Tecnologia

Até que ponto a banda larga estimula o crescimento do e-commerce?


Infraestrutura, velocidade, preço. Saiba como o acesso à internet via mobile pode influenciar o comércio eletrônico -sobretudo se o que estiver em jogo for o desejo de consumir online


  Por Karina Lignelli 03 de Dezembro de 2015 às 09:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Como um inveterado consumidor online se sente quando o site da loja cai ou não carrega em pleno processo de compra? E o lojista, que perde boas vendas por uma simples falha de conexão

Tudo isso conduz a uma indagação: a situação atual da banda larga é favorável ao e-commerce no Brasil? 

A princípio, deveria ser, já que, mesmo não crescendo ao ritmo de 20%, 30% dos anos anteriores, o comércio eletrônico fechará o ano com alta de 15% – um fenômeno frente ao varejo como um todo, que deve encerrar 2015 no vermelho. 

Para avaliar essa questão, é preciso entender como funciona a internet no país e sua ligação com o e-commerce. Começando pelos acessos em banda larga, que chegaram a 226 milhões no 3º trimestre deste ano. 

Na liderança, a banda larga móvel, ou seja, via 3G ou 4G, em que os acessos chegaram a 200,5 milhões de conexões em setembro – uma alta de 32% ante igual período de 2014, segundo a Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), com base em dados da Anatel. 

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Na sequência, vem a ampla penetração dos smartphones, que chegou a 92,5% no segundo trimestre de 2015, segundo dados da IDC Brasil, consultoria especializada em TI, telecomunicações e consumo em massa de tecnologia. Em resumo: o consumidor está cada vez mais conectado. 

“Impulsionados pelo whatsapp - já que muita gente começou a acessar a internet por causa dele -, os smartphones se tornaram os maiores dispositivos de acesso.  E tem cada vez mais gente aderindo ao e-commerce por causa deles”, diz Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco. 

Outro levantamento da Telebrasil aponta que a cobertura das redes de banda larga 3G hoje já atende a 94% dos brasileiros em 4.283 municípios. Já as 4G chegam a apenas 343 cidades, mas que concentram 51% da população. E isso leva a outra conexão. 

De acordo com estatísticas mundiais de internet, a cada duas pessoas incluídas na rede, pelo menos uma se torna um novo consumidor do e-commerce, afirma Vinícius Garcia de Oliveira, engenheiro responsável pelos processos de inovação da Diretoria de Redes Convergentes do CpqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações).

E o preço já nem é mais considerado um empecilho: em termos de acesso, o Brasil hoje tem o segundo mais barato em planos de entrada de banda larga, comparado a 21 países da América Latina. 

Só fica atrás da Costa Rica, de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos Aileen Agüero, a partir de um levantamento da rede Dirsi (Dialogo Regional sobre Sociedad de la Información). 

“Diferentemente de muitos países, no Brasil há quatro operadoras, e a concorrência influencia. O preço, de forma geral, tem caído não só no mobile, mas no wi-fi. Em alguns casos, custa R$ 2 o megabit – um valor competitivo em nível mundial”, diz Oliveira. 

Somando-se a tudo isso está a expansão de uma recente, porém crescente modalidade de comércio eletrônico influenciada diretamente por esses dados – o mobile commerce, ou as vendas via dispositivos móveis, como smartphones e tablets.   

Procurar lojas, pesquisar preços, visualizar produtos e até...comprar. Não é mais projeção: o crescimento do m-commerce, que há cerca de quatro anos detinha pouco menos de 1% de participação no comércio eletrônico, deve bater na casa dos 15% e faturar R$ 6 bilhões em 2015, segundo o 32º Relatório Webshoppers, da consultoria E-bit/Buscapé. 

Mesmo em um cenário econômico em que o varejo deve fechar em queda, essa participação poderia chegar a 20%, semelhante do mercado americano. 

“Só não chega pela (falta de) qualidade da banda larga no país”, afirma Pedro Guasti, vice-presidente de relações institucionais da Buscapé Company, co-fundador da E-bit e um dos idealizadores do Webshoppers. E essa é uma outra questão a analisar.  

NA PRÁTICA

Além das proporções continentais, a distribuição irregular de municípios, de habitantes e até de provedoras de acesso, a velocidade da conexão à internet via fibra ótica no Brasil pode ser um complicador da questão. De acordo com a Anatel, a média atual é de 3 Mbps (megabites por segundo). 

O relatório trimestral “State Of Internet”, da Akamai Technologies, confirma, apesar da ligeira diferença para mais: com 3,4 Mbps, o Brasil aparece na 89ª posição em velocidade de conexão em um ranking de 144 países, por todos os fatores citados acima. 

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Para ter uma ideia: a Coreia do Sul é a líder na média de velocidade, com 23,5 Mbps – meta do governo brasileiro até 2018, apesar de nenhum plano ainda ter sido sinalizado nesse sentido. 

Mas qual o impacto disso no e-commerce? Tude, da Teleco, lembra que o 4G, que dá velocidade e expansão para atender a isso, ainda tem alguns anos para se expandir por aqui. “A faixa de frequência, de 700 Mbps, só estará disponível a partir de 2019.” 

Por outro lado, o smartphone pode ser usado para navegar tanto na banda larga móvel quando na fixa. E o wi-fi, segundo a Telebrasil, já está presente em todos os mais de 5,5 mil municípios brasileiros. 

TUDE, DA TELECO: CONSUMIDOR CADA VEZ MAIS CONECTADO/FOTO: DIVULGAÇÃO

Há pesquisas que mostram, segundo Tude, que mais de 50% do consumo de dados são de navegação via wi-fi. Ou seja, o usuário não depende do plano da sua operadora para acessar uma loja virtual. Muito menos, para comprar. 

“Esse, aliás, é o grande negócio para os e-commerces, já que o consumidor usa o smartphone para comparar preços pela internet na loja física. Ou comprar na hora pelo browser, mesmo”, completa.

Oliveira, do CpqD, tem opinião semelhante. Ele lembra que, apesar do crescimento do m-commerce, ele tem servido mais como suporte para procura de preço e comparação com o varejo físico do que para comprar. 

“Em termos de apelo, as vendas efetivamente fechadas dessa forma ainda estão em torno de 10%. As outras 90% são concluídas nos tradicionais notebooks e PCs.” 

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Para João Paulo Bruder, gerente de Telecom da IDC Brasil, a questão da qualidade da banda larga para o e-commerce é altamente subjetiva, pois tem mais a ver com a expectativa de performance da loja virtual em si. 

Isso porque a infraestrutura que importa é a que está por trás do balcão, que deve prover a melhor experiência de navegação possível para o consumidor - o que leva a uma espécie de “maratona de cem metros” entre os e-commerces para ver quem vende primeiro. 

“Mas ninguém deixa de comprar porque não conseguiu carregar a página. Ou seja, não é a qualidade da banda larga que fará o cliente escolher uma loja ou outra, e sim a experiência de compra." Aos lojistas, fica a dica.  

IMAGEM: Thinkstock