Tecnologia

Como as marcas estão lidando com a acessibilidade na web


A questão não está restrita às lojas físicas. Empresas como Avon e Boticário já promovem a inclusão do público portador de deficiências


  Por Mariana Missiaggia 12 de Dezembro de 2017 às 13:02

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Cerca de 640 mil brasileiros são portadores de possuem cegueira ou baixa visão, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Ampliando um pouco mais este cenário, 45 milhões - quase um quarto da população - têm algum tipo de deficiência, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010.

Assim como qualquer outro cidadão, essa fatia da população também utiliza a internet para as mais diferentes finalidades, entre elas a de pesquisar ou comprar produtos e serviços online.

Apesar dos avanços dos sistemas tecnológicos, estes usuários ainda encontram muitas dificuldades no dia-a-dia da vida digital.

ELENCO INCLUSIVO

Em parceria com a associação Mais Diferenças, a Avon iniciou um processo de acessibilidade para todos os canais digitais da marca - site, Avon Store, Compartilhe Avon e redes sociais.

A campanha intitulada como #donadessabeleza traz ações de comunicação com deficientes auditivos e visuais, além de pessoas com outras modalidades de deficiência e idosos.

A empresa inseriu em seu site recursos de acessibilidade, como descrição de imagens nas fotos, audiodescrição, legenda e libras nos vídeos da Campanha #Donadessabeleza.

Logo nos primeiros segundos da versão produzida para o Youtube (vídeo acima), a vlogueira Pri Camomila, portadora de deficiência auditiva, apresenta o sinal em Libras que significa Avon, além de reproduzir na linguagem de sinais todo o conteúdo.

Em seguida, aparecem ainda a paratleta Terezinha Guilhermina, que é cega, e Samanta Quadrado, portadora de síndrome de Down.

Ações similares foram divulgadas pelo grupo O Boticário. Desde 2013, a empresa se mostra engajada na causa.

Para materializar essa transição inclusiva, a companhia ouviu consumidoras impactadas pela descrição de imagens. Um time de funcionários portadores de deficiência também participou tanto da construção do plano e, com frequência, da validação dos materiais desenvolvidos.

INTERAÇÃO DE CLIENTE DEFICIENTE COM AÇÃO DA AVON

As descrições das publicações da marca em redes sociais, como Facebook e Instagram, são indicadas com uma hashtag, a #pracegover.

Além de expandir o acesso dos consumidores à marca e cumprir a legislação que garante os direitos de acessibilidade para pessoas com deficiência, o objetivo da ação é também estimular outras empresas de varejo a incluírem o tema em seus projetos de gestão e promover consciência na sociedade.

 

USABILIDADE X ACESSIBILIDADE 

A navegação da pessoa com deficiência visual se dá por meio de um software leitor de tela, que lê e repassa ao usuário todas as informações que aparecem no monitor.

A única exceção são as imagens, que não são “lidas” por esses programas. As redes sociais, recheadas com fotos e ilustrações -como o Instagram e Facebook, -tornam essa interação quase impossível para uma pessoa cega.

Tomando como exemplo o vídeo elaborado pela Avon, é possível perceber que toda a exibição é norteada pela autodescrição que narra tudo o que se passa no comercial. Este é um bom exemplo de uma das tantas barreiras que precisam ser eliminadas no processo de comunicação da marca com os consumidores. 

Apesar dos projetos que estão surgindo, a demanda por inovações que propiciem inclusão ainda está longe de ser atendida, de acordo com Luís Henrique Mauch, 38 anos, fundador da Ktalise -startup que promove soluções tecnológicas com foco em acessibilidade para o mercado audiovisual.

Mauch está envolvido com o tema há mais de 15 anos e também é fundador da ONG Mais Diferenças. Como programador, ele costuma fazer uma analogia bem didática sobre a inclusão digital.

"Imagine uma casa com escada, que é concretada e transformada numa rampa bem íngreme. Isso é uma adapatação que muda a usabilidade, porém não a acessibilidade. Como um cadeirante vai descer com essa condição?", diz.

Na teoria, algumas mudanças legais aconteceram na criação e desenvolvimento de websites brasileiros desde 2015, quando a lei de inclusão para pessoas deficientes entrou em vigor no país.

Além de estabelecer uma série de direitos para pessoas com deficiência, a lei também trata dos direitos a comunicação deste público. a parte da população, como é possível ver no seguinte trecho:

"É obrigatória a acessibilidade nos sítios da internet mantidos por empresas com sede ou representação comercial no País ou por órgãos de governo, para uso da pessoa com deficiência, garantindo-lhe acesso às informações disponíveis, conforme as melhores práticas e diretrizes de acessibilidade adotadas internacionalmente."

No entanto, na prática quase nada mudou. Em 2002, a libras foi reconhecida como a segunda língua oficial do Brasil. No entanto, a linguagem está presente em poucas produções. 

No mundo digital, Mauch diz que tornar um site inclusivo não é tão simples quanto parece. Na maioria das vezes, é preciso reconstruir a página do zero. 

Seguindo as recomendações internacionais, a audiodescrição, a legenda e a tradução-interpretação em libras, por exemplo, são itens que deveriam estar em todos os planejamentos de conteúdo audiovisual, em qualquer plataforma. 

Sem que tornem os conteúdos acessíveis, as marcas perdem potenciais consumidores. Uma estimativa americana aponta que no mundo, esse público representa um mercado de US$ 100 trilhões. Além disso, os sites acessíveis possuem melhor posicionamente de busca no Google

Além de amparar pessoas que sofrem de cegueira e surdez, uma das ferramentas de acessibilidade citada por Mauch, o Browsealoud. pode tornar qualquer site acessível às pessoas com diferentes tipos de deficiência e dificuldades de leitura, como crianças, idosos, disléxicos, com paralisia cerebral, hiperativos, tetraplégicos ou analfabetos a partir das funções oferecidas.

A ferramenta foi desenvolvida por uma fábrica irlandesa e já está instalada em mais de sete mil websites do mundo. No Brasil, é comercializado pela Ktalise.

Outro aplicativo, o Hand Talk, traduz texto e voz para a língua sinais com ajuda de um personagem - uma espécie de intérprete virtual que além de traduzir, ensina expressões e sinais de palavras em libras.

"Algumas mudanças não são tão complexas ou caras. Muitas empresas perdem um público que não está sozinho, simplesmente, por falta de informação", diz Mauch.

REDES SOCIAIS

Daniel Gasparetti, diretor de estratégia da agência Mutato, explica que as redes sociais são plataformas que foram pensadas por grupos exclusivos para grupos exclusivos. Portanto, é mais difícil fazer adaptações em sistemas que não foram desenhados para comportar essas realidades.

“Elas não são pensadas como serviços públicos ou governamentais que, por lei, devem se preocupar com o acesso universal”.

Em 2016, Gasparetti coordenou um dos projetos da Avon para transformar o site da marca em uma plataforma acessível.

No mesmo ano, a agência também estruturou uma ação para a Coca-Cola durante os Jogos Paralímpicos do Rio para tornar todo o conteúdo da marca o mais acessível possível, conforme o Facebook, Twitter e Instagram, permitiam.

De acordo com o especialista, na prática, cada plataforma precisa ser trabalhada de forma individualizada, pois se tratam de linguagens diferentes.

O Twitter é muito focado em texto, o Instagram em imagens e o Facebook mistura os formatos. No caso dos deficientes visuais, Gasparetti diz que o texto é um problema mais superável, devido aos softwares que fazem conversão para áudio.

Para deficientes auditivos, as imagens funcionam de maneira mais natural. No entanto, se considerarmos a necessidade de contemplar todas as demandas de acessibilidade, em geral, todas as ferramentas apresentam um grande desafio com soluções diferentes.

As empresas brasileiras, por exemplo, ainda estão muito limitadas à lógica básica da acessibilidade em seus conteúdos, descrevendo imagens, gifs ou vídeos, que são recursos interessante, porém longe do considerado ideal.

Para Gasparetti, seria interessante se as plataformas tivessem iniciativas massivas para ampliar sua acessibilidade. “Não se trata de um trabalho caro, mas que exige cuidado e paciência”.

FOTO: Thinsktock