Vida e Estilo

Quer impressionar na cozinha? Ela dá a receita


Daniella Mello fundou a Cheftime, startup que entrega ingredientes em porções para receitas de fácil execução como alternativa aos congelados e alimentação fora de casa


  Por Mariana Missiaggia 28 de Dezembro de 2017 às 08:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


A popularização dos programas de culinária na televisão, a onda da alimentação saudável, a gourmetização dos alimentos, a falta de tempo e dinheiro e também a violência.

Tudo isso tem contribuído para que cada vez mais brasileiros queiram cozinhar em casa.

Essa tendência também tem uma forte relação com a busca pela redução de custos em meio à crise. No Brasil, 13% da população reduziu o número de refeições feitas fora do lar como principal medida para economizar, de acordo com o instituto Nielsen.

Os dados do Instituto de Foodservice no Brasil também mostram que o número de visitas a restaurantes, padarias e lanchonetes caiu 4% entre 2015 e 2016.

Enquanto isso, outros mercados ganharam espaço. O de molhos e condimentos, por exemplo, cresceu mais de 60%, entre 2011 e 2016.

Ocorre que muitos consumidores estão levando para dentro de casa aquela experiência que eles normalmente tinham em restaurantes, de acordo com Ricardo Alvarenga, especialista em Tendências de Mercado da Nielsen.

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Ingredientes frescos, exóticos e regionais ganharam a atenção do consumidor na hora de oferecer um jantar romântico ou para a família e amigos. Justamente, por isso a venda de alguns condimentos específicos têm se destacado nas gôndolas dos supermercados.

ASSINANTES DO CHEFTIME MOSTRAM OS PRATOS QUE COZINHARAM

Esse movimento impulsiona inclusive, a especialização daqueles que frequentam cursos culinários profissionais apenas por hobby.

“Eles estão se preparando para mostrar que sabem fazer. Pesquisam receitas didáticas e para executar tudo isso, eles precisam de produtos da melhor qualidade”.

QUAL A RECEITA?

E muitos empreendedores já constataram que brincar de ser chef de cozinha se tornou um hábito.

Há dois anos, a administradora Daniella Melo encontrou um jeito diferente de entrar na casa dos paulistanos. Ela criou a startup Cheftime, uma espécie de delivery de ingredientes selecionados para as receitas que o cliente deseja -um modelo de negócio que já decolou nos Estados Unidos e em países da Europa.

Funciona da seguinte maneira: os chamados kits gastronômicos são entregues na casa do consumidor. Cebola e alho picados, peixes, aves e carnes filetadas ou em cubos, papel alumínio no tamanho exato para embalar o que será levado ao forno.

Tudo devidamente porcionado para a receita, que além de ser assinada por um chef renomado, vem com dicas e passo a passo ilustrado, tudo tim-tim por tim-tim para não ter erro.

CHEFTIME ENTREGA INGREDIENTES E RECEITAS PASSO A PASSO

 

O serviço pode ser contratado em planos de assinatura semanais com flexibilidade para alteração nas datas de entrega ou de forma avulsa.

Ou seja, o cliente tem a opção de "pular" o recebimento da caixa nas semanas em que não quiser receber, sem cobrança.

A cada semana o assinante recebe uma caixa com os ingredientes preparados, compartimentados e refrigerados.

Os produtos são embalados e transportados numa caixa térmica, e ficam, com segurança, até oito horas fora da geladeira –para as encomendas que ficam a tarde toda na portaria do prédio ou para o cliente que opta por recebê-la no trabalho.

As receitas vão de opções mais sofisticadas, como o clássico filé da culinária britânica, o bife Wellington, que pode ser ser preparado em até 45 minutos, até pratos mais simples e práticos, como espaguete colorido de legumes com frango grelhado.

Neste último caso, o assinante recebe uma caixa com 400 gramas de peito de frango, 200 gramas de palmito desfiado, duas unidades de abobrinha, uma cenoura, manjericão e alho, e finaliza o preparo em até 15 minutos.

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Para quem é assinante, o cardápio é renovado toda semana com nove receitas que variam opções comfort food, low carb, vegetariana e premium -as mais elaboradas.

Já o kit avulso tem também entradas, sobremesas e frutas frescas. Os planos variam entre R$ 25 a R$ 149,90 semanais. As entregas são restritas à capital e grande São Paulo, Campinas e Valinhos.

Sem revelar quanto investiu e fatura com o negócio, Daniella afirma que o modelo de assinaturas já representa 80% do negócio.

APRENDIZADOS

Marinheira de primeira viagem, Daniella diz que não imaginava se aventurar num ramo tão complexo. A manipulação de alimentos precisa ser pensada passo a passo. 

Garantir as condições higiênicas do alimento de acordo com a legislação sanitária, além da qualidade dos produtos e aproveitar o máximo de nutrientes presentes são algumas das preocupações.

"Sempre digo que trabalho em uma indústria alimentícia porque a responsabilidade é enorme", diz.

Nada disso teria validade sem uma logística de distribuição eficiente. No caso da Cheftime, o serviço é próprio, justamente, para não haver nenhum intermediário no processo. 

"Custa caro e dá muita dor de cabeça". 

Outra preocupação essencial diz respeito ao investimento em tecnologia. Para Daniella, cada negócio tem sua particularidade e precisa ser concebido e formatado de maneira isolada para atender todas as demandas do cliente. Para a Cheftime, por exemplo, foi precisa habilitar uma área do site para a opção de reprogramar a entrega da caixa.

RECEITAS DO CHEFTIME SÃO DETALHADAS
 

E por fim, a missão mais díficil, na opinião da empreendedora: desenvolver um novo hábito de consumo entre os consumidores.

"O delivery de comida pronta foi um marco, porém díficil de ser introduzido. Os aplicativos também se firmaram. Agora, trouxemos uma nova proposta de consumo", diz. 

HISTÓRIA

Antes de fundar a Cheftime, Daniella começou sua carreira como trainee na Unilever e acumulou posições de liderança nas áreas de vendas, marketing e trade marketing.

De lá, foi trabalhar na área de empreendedorismo do grupo Rocket, onde descobriu que tinha talento para comandar seu próprio negócio.

Começou a pesquisar e num bate-papo com dois amigos –um deles co-fundador do IFood -tiveram a ideia de criar a Cheftime, em outubro de 2015.

Dois meses depois, conseguiram o primeiro investimento, que veio da Movile, empresa líder em marketplace mobile.

“Estudei o mercado por cinco meses até criar um modelo de negócio que acreditava por completo”, afirma. “Depois de liderar o lançamento de alguns serviços, meus sócios me propuseram que assumisse a gestão integral do Cheftime.”

Hoje, Daniella lidera uma equipe de 20 funcionários e afirma sustentar um crescimento médio da empresa ao ritmo de 12% ao mês.

FOTOS: Divulgação