Vida e Estilo

Faz tempo que não compra nada? Cuidado com o pecado da avareza


Entenda a diferença entre poupar para ter tranquilidade em tempos de crise e realizar sonhos e ser obcecado pelo ato de só guardar dinheiro e de não gastar nenhum centavo


  Por Rejane Tamoto 12 de Janeiro de 2016 às 17:53

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


Poupar dinheiro e fazê-lo crescer em aplicações financeiras é saudável para ter tranquilidade em momentos de crise, na aposentadoria e também para realizar pequenos e grandes sonhos de curto e médio prazos. Isso é o que se costuma chamar de uma vida financeira saudável.

O meio-termo entre poupar e gastar é quase sempre a melhor opção, mas não faltam pessoas que ficam "presas" nos extremos: ou gastam demais, se aproximando perigosamente da inadimplência, ou guardam de maneira exagerada, transformando um meio (o dinheiro) em objetivo final. 

Esse último caso significa mais do que ser pão-duro, econômico ou mão de vaca – significa ser avarento, com apego excessivo ao dinheiro.

A avareza vai além do hábito, é um problema psicológico que exige atenção. Em uma sociedade que valoriza muito o consumo, a tendência a não gastar nada é menos comum do que a compra compulsiva

"Uma das consequências do apelo do marketing é a existência de poucos avarentos na sociedade", afirma Vera Rita de Mello Ferreira, psicóloga econômica e membro do NEC-CVM (Núcleo de Estudos Comportamentais da Comissão de Valores Mobiliários).

A avareza hoje pode ser rara, mas continua muito prejudicial para a vida das pessoas, pois as afasta do contato com a realidade. 

Segundo a psicanalista, trata-se de um impulso automático e inconsciente do cérebro, que planeja guardar dinheiro para gastar em um dia que não vai chegar nunca.

"A pessoa fica escravizada por essa ideia e a vida perde a graça. Ela não vive o presente, só o amanhã, e tem medo de gastar porque acha que vai descontrolar o orçamento ou por temer ficar na miséria, mesmo que não haja indícios para que isso aconteça um dia", descreve Vera Rita.

CUIDADO COM A FALSA SENSAÇÃO DE PODER

Outra característica de alguns avarentos é a sensação de poder vinda de uma ideia simples: "eu sou melhor do que as outras pessoas porque consigo controlar o impulso para comprar vivendo em uma sociedade consumista". 

A pessoa, como o famoso personagem de Walt Disney Tio Patinhas, não percebe que esse comportamento é problemático, que prejudica a vida social. "O perfil de quem guarda dinheiro de forma exagerada é complexo. Mas, em qualquer caso, é preocupante quando se vive essa fantasia e se perde o contato com a realidade", explica Vera.

A exemplo do que ocorre com o comprador compulsivo, o tratamento para o avarento – que queira resolver a questão – envolve terapia, de acordo com a psicanalista. O trabalho ajuda a pessoa a se ouvir e a entender as razões que as leva a ter esse tipo de relação com o dinheiro. 

APRENDA A SER ECONÔMICO

Se alguém é conhecido como pão-duro ou mão de vaca não significa necessariamente que seja avarento. Segundo Vera, esse econômico moderado costuma ter o comportamento desde cedo. Nesse caso, não se trata de um problema psicológico, apenas de uma característica. 

Para ficar longe do descontrole financeiro, na verdade, há consumidores que têm muito a aprender com os exemplos dos pão-duros.

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Essa é a opinião do economista Luis Carlos Ewald, para quem o exercício de ser mão de vaca, nesse bom sentido, não faz mal a ninguém. Muito pelo contrário, pois pode diminuir a quantidade de devedores e inadimplentes.

Longe de querer formar avarentos, ele dá dicas para economizar dinheiro por meio de algumas de suas experiências pessoais, como levar do restaurante a sobra do almoço em uma "quentinha" para dar um extra ao flanelinha.

"As pessoas não precisam ter vergonha de ser mão de vaca desde que o objetivo seja poupar para comprar um bem ou pagar um serviço no futuro", afirma. Por exemplo, é saudável adotar estratégias de economia no dia a dia para realizar alguns projetos, como uma viagem com a família. 

Ou seja, o pão-duro não guarda por guardar, como o avarento: ele tem um objetivo. Algumas das dicas de Ewald chegam a ser até cômicas, como a de não retornar a ligação de estranhos no celular.

"Afinal, se for importante, o interlocutor deixa um recado ou, melhor, liga de novo." Outra recomendação foi como escolher um plano familiar de telefonia, com limite de minutos para cada morador da casa. "Se acabar, acabou. É uma das formas de segurar a pressão dos filhos e de não estourar o orçamento."

A criatividade pode ir longe quando se fala de poupar. Antes mesmo do salto na tarifa de energia, Ewald já poupava esse recurso. "Moro no Rio de Janeiro, que é quente. No verão, já tomava banho frio."

Ele afirma que equilibrar o orçamento exige um certo trabalho. O resultado não vem sozinho, é necessário esforço. Ainda citando exemplo pessoal, Ewald disse que aproveita as ofertas semanais dos supermercados para estocar alguns produtos, como azeite. 

Embora a estocagem de alimentos não seja um consenso entre os especialistas em finanças, ele disse que faz isso apenas produtos não perecíveis, com prazo de validade extenso e de preços muito competitivos.

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