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Estresse no trabalho é agora doença, segundo a OMS


Na prática, a classificação do burnout pela Organização Mundial de Saúde pode subsidiar juízes em questões trabalhistas


  Por Estadão Conteúdo 28 de Maio de 2019 às 08:45

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Chegar ao supermercado e se sentir perdida em seus corredores - e totalmente incapaz de decidir qual macarrão levar Foi assim que a empreendedora Rafaela Cappai, de 40 anos, percebeu que algo sério acontecia.

"Foi o ápice da confusão mental. Resultado de toda a pressão que eu me colocava. Toda a minha energia era só voltada para o trabalho. Aquilo foi criando um casulo", disse. "Eu continuava 'entregando' (resultados), mas estava deprimida, cínica, pessimista, engordei 30 quilos e tinha dificuldade para delegar tarefas."

O que Rafaela teve foi um esgotamento profissional, a síndrome de burnout - que será incluída na próxima revisão da Classificação Internacional de Doenças, segundo anúncio feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A lista, elaborada pelo órgão, tem por base as conclusões de especialistas de todo o mundo. A classificação é utilizada para estabelecer tendências e estatísticas de saúde. A nova versão da CID começa a valer em 2022.

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Segundo pesquisa da Isma-BR (representante da International Stress Management Association), 72% dos brasileiros que estão no mercado de trabalho sofrem alguma sequela ocasionada pelo estresse. Desse total, 32% sofreriam de burnout. E 92% das pessoas com a síndrome continuariam trabalhando.

"Embora o burnout represente um nível exacerbado de estresse, as pessoas continuam em seus postos de trabalho pelo medo do desemprego.

Um trabalhador nesse estado está mais propenso a cometer erros graves", comentou a psicóloga e presidente do Isma-BR, Ana Maria Rossi. 

Para ela, a decisão da OMS terá um efeito prático. "Pode dar um embasamento maior para os juízes decidirem questões trabalhistas relacionadas com a saúde mental."

O burnout foi incluído no capítulo de "problemas associados" ao emprego ou ao desemprego e descrito como "uma síndrome resultante de um estresse crônico no trabalho que não foi administrado com êxito".

Ele se caracteriza por três elementos: "sensação de esgotamento, cinismo ou sentimentos negativos relacionados a seu trabalho e eficácia profissional reduzida".

A médica e escritora Renata Corrêa apresentou os diversos sintomas do burnout. "Sou oftalmologista. Trabalhava em um clínica em que eu não vi a luz do sol. Uma vez, atendi 20 pacientes das 7h às 9h da manhã", contou. "Neste dia, quando vi quantos pacientes em ainda tinha para atender, caí no choro e não consegui mais trabalhar", completou. 

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Para o especialista em recursos humanos Marcelo Braga (fundador da Reachr), a pressão nas organizações e o ritmo de trabalho tem aumentado muito.

"Com o reconhecimento da síndrome, os departamentos de RH vão precisar entender mais do tema. E contribuir para mudar essa cultura de que estresse oriundo do trabalho é apenas frescura", completou.

O diretor dos ambulatórios do IPq (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas ), Rodrigo Martins Leite, disse que o reconhecimento da OMS deve representar uma mudança de cultura mesmo entre os profissionais. "Há 12 anos, tentei fazer uma pós-graduação em burnout, mas não pude porque a psiquiatria não aceitava esses diagnósticos."

  
FOTO:Gerd Altmann/Pixabay