Tecnologia

Do mainframe ao PC: a trajetória de Ernesto Haberkorn


Um pioneiro da tecnologia da informação no Brasil revela os segredos de sua carreira de sucesso


  Por Thais Ferreira 29 de Setembro de 2016 às 13:00

  | Repórter tferreira@dcomercio.com.br


Em um domingo cinzento e frio na cidade de São Paulo, enquanto a mulher dormia e o filho assistia ao futebol na televisão, Ernesto Haberkorn se dedicava a uma das suas principais paixões: a programação.

Ele não tinha um prazo apertado ou queria cumprir alguma meta. Fez apenas pelo prazer e pelo desafio.

Não se trata de um jovem entusiasmado com a profissão. O riso solto e animação de menino escondem um senhor de 72 anos.

Para quem não reconhece o nome e o sobrenome, Ernesto Haberkorn foi um dos pioneiros da tecnologia da informação no Brasil, fundador da Siga, Microsiga e Totvs.

Posteriormente, criou  a TI Educacional, empresa especializada em cursos de sistemas de gestão empresarial, termo conhecido pela sigla ERP (Enterprise Resource Planning).

PRIMEIROS PASSOS

Essa trajetória de sucesso começou décadas atrás. Ernesto nasceu em 1943, em São Paulo, filho de judeus alemães que se refugiaram no Brasil. Recebeu uma educação rígida e, desde muito cedo, aprendeu a economizar cada centavo.

Werner Haberkorn, seu pai, era dono da Fotolabor, uma famosa agência de fotografias e produtora de cartões-postais. Ernesto estudou no colégio Dante Alighieri e, aos 15 anos, começou a trabalhar na empresa da família.

“Era o grande sonho do meu pai que eu assumisse a Fotolabor. Estava fadado a ser um fotógrafo”, afirma. “Mas eu gostava muito de números e, já nessa época, implantei um sistema de custos dentro da empresa.”

Ele decidiu, então, seguir por um caminho diferente. Formou-se em administração na Fundação Getúlio Vargas e fez um curso de programação.

Foi em 1965 que se encantou com as diversas possibilidades oferecidas pelo computador ou “cérebros eletrônicos”, como eram chamados na época. “Percebi que ele poderia automatizar tudo o que eu havia aprendido na faculdade”, diz Ernesto.

Escritório da TI Educacional

EMPREENDEDORISMO

Por 10 anos, ele trabalhou na área de programação em multinacionais. Uma delas era a ESC, uma subsidiária da Siemens.

Durante todo o período em que foi funcionário, ele nutria a vontade de empreender. Uma das inspirações foi um amigo que tinha uma empresa e que ganhava em um dia o mesmo que Ernesto recebia num mês. “Sentia inveja dele”, diz brincando.

Em 1974, da noite para o dia, a ESC fechou as portas. Ernesto decidiu, então, tirar seu sonho do papel e montar seu negócio próprio.

Ele usou os conhecimentos adquiridos em programação e começou a implantar sistemas de gestão em empresas. Esses foram os primeiros passos da SIGA (Sistema Integrado de Gerência Automática).

Havia, porém, um grande empecilho: Ernesto não tinha um computador, que na época eram aparelhos de grande porte chamados mainframes. Então, ele fez um acordo para usar os computadores de algumas empresas. Utilizava as máquinas apenas de noite e de madrugada, períodos em que ficavam sem uso. Em 1976, ele comprou seu próprio equipamento.

“Só pensei em desistir quando o computador quebrava. O mainframe levava muito tempo para ser consertado. Ficávamos 12 ou 24 horas sem fazer nada, apenas esperando o técnico”, conta.  “Eu ficava dando voltas no quarteirão para evitar os clientes que ligavam cobrando os relatórios.”

Nesse período, Laércio Cosentino, atual presidente da Totvs, entrou na empresa. Ao poucos foi subindo de cargo: de estagiário chegou a gerente.

Durante um almoço, ele propôs a Ernesto montar uma empresa para atender o crescente mercado de microcomputadores.  

“Na época, ninguém acreditava muito nisso. Muitos pensavam que era apenas algo que as crianças usariam para alguns joguinhos”, diz Ernesto. “Quase ninguém acreditava que eles substituiriam os mainframes.”

Apostando nesse mercado, em 1983, surgiu a Microsiga, em sociedade com Laércio.

Durante a década seguinte, a empresa obteve um enorme crescimento com a implantação do sistema Microsiga por todo o Brasil, a abertura de uma rede de franquias e a expansão para Argentina e México.

No começo dos anos 2000, alguns problemas técnicos obrigaram a empresa a realizar uma grande reforma no sistema. Foi assim nasceu a única linguagem brasileira de programação, a ADVPL, que é usada ainda hoje.

Em 2005, a Microsiga e a Logocenter foram fundidas e se transformaram na Totvs. No ano seguinte, foi realizado o IPO e, por causa da idade, Ernesto teve que se afastar do conselho da empresa.

Em vez de sentar e aproveitar a aposentadoria, ele já tinha outros projetos em mente, dessa vez relacionados à educação.

 Ernesto já dava aulas e escrevia livros técnicos sobre programação. Para continuar com esse trabalho, em 2007, aos 65 anos, fundou  a TI educacional.

“Vou fazer 73 anos agora em outubro e ainda tenho muita lenha para queimar”, afirma. “Não consigo ficar sem fazer nada.”

Após alguns anos de pausa, ele voltou a programar. E inovou mais uma vez ao fazer um sistema de gestão empresarial na nuvem.

Haberkorn dedica grande parte de seu tempo ao Circuito Netas

FUTURO

Recentemente, lançou seu décimo quarto livro: “Dicas de Como Chegar Lá”, obra que reúne histórias de sua vida e de suas empresas.

Hoje, o empresário se dedica a seu mais novo empreendimento o Circuito Netas, empresa que realiza treinamento e desenvolvimento de pessoas.

Ernesto criou sua própria metodologia baseada dez princípios, que podem ajudar profissionais a prosperarem tanto na vida quanto na carreira.Grande parte do seu tempo é dedicado a esse projeto. 

Mas, entre uma atividade e outra, ele ainda arruma tempo para um dos seus maiores prazeres: programar.