização de segmentos nestas categorias, pode-se dizer que houve clara interrupção na tendência expansionista até 2013 ou 2014, com forte impacto da crise econômica no declínio no número de empresas.

Talvez a melhor forma de se visualizar as consequências da crise seja olhando apenas para o emprego formal. A diminuição no crescimento de empresas que empregam múltiplos funcionários naturalmente não é compensada pela expansão de empreendedores individuais.

Transformações no Perfil de Empresas – Sobreviventes e Perdedores

A análise agregada da evolução do numero de empresas não permite que percebamos as transformações mais profundas que impactam a composição destas empresas por segmento.

Estatísticas comprovam que, na cidade de São Paulo, a exemplo do que acontece com muitas metrópoles mundiais, existe uma tendência para que estabelecimentos comerciais (varejo físico) sejam substituídos por empresas prestadoras de serviços.

Desde 2002, o percentual deste último grupo cresceu de 50% para 60%, ao passo que os estabelecimentos comerciais diminuíram de quase 40% para pouco menos que 30%.

Essa transformação é ainda um pouco mais pronunciada quando excluímos os empreendedores individuais -os serviços chegam a representar 62.4%-, sugerindo que não se trata de uma mudança conjuntural, mas sim uma transformação estrutural que provavelmente ainda está em curso.

Quem ganhou e perdeu

Ao decompor a variação no número de empresas por segmentos mais detalhados, podemos observar aqueles que prosperaram mais fortemente, tanto em termos absolutos como relativos.

Olhando para os setores que mais cresceram em termos absolutos ou relativos, destacam-se segmentos de prestação de serviços profissionais (engenheiros, médicos e clínicas, empreiteiros, administradores, corretores), serviços de manutenção de ativos (marceneiros, eletricistas, funilarias, limpeza e manutenção, etc), serviços ligados à tecnologia digital (produção de software, etc.),  educação superior, e serviços para qualidade de vida (beleza, academias, etc.).

Há setores que praticamente se consolidaram pela primeira vez neste período como os serviços de desenvolvimento de software, pequenas editoras de revistas ou produtores musicais, dentre outros.  

Destacam-se também igrejas (provavelmente evangélicas), creches, restaurantes, pet shops, e outros serviços voltados para lazer, estilo de vida ou cultura.

Mais interessante porém é olhar segmentos que mais sofreram no período. Segmentos como vídeo-locadoras, fabricação de letreiros, armarinhos, e mesmo papelarias sofreram muito, e por vezes quase desapareceram. Sofreram também as livrarias, comercio de eletrônico, lojas de bebidas, escolas com exceção de creches.

Análise

Creio que as principais transformações na composição de empresas em São Paulo destacadas acima podem ser entendidas sob quatro eixos propulsores.

  1. Tecnologia – Este eixo na verdade se desdobra em vários.
    1. Novos serviços - A revolução digital, já em curso em 2006 mas acelerada significativamente na última década, gerou novas modalidades de entrega de produtos já existentes, resultando em um duro golpe nos serviços tradicionais. Exemplos a se destacar incluem serviços de streaming de vídeos e música (Netflix, spotfy, etc.) substituindo lojas de CDs, videolocadoras, e em parte, livrarias. Outro exemplo menos óbvio são os aplicativos de transporte (Uber e similares), que neste caso impactaram positivamente locadoras de automóveis mas podem ter ajudado a piorar as vendas de automóveis novos (estas porém foram mais impactadas pela crise como veremos abaixo). No lado positivo, houve aumento significativo de serviços editoriais ou produtores culturais, outro resultado da tecnologia e internet que diminuíram fortemente os custos fixos anteriormente associados a estes setores.
    2. E-commerce – Este movimento já é mais conhecido mas deixou marcas importantes também. Livrarias e papelarias, lojas de eletrônicos, lojas de bebidas, são alguns exemplos de segmentos que podem ter sido impactados, negativamente, pelo crescimento das vendas eletrônicas. Ainda que certos setores possam ter sido consolidados, o fato é que houve uma transformação importante nestes segmentos, onde alguns players se mantiveram com presença híbrida (off e on line, como Saraiva, Livraria da Vila, Cultura), e a pequena loja de bairro desaparecendo aos poucos.
  2. Mudanças Culturais
    1. O aumento de pet shops, academias, salões de beleza, educação continuada, etc., em parte repercutem transformações no estilo de vida e cultura da sociedade. Atrás destas transformações podem haver “drivers” econômicos ou até mesmo demográficos, como a queda de fecundidade levando a consumo de Pets ou serviços que em outros tempos seriam considerados supérfluos.
    2. É possível que mudanças demográficas (queda de fecundidade e envelhecimento) tenham deixado ainda outros sinais como aumento nos serviços de saúde (destacando-se aqueles para terceira idade) e diminuição de escolas fundamentais e médias.
  3. Crise Econômica
    1. A crise não apenas impactou os números agregados de empresas como visto acima, mas também sua composição. No lado “positivo”, observamos a proliferação de serviços de pequeno porte, principalmente aqueles voltados para manutenção de ativos (funilaria, consertos, etc.), e formalização de serviços profissionais, que em parte pode ter sido motivada pelo desemprego.
  4. Ação do Estado
    1. Há também sinais de impactos de políticas públicas como é o caso do crescimento das creches (na contramão das escolas fundamentais e médias), o curioso desaparecimento dos fabricantes de letreiros para lojas que devem ter sido fortemente impactados pelas mudanças legislativas (cidade limpa, etc.), e aumento de cursos superiores, um resultado conhecido das políticas de expansão de crédito para estes serviços.