Tecnologia

Quem são os brasileiros que criaram o app de culinária mais popular nos Estados Unidos


Desenvolvido pelo casal Silvia Curioni e Rafael Sanches, o Allthecooks chegou a ter mais de 25 milhões de downloads antes de ser vendido para o maior site mundial de receitas. Hoje, a dupla trabalha em sua segunda startup


  Por Mariana Missiaggia 17 de Novembro de 2017 às 13:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Há 17 anos, quando compartilhava fotos e poemas na internet, em Maringá, no interior do Paraná, Silvia Curioni, 34 anos, nem sonhava que um dia ela mesma criaria um software usado por milhares de pessoas no mundo.

Àquela altura, seu plano era cursar psicologia e decidir para qual capital brasileira se mudaria.

Mas algo no universo HTML, código utilizado na construção de páginas no espaço virtual, a encantou. A possibilidade de criar algo sozinha, a exemplo do blog feito com amigas, levou a adolescente a pesquisar e se interessar cada vez mais por programação.

Não teve jeito. Às vésperas do vestibular, trocou sua primeira opção por ciência da computação –a mesma escolha de seu marido, Rafael Sanches.

Assim como Silvia, Sanches também tinha suas próprias invenções na rede. Quando adolescente, ele criou um site de fotografias, o PicMix, onde os usuários podiam postar fotografias – algo bem popular nos anos 2000.

Na época, Sanches já tinha algo muito promissor em mãos. Precursor das redes sociais, o serviço de compartilhamento de fotografias influenciou uma geração de internautas dispostos a trocar experiências na web.

O exemplo mais famoso desse tipo de site, o Fotolog, foi criado em 2002, nos Estados Unidos, pelo empreendedor Scott Heiferman. Na época, a empresa levantou mais de US$ 12 milhões em investimentos.

“Ele tinha um site bom nas mãos, mas não sabia do potencial e não existia mentoria. Também não tinha dinheiro para pagar server. Hoje, vemos que poderia ter sido algo grande”, diz Silvia.

RUMO AO VALE DO SILÍCIO 

Formado, o casal estava em dúvida se se mudava para São Paulo ou Curitiba. Indecisos, acabaram por seguir uma terceira opção.

Filha de italianos e com irmãos morando na Europa, ela e Sanches decidiram começar a vida profissional na Itália. Juntos, foram trabalhar em uma empresa de tecnologia, que desenvolvia programação java, para o disparo de notícias e votações pelo celular.

Era o início do caminho da dupla rumo ao Vale do Silício. A companhia em que eles trabalhavam comprou uma subsidiária nos Estados Unidos, e os levou para fazer o treinamento da nova equipe.

Em contato com muitas empresas do Vale do Silício, Silvia se deparou com um ambiente muito aberto ao empreendedorismo.

Pouco tempo depois, ela estava em contato direto com fundadores de startups, aplicativos e outros gigantes do ramo. Para sua surpresa, todos muitos dispostos a conversar e a trocar experiências.

APP CRIADO PELO CASAL ERA UTILIZADO PARA TROCA DE RECEITAS

Empolgados, Silvia e Rafael também arriscaram empreender. Em 2012, criaram a Allthecooks, uma espécie de rede social, em que pessoas do mundo inteiro podem trocar receitas.

Em menos de um ano, a invenção era o aplicativo de gastronomia mais baixado nos Estados Unidos. Foram 25 milhões de downloads.

No auge da startup, eram 20 horas diárias para fazer um pouco de tudo na empresa. Silvia cuidava da parte burocrática, caixa e pagamentos. Também programava toda a aplicação para iPhone.

Seu marido desempenhava a função de CEO, responsável pelos objetivos, vendas e programação para Android.

Um irmão de Silvia, então sócio da empresa, cuidava da programação do servidor, responsável por todo o funcionamento da plataforma.

Embora fizesse muito sucesso, o AlltheCooks não era suficiente para sustentar a família, que já se dedicava exclusivamente, ao negócio.

Ocorre que uma das formas de monetizar aplicativos é incluir publicidade na plataforma, mas o trio preferiu adiar ao máximo a entrada de anunciantes, que não correspondessem ao interesse dos usuários.

Além disso, Silvia preferia deixar essa decisão a cargo de um profissional especializado, que eles pretendiam contratar em breve.

“Esgotamos todas as nossas economias (mais de R$ 100 mil) e já não tínhamos como sobreviver”, diz Silvia.

VENDA DO APP FOI AMPLAMENTE DIVULGADA

O jeito foi correr atrás de investimento. Começaram a participar de reuniões em busca de investidores. O primeiro "não", veio logo de cara.

A segunda tentativa foi menos frustrante, embora não tenham conseguido nada. Na terceira, ganharam o benefício da dúvida.

Depois de duas semanas, eles tinham três propostas de investimentos e uma de compra feita pelos administradores da maior plataforma de receitas do mundo – os japoneses da CookPad.

A empresa de tecnologia queria expandir pelo mundo e a aquisição da AlltheCooks era uma estratégia para entrar no mercado dos Estados Unidos.

A DECISÃO

Quando optaram pela venda do negócio, a decisão do trio foi amplamente noticiada pela imprensa americana.

Durante dois anos, Silvia e Sanches trabalharam com os japoneses para integrar a Allthecook ao sistema deles.

A experiência de ver algo criado por suas próprias mãos ganhar asas parecia o suficiente para a paranaense deixar o empreendedorismo de lado.

Além disso, ela estava grávida do primeiro filho e preferia ter um trabalho estável, menos cansativo e sem tanto risco.

PETERMAN É SÓCIO DO CASAL
NA CRAFTLOG

Já para seu marido, aquilo era só o começo. “Ele gosta de empreender e quer atingir milhões de pessoas".

Em meio a sua licença-maternidade e enquanto procurava vaga em em alguma empresa de tecnologia, Sanches embarcou num novo projeto a Craft Log, em parceria com um amigo, Renato Peterman, engenheiro de software.

Com conceito similar ao da Allthecook, a nova startup tem como objetivo reunir projetos de pessoas do mundo todo, mas não está restrito a culinária.

São explicações e passo-a-passo de projetos, como, por exemplo, marcenaria e costura, explicando como construir uma mesa ou uma piscina de pallets.

Mas, dessa vez, as coisas foram um pouco diferentes. Eles pegaram um investimento de US$ 600 mil e contrataram dois funcionários.

"Ainda estamos tateando o mercado e não temos salário. Nosso time é pequeno, porém muito eficiente. O retorno deve vir em dois anos", diz. 

Hoje, o aplicativo está disponível na Google Play e cresce de forma orgânica. Em 2018, a meta é crescer de forma acelerada e escalar a base de usuários.

FOTO: Thinkstock e Divulgação