Vida e Estilo

Negócios com pegada rural prosperam na capital


Novos consumidores querem consumir gerando impactos sociais positivos, fortalecer economias locais e garantir mais renda a produtores rurais com resiliência ambiental


  Por Mariana Missiaggia 29 de Maio de 2019 às 17:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


De onde vem, como foi feito e por quem foi feito. Esses questionamentos rondam o pensamento de uma nova classe de consumidores que dão preferência a alimentos e preparações locais - um hábito perdido com a invasão dos industrializados.

Dispostos a pagar um pouco mais, eles querem transparência, ajudar a criar empregos, promover a economia de pequenos municípios e da cidade em que vivem, além de apoiar boas práticas ao meio ambiente.

Muitos negócios já reconheceram o potencial desse mercado e incorporaram uma pegada mais rural e artesanal em suas lojas e estratégias. É o caso da Pão de Mó, uma espécie de micropadaria, nas proximidades da avenida Paulista.

PADARIA MIGALHA ABRE TRÊS DIAS DA SEMANA ATÉ A
VENDA DA ÚLTIMA FORNADA



Por lá, tudo vai na contramão dos grandes estabelecimentos do setor. Desde o horário de funcionamento (aberto somente de quinta-feira a sábado), passando pelo espaço (há somente um balcão de atendimento) até o preparo dos pães que são de fermentação natural e levam até 48 horas para ficar prontos.

A oferta de produtos é pequena e não dá para ser muito diferente. São diferentes tipos de baguete feitas sem nenhum tipo de equipamento e à base de água e farinhas de boa qualidade.

A produção é totalmente artesanal, natural e fresca – bem diferente do nosso tradicional pãozinho francês, à base de fermento biológico, aquele encontrado em forma de tablete ou instantâneo nos supermercados.

Na Vila Clementino, a Padaria Migalha também foge do modelo tradicional. Funciona apenas de terça a sábado, entre 12h e 19h30 ou até o último pão, como costuma dizer Maurício Nascimento, que comanda o negócio.

Com base única de água e farinha francesa, Nascimento cria versões com grãos, ervas e queijos. São fornadas superdisputadas por quem mora, trabalha ou simplesmente passa por ali.

VENDE O QUE COLHE

Pioneiros em pregar um estilo de vida mais simples, o Instituto Chão, na Vila Madalena, tenta promover uma vida mais saudável para os paulistanos. 

Por ali, tudo que é vendido ou servido é repassado diretamente pelo preço de compra. E todos os gastos e custos para manter o negócio funcionando ficam expostos num quadro negro pintado na parede principal.

São custos de recursos humanos, aluguel, impostos, água, luz, telefone, internet, contabilidade, segurança e terceiros, material de higiene e limpeza, tarifas bancárias, frete de produtos, perdas e outros itens – um custo estimado em R$ 250 mil.

MURAL DE CUSTOS E GASTOS DO INSTITUTO CHÃO

Uma prática bem-sucedida para conscientizar o público sobre a proposta do espaço. Os rabiscos na parede mostram também que, para cada real vendido, é necessário arrecadar R$ 0,35 para conseguir fechar as contas – uma forma sutil de convidar cada cliente a contribuir de forma espontânea.

Eles vendem de tudo – frutas, verduras, legumes, sorvete, castanhas, farinha, queijo, cerveja, frango, pão e outros produtos —tudo cultivado por mais de mil famílias, microprodutores ou cooperativas. Como tudo é produzido de forma mais natural, há de se respeitar a sazonalidade. Ou seja, se não tiver laranja, o consumidor leva maracujá. Se não tiver couve-flor, leva brócolis. E por aí vai.

A compra de frutas, verduras e legumes locais é considerada uma espécie de evolução da compra de orgânicos, de acordo com o relatório U.S. Food Market Outlook, da Packaged Facts.

O estudo também considera laticínios, pães e outros alimentos produzidos dessa forma como forte tendência para 2019, num movimento chamado de farm-to-table (da fazenda à mesa).

Produtores de leite de pequenas fazendas, por exemplo, estão indo muito além da bebida no formato integral ou desnatado.

O consumo de produtos lácteos como o iogurte e o kefir com menor quantidade possível de conservantes entrou no radar dos consumidores, junto com outras tendências, como, o kombucha (chá fermentado) e kimchi (vegetais fermentados).

TÃO LONGE...TÃO PERTO

A falta de opções de alimentos mais frescos em São Paulo também desperta um movimento contrário. Pequenos produtores fazem a rota Interior-Capital para distribuir suas produções.

A Fazenda Santa Adelaide, em Morungaba, a 102 quilômetros de São Paulo, por exemplo, oferece uma grande variedade de alimentos frescos e da estação, sem intermediários.

Além de participar de feiras de orgânicos na capital, uma vez por semana, eles fazem entregas de cestas em sistema de assinatura semanal ou quinzenal. Um esquema parecido com o praticado pelo Raizs, um e-commerce de orgânicos.

A plataforma funciona como um elo de conexão entre as duas pontas da cadeia: pequenos produtores rurais e consumidores.

ARTE: REPRODUÇÃO DO SITE DA RAIZS

Cada item vendido pela Raízs traz na embalagem o nome e a foto da família que cultivou aquele produto – além do hortifrúti, há também, vinhos, café, massas, geleias e produtos de higiene e limpeza.

Ovos, tomate italiano, couve manteiga e pão estão entre os mais vendidos. Tudo orgânico e vindo de zonas rurais próximas à capital paulista, como Caucaia do Alto, Ibiúna e São Roque.

Em 2014, Tomás Abrahão, fundador do negócio, começou a rodar o interior de São Paulo, buscando conhecer famílias com tradição na agricultura. Ali, começou a formar sua rede de fornecedores, cerca de 80 produtores.

Ao lado de outros três amigos e com investimento próprio de R$ 150 mil, colocaram o negócio no ar.