Tecnologia

O futuro está chegando na pequena Águas de São Pedro


Com projetos inovadores, grandes empresas de tecnologia apostam que o município do interior paulista será uma das primeiras cidades inteligentes do Brasil


  Por Redação DC 11 de Fevereiro de 2016 às 13:00

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


Por Mariana Missiagia e Thaís Ferreira  

Uma pesquisa recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontou que mais de 30% dos brasileiros gastam mais de uma hora no trânsito a cada dia.

Além de gerar um alto índice de poluição nas cidades, o excesso de veículos afeta a saúde e a produtividade de uma parte significativa da população. 

Esse transtorno não é uma exclusividade do Brasil. Istambul, na Turquia, foi considerada a cidade com o pior trânsito do mundo, de acordo com o Traffic Index.

Para amenizar esse problema mundial, uma startup israelense criou o aplicativo de trânsito Waze – que está mudando a forma como motoristas se locomovem. 

Utilizando geolocalização, internet móvel e um sistema que reúne as informações geradas pelos usuários, o App é capaz de indicar o melhor trajeto e prever quanto tempo levará o percurso.

O que foi concebido para ser uma ajuda aos usuários ganhou proporções muito maiores: hoje os dados do Waze são utilizados por diversas prefeituras de grandes cidades para gerenciar o tráfego, inclusive no Rio de Janeiro. 

Daqui a alguns anos, o uso dessas tecnologias pelo poder público deixarão de ser exceção para fazer parte do cotidiano.

É o que especialistas chamam de “Cidades Inteligentes”, ou seja, cidades que utilizam diversas tecnologias de forma integrada para prestar serviços públicos de forma mais eficiente. 

Em grandes proporções é possível imaginar um Waze para todos os setores: como segurança, saúde, transporte público, captação de lixo e serviços de abastecimento de água. Mas, além disso, todos os esses softwares trabalharão de forma integrada, unindo inteligência humana, coletiva e artificial.  

LEIA MAIS: Por dentro de uma cidade inteligente

Apesar de já existir até um ranking das cidades inteligentes brasileiras, a maioria dos especialistas concorda que elas de fato ainda inexistem no país.

O que há são cidades digitais: digitalizaram grandes parte dos serviços públicos, mas não possuem tecnologia capaz de integrá-los, gerar dados complexos ou de permitir uma colaboração ativa por parte dos cidadãos. 

Pode até parecer uma visão futurista, mas a confluência dessas tecnologias não está longe de se tornar realidade. Cidades como Amsterdã, Barcelona e Estocolmo têm dado passos importantes para tirarem as cidades inteligentes do papel.

Por aqui, metrópoles como Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre têm investido em tecnologia para melhorar a administração pública. 

Mas a experiência da pequena Águas de São Pedro, distante 186 quilômetros da capital paulista, vem chamando a atenção. 

PROJETOS

Em 2013, a Telefônica/Vivo começou um projeto experimental chamado “Cidade Digital”. Com a parceria da Tacira, empresa especializada em tecnologias para cidades inteligentes, e com a Huawei, empresa chinesa de tecnologia da informação e comunicação, foram criados 14 serviços digitais na cidade. 

Com algumas propostas implantadas e outras em fase de reestruturação, Águas de São Pedro ainda não pode ser considerada uma cidade inteligente, mas sim uma cidade digital.
 

SISTEMA DE CÂMERAS EM SÃO PEDRO

 A substituição do cabeamento de cobre para uma infraestrutura com fibra óptica fez com a cidade passasse a conectividade média de 10 MB para 25 MB em 70% dos domicílios da cidade, que foi escolhida por oferecer um cenário ideal para o projeto.

Sendo o segundo menor município do Estado, com área de 3,46 quilômetros quadrados, Águas de São Pedro tem uma população de três mil habitantes, com o segundo melhor IDH (índice de desenvolvimento humano) do país e um índice baixíssimo de violência.

O uso de tecnologias nas salas de aula, o diálogo direto da população com a prefeitura através de um aplicativo, o monitoramento eletrônico das câmeras de segurança, a gestão de iluminação pública, e o aplicativo para identificar possíveis focos do mosquito Aedes Aegypti na cidade são exemplos concretos das soluções tecnológicas criadas pelo projeto em curso na cidade.

Veja no vídeo como funciona o painel de controle da cidade: 


RESULTADOS 

Parte das inovações já começou a render resultados positivos para o município, de acordo com Fábio Pontes, secretário de turismo de Águas de São Pedro.

É o caso do aplicativo “Águas Sem Dengue” em que o cidadão fotografa um possível foco de dengue, identifica o lugar, e adiciona no aplicativo. A foto é enviada diretamente para a vigilância sanitária. 

“Em seguida, o morador receberá um retorno esclarecendo o caso”, diz. “Apesar de a dengue não ter crescido na cidade, estamos próximos a Piracicaba e Limeira em epidemia.“ O recurso tem dado certo. Foram 87 casos em 2014, 22 em 2015, e nenhum registro neste ano. 

FÁBIO PONTES, SECRETÁRIO DE TURISMO: SEM REGISTRO DE DENGUE EM 2016

As facilidades geradas por essas tecnologias é o que determinam se uma cidade é digital ou inteligente. Quando esses serviços são implantados em diferentes áreas da cidade como mobilidade, saneamento, educação, podemos considerá-la digital. Já a utilização desses serviços públicos de maneira integrada é o que faz de uma cidade inteligente. 

Apesar da imensa boa vontade, testar um projeto para impulsionar um novo conceito no país esbarra em uma série de obstáculos e burocracias muitas vezes desconhecidas pela própria prefeitura, como aprender a lidar com leis, parcerias e verbas destinadas a esse tipo de serviço.

A central de monitoramento, por exemplo, ainda opera sem funcionários por falta de verba, apenas com sistema de armazenamento por até três meses. Além disso, distribuir tecnologia por todos os cantos da cidade levantou uma questão a ser tratada: o analfabetismo digital. 

“Não adianta distribuir centenas de tablets nas escolas, se nossos professores não sabem utilizá-los.” “Por isso, temos a Fundação Vanzolini nos ajudando na capacitação dos professores para o uso do material em aula, e para substituir o antigo livro de notas e chamada”, diz.

Para Leandro Cezar Mashorca, presidente da Acasp (Associação Comercial de Águas de São Pedro), o formato atual do projeto não favorece o comércio da região. “Me parece ser um projeto ainda em elaboração, e que além de causar transtornos  na rede de internet, não beneficia em nada o comércio da cidade”, diz. “Pode ser que um dia seja positivo, hoje o considero completamente fora da realidade.”

Veja no vídeo a opinião dos comerciantes: 


FUTURO

Após a primeira fase, a Telefônica/Vivo deixou de ser a protagonista do projeto que passou para as mãos da equipe da Tacira. “Queremos dar continuidade e fazer com que os serviços sejam desenvolvidos para atender as necessidades da população”, diz Kátia Galvane, exectuiva da Tacira. “Nosso objetivo é tornar a cidade um grande laboratório nacional”. 

Neste ano, alguns projetos que ainda não foram totalmente implementados começarão a funcionar integralmente. “Queremos mostrar que o investimento em tecnologia traz inúmeros benefícios não só para o governo, mas para todos os cidadãos”, afirma Kátia.

O projeto da Tacira em Águas de São Pedro foi premiado internacionalmente e a empresa quer implementar projetos similares em outras regiões do Brasil.