Tecnologia

Por dentro do lucrativo universo dos games


Empreendedores que participam do Brasil Game Show estão de olho no gigantesco mercado de jogos eletrônicos, que movimenta U$ 66 bilhões por ano em vendas


  Por Thais Ferreira 10 de Outubro de 2015 às 10:00

  | Repórter tferreira@dcomercio.com.br


Um estádio cheio de jovens. Eles ficam atentos a todos os movimentos dos jogadores. A cada lance uma reação: preocupação e euforia se misturam com gritos de incentivo. No final da partida, a alegria da vitória ou a decepção da derrota.  

A situação acima pode até parecer um jogo de futebol, mas a descrição é de um campeonato de videogame. Algumas partidas se tornaram grandes eventos que atraem uma multidão de fãs.

Pensando nesse gigantesco mercado, Marcelo Tavares criou, em 2009, a feira Brasil Game Show, que reúne os principais lançamentos do setor. 

A ideia surgiu quando Tavares, um dos maiores colecionadores de jogos eletrônicos do Brasil, decidiu unir sua paixão pelos games com uma boa oportunidade de negócio. 

A primeira edição, no Rio de Janeiro, foi despretensiosa e teve um público de cinco mil visitantes. Nos últimos anos, o número de expositores e de freqüentadores se multiplicou. 

Em 2014, já em São Paulo, a feira atraiu 250 mil pessoas – a expectativa é de que esse ano passem pelos corredores do Expo Center Norte, na capital paulista,  mais de 300 mil visitantes. O evento já é considerado o maior da América Latina. 

LEIA MAIS: Para aumentar a eficiência de seu pessoal, empresas apelam a sistemas similares a jogos

UM CAMPO PROMISSOR

Já faz muito tempo que os videogames deixaram de ser brincadeira e se transformaram em negócio de gente grande. O setor deve movimentar cerca U$ 66 bilhões em vendas por ano no mundo – o Brasil contribui com U$ 1 bilhão – de acordo, com os dados da Euromonitor Internacional. 

Mesmo num período de recessão da economia, o setor prevê aumento de faturamento para os próximos anos. Desde 2009, as vendas de jogos online cresceram 256% e os produzidos no formato mobile tiveram aumento de 780%. 

Pelos corredores da feira, que acontece até segunda-feira, 12 de outubro, é possível ver estandes das gigantes multinacionais do setor, como a Playstation, da Sony, e Xbox, da Microsoft. 

Mas há também pequenos e médios empresários brasileiros –  que assim como Tavares – juntaram a paixão de um hobby com uma oportunidade de negócios. 

THIAGO BERTONI, DA ODIN: OPORTUNIDADES DE DESENVOLVIMENTO DE JOGOS

CRIADORES DE UNIVERSOS

A história da Odin, empresa que desenvolve jogos, começou quando os sócios Thiago Bertoni e Alexandre Kikuchi, ambos professores de computação gráfica, se conheceram durante uma entrevista para um veículo de comunicação. 

Eles começaram a desenvolver jogos em conjunto. Como a maioria dos empreendedores, no início, Bertoni e Kikuchi se dividiam entre suas atividades como funcionários de outras empresas e os primeiros passos de um negócio próprio. “Ficávamos trabalhando de madrugada para finalizar os jogos”, afirma Bertoni. 

Os primeiros projetos eram de “advergames” (termo em inglês que mistura as palavras publicidade e jogos), ou seja, eles eram contratados por agências para fazer jogos ou aplicativos para grandes empresas. 

Em 2012, eles conseguiram levantar capital e abandonaram seus empregos. Nos primeiros meses, eram apenas os dois sócios e um estagiário. Hoje, eles têm sete funcionários e um escritório em São Paulo.

Recentemente, a Odin fechou um contrato com a Excalibur, empresa britânica que edita e lança jogos eletrônicos. Além disso, eles desenvolveram o jogo Aerea, uma produção independente.  

Os empresários acreditam que o Brasil é um país que ainda tem muito potencial para o desenvolvimento de jogos eletrônicos. A principal dificuldade ainda é a separação entre a visão profissional e o hobby.
 
“Muita gente pensa que é só ficar jogando o tempo todo. Mas ter uma empresa com CNPJ, impostos para pagar e funcionários contratados é cansativo. Nem todos estão dispostos a ter esse tipo de trabalho”, afirma Bertoni.  
    
Outra pequena empresa brasileira que marcou presença no Brasil Game Show é a Void Studios. Fundada o ano passado por Luiz Ricardo Aguena, Paulo Nathan e Danilo Pereira. 

Eles conheceram durante um curso e juntos desenvolveram Eternity, um jogo para computador e console baseado nas lendas da mitologia na nórdica. Em pouco mais de um ano no mercado, eles conseguiram fechar parecerias com grandes empresas, como a Microsoft e a Sony. 

“O foco das grandes empresas do mercado ainda é o público estrangeiro. Mas há muitas oportunidades para crescer dentro do Brasil”, afirma Aguena.  

Os três sócios afirmam que não basta ter um jogo bom para fechar um contrato com uma grande empresa. “É preciso ter uma equipe capacitada, um bom plano de negócios e projetos para futuro”, diz Aguena. 

Junto com a Void e a Odin, estiveram na Brasil Game Show outras 22 pequenas empresas brasileiras em fase inicial. O ano passado eram apenas quatro. Durante a feira, eles têm a oportunidade de mostrar seus projetos para empresários e para o público. 

ADRIANE BORGES, DA AVELL: EMPRESA DE NOTEBOOKS EXPANDE PARA OS EUA

MUITO ALÉM DOS JOGOS

Mas não são apenas os jogos eletrônicos que fazem sucesso na Brasil Game Show.  Há vários mercados que se beneficiam desse mesmo público. Um exemplo é o empresário Victor Jacques, fundador da ToyShow, que vende bonecos e camisetas relacionados ao universo dos games e dos quadrinhos. 

Tudo começou com uma paixão do empresário por bonecos colecionáveis. Ele percebeu que existia uma dificuldade de encontrar esses produtos no mercado brasileiro. Surgiu, assim, uma oportunidade de negócio em um mercado ainda pouco explorado.  

A empresa começou em 2011, como um e-commerce e, neste ano, Jacques montou um show room com os produtos, no bairro dos Jardins, em São Paulo. “Algumas peças são caras e verdadeiras obras de artes. Muitas pessoas querem ver antes de efetuar comprar”, afirma Jacques. 

A ToyShow vende mais de 3 mil itens, grande parte dos produtos é exportado. “Reforçamos nosso estoque antes da alta da moeda americana e baixamos nossa margem de lucro para não assustar os consumidores”, afirma Jacques. “Mesmo com a crise, pretendemos crescer 30% esse ano”. 

Outra brasileira que está destacando nos produtos para os jogadores é a Avell, que fabrica notebooks de alto desempenho. A empresa de Joinville, Santa Catarina, foi fundada por Emerson Salomão. No começo, era uma pequena revendedora de produtos eletrônicos. 

Até que o empresário percebeu que era difícil encontrar notebooks que atendessem as necessidades de configuração e desempenho de jogadores e engenheiros. Em 2004, a empresa deixou de vender as marcas conhecidas e iniciou a produção de itens personalizados para esse público exigente. 

Nos últimos anos, a Avell se tornou a maior do segmento de notebooks no país. Os aparelhos são vendidos entre R$ 4 mil e 30 mil, dependendo do tipo de personalização. 

A empresa conta com três lojas físicas em Joinville, Florianópolis e Curitiba, um e-commerce e, recentemente, uma filial em Miami. “Queremos conquistar os jogadores americanos”, afirma Adriane Borges, diretora comercial da Avell.  

Assista ao vídeo: