Vida e Estilo

Quanto custa compartilhar um brinquedo?


Itens preferidos dos pais e das crianças estão disponíveis para aluguel em sites especializados. Famílias utilizam o serviço para economizar e não acumular produtos que ocupam muito espaço


  Por Mariana Missiaggia 02 de Novembro de 2018 às 08:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Uma mesa de atividades bilíngue por R$ 550. Um simulador de movimentos por R$ 1,8 mil. Um cachorrinho de pelúcia que emite sons por R$ 220. Esses três itens fazem parte da lista de brinquedos de uma criança que tem entre seis meses e um ano.

Dependendo da loja em que forem encontrados, a compra total pode sair por mais de R$ 2,5 mil –preço salgado para algo que será usada no máximo por seis meses.

Há algum tempo, os pais que se sentem incomodados com o consumo exacerbado, não possuem mais espaço para guardar objetos ou simplesmente não podem pagar por ítens tão caros, ganharam uma alternativa –alugar brinquedos para seus filhos.

Em 2010, quando Wagner Hellman fundou o Clube do Brinquedo – uma das empresas pioneiras neste ramo - o preço dos brinquedos acumulava alta de 8,12% -quase o triplo da inflação geral medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 2,88%, na época.

A ideia veio de uma necessidade pessoal. Heilman trocou a carreira no mercado financeiro para materializar o Clube do Brinquedo. Pai de duas meninas, ele procurou por serviços similares e descobriu uma oportunidade inexplorada no Brasil. Até então, a modalidade servia apenas o mercado de eventos e festas infantis.

HELLMAN FUNDOU DO CLUBE DO BRINQUEDO HÁ
DEZ ANOS

De acordo com o empresário, a prática já era muito popular em países como França, África do Sul e Estados Unidos, que estão mais habituados ao conceito de economia compartilhada.

A ideia acompanha uma tendência consolidada por empresas, como Uber e Airbnb, de consumo colaborativo. Usufruir de bens, em vez de possuí-los, é uma tendência que ganha cada vez mais adeptos mundo afora.

Heilman sabia que assim como ele e sua esposa, outras famílias também estavam insatisfeitas em bancar altos custos por muitos brinquedos de uso efêmero.

Um bouncer, por exemplo, que é uma espécie de cadeirinha de descanso para recém-nascidos da Fisher Price, pode custar cerca de R$ 1,8 mil e será usado por poucos meses, se a criança se adaptar.

O produto simula uma série de movimentos diferentes para acalmar a criança - o assento sobe e desce, mexe de um lado para o outro e nina o bebê como se estivesse no colo da mãe.

Assim como o simulador, boa parte dos brinquedos preferidos não só pelas crianças, mas também pelos pais são importados. A americana Fisher Price, seguida pela Step 2, é a mais desejada.

A maioria, bem difícil de ser encontrada nas lojas brasileiras, pode custar até cinco vezes mais se comparado aos preços praticados nos Estados Unidos, de acordo com o IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário).

Outro agravante para este mercado, que movimenta cerca de R$ 6 bilhões por ano, a crise econômica causou um deslocamento de 70% no valor médio gasto pelos consumidores brasileiros nos últimos três anos, de acordo com Aires Fernandes, diretor da Estrela.

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Tudo isso fez com que cada vez mais famílias optassem por alugar em vez de comprar. De acordo com Hellman, embora a proposta tenha um apelo sustentável muito forte, cada classe está à procura de um tipo de valor diferente que o negócio proporciona.

Os clientes de classe baixa, por exemplo, estão preocupados em economizar. Já a classe média quer ganhar espaço dentro de casa, enquanto os mais abastados querem comodidade.

Atualmente, o Clube do Brinquedo possui cerca de 2,5 mil peças infantis que geram em média 900 locações por mês. Os clientes recebem em casa os brinquedos montados, embalados, com pilhas e baterias – prontos para serem usados.

Quando deu início ao negócio, Hellman comprava todas as peças diretamente das importadoras. Mas, com a crise o empresário passou a ter as mesmas dificuldades do consumidor final.

“Muitas importadoras quebraram, saíram do Brasil e ficou complicado negociar com as próprias fabricantes”, diz.

Para não ficar refém deste movimento, a solução encontrada pelo empresário foi negociar com os próprios clientes que possuem algum brinquedo que já não utilizam mais e que estejam em boas condições. A entrega da peça é convertida em créditos para serem utilizados pela família.

São os próprios funcionários da empresa que realizam a limpeza e higienização dos itens que saem do estoque ou voltam da casa dos clientes. O processo de desinfecção é o mesmo utilizado por hospitais americanos que possuem brinquedotecas.

As locações são feitas pelo próprio site da empresa que oferece planos que dão direito a até sete brinquedos por mês, com mensalidades que variam entre R$ 60 e R$ 250. Não há fidelização de assinatura.

FOTO: Clube do Brinquedo/Divulgação