Tecnologia

Internet das Coisas: o mundo conectado


Objetos inteligentes que se comunicam por meio da internet deixaram de ser parte da ficção científica. Conheça a tecnologia que promete mudar a forma como vivemos


  Por Thais Ferreira 27 de Agosto de 2015 às 09:00

  | Repórter tferreira@dcomercio.com.br


Em 1962, os estúdios Hanna-Barbera lançavam os Jetsons – o desenho animado que exibia as aventuras de uma família que vivia num futuro chamado Era Espacial. Os personagens moravam em prédios suspensos, tinham robôs para realizar as atividades domésticas e conseguiam resolver tudo apertando botões. 

O programa foi um sucesso em diversos países e se tornou parte do imaginário coletivo sobre como seria o futuro da humanidade. Ainda não é possível dirigir carros voadores ou viajar de férias para a lua, como no desenho, mas nunca estivemos tão perto de ver as máquinas se comunicarem. 

Não se trata de inteligência artificial, mas sim da Internet das Coisas ou em inglês Internet of Things (IoT). O termo foi cunhado em 1999 por Kevin Ashton, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), para designar uma série de tecnologias que ajudam a conectar objetos comuns com a internet. 

Caixa de Ovos fabricada pela GE é conectada com a internet/Divulgação

RETROSPECTIVA

Até alguns anos atrás, os computadores funcionavam como cérebros que não possuíam sentidos – eles não eram capazes de criar novas informações, apenas armazenavam e analisavam dados. 

Isso representava uma grande limitação porque há uma infinidade de dados sobre o mundo que as pessoas não são capazes de digitar nos teclados ou de scannear em códigos de barra. 

De forma simplificada, a Internet das Coisas pode ser descrita como uma rede de objetos físicos que conseguem se comunicar por meio da rede mundial de computadores e interagir com os ambientes externos. 

“Trata-se da expansão da web dos computadores para os objetos cotidianos. Daqui alguns anos, não vamos precisar nos conectar a internet porque ela vai estar em todos os lugares", afirma Rodrigo Sol, Diretor de Tecnologia da Raro Labs e professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. "A Web estará tão presente em nosso dia a dia que será imperceptível.”

Mas esses avanços tecnológicos não surgiram de um dia para o outro. Esse processo faz parte do que muitos especialistas chamam de Revolução Digital. 

O primeiro passo foi a ligação dos computadores por meio de uma rede, depois vieram o acesso das pessoas a internet pelos navegadores, posteriormente o comércio começou a ser digitalizado.  

Hoje, vivemos um período de intensa interação online proporcionada pelas redes sociais e pelo compartilhamento de vídeos. Além disso, os avanços da computação em nuvem, dos Big Datas e dos sensores foram fundamentais para essa nova fase da informação digital. 

As últimas barreiras para que a Internet das Coisas se tornasse viável caíram nos últimos anos, com a redução dos custos dos hardwares, o aumento de pessoas conectadas e adoção do IPV6 – novo protocolo que criou um número maior de endereços IPs, permitindo que mais dispositivos possam acessar a rede. 

Foram todas essas evoluções que tornaram possível que a Internet das Coisas deixasse de ser parte da ficção para se tornar realidade. O próximo passo é a digitalização do mundo, ou seja, quando todas as coisas estarão ligadas à internet. 

Smart Tvs estão mundando a forma como as pessoas assistem aos programas Foto: ThinkStock

NA PRÁTICA

Um dos melhores exemplos – de que a Internet das Coisas já está no dia a dia das pessoas – são as televisões com internet. Conhecidas como smart TVs, elas já representam 36% das vendas totais de TVs no mercado brasileiro no primeiro trimestre deste ano. 

Esses novos equipamentos permitem que as pessoas acessem sites, assistam vídeos e utilizem as redes sociais por meio da televisão. 

Mas mais do que isso, esses aparelhos estão ajudando a mudar o padrão de comportamento dos telespectadores. Em vez de ficarem limitados às programações dos canais abertos e por assinatura, os usuários estão optando por assistirem os programas que quiserem e na hora que quiserem por meio de sites ou aplicativos, como o Netflix ou Youtube.  

Essa nova forma de conteúdo já está alterando a audiência da televisão, que caiu 3% desde o fim do ano passado. E no futuro, o número de pessoas assistindo aos conteúdos online deverá ser maior: estima-se que 77% dos televisores brasileiros terão acesso à internet até 2018. 

Mas as smart Tvs são apenas um pequeno passo. A tendência é que o número de objetos conectados nos próximos anos cresça rapidamente. Hoje, existem cerca de 10 bilhões de dispositivos conectados, em 2020 serão 28 bilhões na rede, de acordo com uma estimava da International Data Corp (IDC).

Alguns dispositivos simples já estão à venda no mercado americano, como a caixa de ovos para geladeira desenvolvida pela GE. O equipamento avisa qual dos ovos está mais perto de estragar e informa o usuário durante as compras quantos ovos ainda há na geladeira. O preço é de U$ 10. 

Equipamentos mais complexos estão em desenvolvimento. O Google estuda há seis anos a viabilidade de um carro autônomo controlado por computadores. Os protótipos já rodaram 1,5 milhão de quilômetros e, recentemente, ganharam autorização do governo americano para trafegar pelas estradas da Califórnia. 

Na área da saúde, foram desenvolvidos objetos, como relógios e pulseiras, que monitoram a frequência cardíaca e pressão sanguínea dos usuários. Os aparelhos podem avisar os médicos quando há algo incomum com o paciente. 

O potencial do uso dessa tecnologia é imenso. Casas, empresas, fazendas e até cidades inteiras poderão ser totalmente controladas pela internet. 

Produzido por Satiztpm e traduzido por Universidade Buscapé Company

RISCOS

Como acontece com as novas tecnologias, a Internet das Coisas levanta uma série de questões relativas à segurança

Se hoje é possível hackear sites e contas, os problemas serão potencializados quando os objetos do cotidiano forem invadidos por pessoas mal intencionadas. 

Apesar das diversas formas de se proteger na internet, como antivírus e serviços de criptografia, esse ainda é um ambiente que exige muitos cuidados e inspira a desconfiança de alguns usuários. 

“Assim como as pessoas correm perigos acessando a internet e colocando informações pessoais nas redes, acredito que no futuro as pessoas estarão dispostas a correr esse risco em nome dos benefícios que essa tecnologia irá trazer”, afirma Sol. 

Outra questão que preocupa os especialistas é a privacidade. Se tudo ao redor estará conectado, o cotidiano dos indivíduos poderá ser facilmente vigiado e controlado por governos e instituições. 

Dessa forma, a sociedade estaria se encaminhando para um futuro semelhante ao descrito por George Orwell na obra 1984, em que um regime autoritário é capaz de ver tudo. 

As atuais discussões sobre a neutralidade da rede e a criação de uma regulamentação efetiva da internet podem ser a diferença entre um futuro simples e colorido, como nos Jetsons, e um sombrio e opressivo, como no livro de Orwell.