Sustentabilidade

Um novo Rio Pinheiros para os paulistanos


Projeto de despoluição prevê investimentos de R$ 1,5 bilhão e a promessa de finalizá-lo até 2022. Porém, um dos principais desafios é engajar a população, afirmou Edson Airoldi, diretor da Sabesp, na ACSP


  Por Karina Lignelli 18 de Novembro de 2019 às 07:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Quem circula pela Marginal Pinheiros hoje, talvez nunca tenha pensado que o malcheiroso rio de 25 km e 25 afluentes já foi um dos locais preferidos dos paulistanos para nadar, pescar e até remar na primeira metade do século passado.

Agora, a sua despoluição, para a qual está previsto um investimento de R$ 1,5 bilhão por meio de 14 pacotes de licitação, é uma das principais promessas, mas também um dos grandes desafios do governo do Estado de São Paulo até 2022, após diversas tentativas frustradas em gestões anteriores.

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O passo a passo desse projeto, que prevê intervenções nas áreas das sub-bacias dos afluentes do rio, onde vivem 3,3 milhões de pessoas, além de ações socioambientais para engajamento da população foram tema da palestra "O novo Rio Pinheiros", apresentada na última quarta-feira (13/11) por Edson Airoldi, diretor de tecnologia, empreendimentos e Meio Ambiente da Sabesp, ao Conselho de Política Urbana (CPU) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Assim como nos moldes do Projeto Tietê - que entre 1992 e 2018 construiu mais de 4,5 milhões de interceptores e levou coleta e tratamento de esgoto para mais de 10 milhões de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) -, para o Pinheiros a Sabesp mapeou toda a área do entorno, localizando ligações de esgoto a serem realizadas.

Segundo dados do governo do Estado, o mapeamento identificou cerca de 500 mil imóveis que deverão ter seu esgoto encaminhado à estação de tratamento, sendo que 73 mil destes precisam ser conectados às redes de coleta.

(DA ESQ.P/DIR.) AIROLDI, DA SABESP, E PELA, DA ACSP:
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Para isso, a Sabesp, que atua sob coordenação da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente e em parceria com a EMAE, a Cetesb, o DAEE e a CPTM, seguirá três linhas mestras de atuação: ações estruturantes e complementares, medição de qualidade da água e hidrologia e modelagem e simulação da qualidade da água, diz Airoldi.

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Lembrando que o trabalho de dragagem vem sendo feito há tempos, o diretor da Sabesp diz que a maior parte do problema do Pinheiros hoje é saneamento, já que a carga difusa (poluição das águas gerada em localidades numerosas ou esparsas, como centros urbanos) é levada para o rio em período de chuvas.

"Claramente a margem direita do rio é melhor que esquerda, porque essa tem problemas de mau uso e ocupação do solo (uma espécie de 'franja' em áreas de mananciais)", afirma. "Um dos desafios é tirar essa carga dos 25 córregos."

A ideia é que o rio seja útil à população: por isso, em vez de tentar a despoluição direta, o foco serão os córregos que deságuam nele, para que, com ajuda de estações de recuperação da água, a carga poluidora não chegue neles.

Algumas inovações serão direcionadas às áreas de urbanização informal, onde o esgoto acaba lançado nos córregos porque a ocupação não deixou espaço para instalação da infraestrutura de coleta. Nesses locais, segundo Airoldi, a Sabesp implantará estações especiais que vão tratar o próprio curso-d’água que os recebe. Das áreas que receberão investimentos maciços estão as bacias do Pirajuçara, Jaguaré, Cachoeira, Guido Caloi, Cordeiro e Água Espraiada.

Outra medida será utilizar soluções que garantam uma condição 100% aeróbia ao Rio Pinheiros, ou seja, de oxigenação da água, para evitar o mau cheiro causado pela formação de gás sulfídrico. "O desafio é tirar 2,8 mil litros de água por segundo dos afluentes até 2022, para que o rio possa voltar a ser utilizado", disse o executivo.

Com isso, os resultados esperados, de acordo com levantamento da Sabesp, aumentarão o alcance da coleta de 89% para 94% em 2022, e o tratamento de esgoto de 55% para 94% até lá, encaminhando as contribuições de quase 500 mil unidades atendidas para Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) de Barueri.

Mas isso, segundo Airoldi, não quer dizer que, daí em diante, o Rio Pinheiros ficará apto à prática de esportes ou contato direto com a água pelo consumo, mas sim de manter a oxigenação e melhorar a salubridade do entorno.

"Não é verdade dizer que a população vai poder nadar nele, porque quanto maior o rio, maior a vazão, e a capacidade de diluição é menor", disse, lembrando que o mesmo foi feito em rios como Tâmisa (na Inglaterra) e Sena (na França). "Eles não cheiram mal (pelas condições aeróbias), mas não dá para ter contato direto com as águas”, reforça.

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QUANDO TODOS GANHAM

O maior desafio, porém, segundo o diretor da Sabesp, serão as ações socioambientais para engajar a população, principalmente a de maior vulnerabilidade social, na recuperação dos cursos de água do entorno do Rio Pinheiros.  

Outra atividade importante mostrará o andamento e o legado de obras de despoluição - como a do Tietê, que engloba o Rio Pinheiros e até 2025 vai ter atingido mais de 15 milhões de pessoas, diminuiu a mortalidade infantil de 27 para 11 de 1992 para 2016 (a cada mil nascidos vivos - dados da Fundação Seade) e reduziu a mancha de poluição em 92%.

"Não adianta limpar o Pinheiros sem tratar o resto. Sem a conscientização e envolvimento da sociedade, fica inviável", reforça.

Apesar de não oferecer impacto direto aos comerciantes, Antonio Carlos Pela, vice-presidente de relações municipais da ACSP e coordenador geral do Conselho de Política Urbana (CPU) da entidade, lembrou dos efeitos da despoluição do Rio Pinheiros sobre a população - em especial nos bolsões mais pobres da cidade, carentes de saneamento.

"É de interesse geral tornar o Rio Pinheiros mais saudável para São Paulo, e não mais um enorme esgoto a céu aberto."

Pela disse que, através da ACSP, o CPU sempre trabalhou para os habitantes da cidade terem melhor qualidade de vida e, assim como na elaboração do Plano Diretor, o Conselho participará propondo mudanças e sugestões. "O comércio ganha, o governo ganha, e o paulistano ganha. Nesse caso, atingindo a população no que ela é mais sensível: a saúde."

FOTOS: Rovena Rosa/Agência Brasil e Bianca Cavalcante/ACSP