Sustentabilidade

Startups que querem mudar o mundo


Além da tecnologia, startups são motivadas pelo impacto positivo que querem gerar ao seu redor propondo soluções para problemas sociais e ambientais


  Por Agência Sebrae 16 de Dezembro de 2019 às 12:23

  | Informações do Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena empresa


Quando se fala em startups alagoanas que decolaram e estão atingindo vários marcos de sucesso no mercado, não tem como não lembrar da Hand Talk. Carlos Wanderlan, Ronaldo Tenório e Thadeu Luz desenvolveram, em 2012, essa plataforma de tradução digital e automática do português para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), por meio da figura do Hugo, ganharam vários prêmios pelo caminho e, hoje, completam sete anos de estrada com um aporte do Google e prestes a aprender American Sign Language (ASL) para aplicar na plataforma.

“Se você me perguntasse no ano passado se era isso o que eu tinha em mente para a Hand Talk em 2019, eu diria que não. Se você me perguntar onde eu visualizo a empresa no ano que vem, eu também não sei – não sei onde estaremos nos próximos seis meses. Mudou tudo e mudou muito rápido”, assumiu Carlos Wanderlan, comentando a guinada na empresa após a seleção no Google AI Challenge e o aporte de R$ 750 mil dólares em maio deste ano (à época, R$ 3 milhões).

A Hand Talk inscreveu-se nessa seleção do Google Org, definida como “trabalhando juntos para o uso de inteligência artificial pelo bem comum”, propondo soluções para problemas sociais e ambientais. O que a gigante do Silicon Valley oferecia em troca era o aporte compartilhado de 25 milhões de dólares, mentorias e auxílio dos profissionais de inteligência artificial do próprio Google, além de um encontro com os especialistas em startup do Google Launchpad Accelerator em San Francisco, na Califórnia. O programa inteiro vai de maio a novembro de 2019. Foram mais de 2.600 inscritos de 119 países. Vinte propostas foram contempladas. A Hand Talk foi a única no Brasil.

Os dias em San Francisco colocaram os alagoanos em comunicação com outras mentes e ideias que estão mudando a realidade das pessoas. Foram feitas conexões com outros profissionais, contatos com outras realidades e problemas, apresentação de novas ideias e possibilidades de mercado. Isso, por exemplo, antecipou a expansão para o mercado americano e o contato da Hand Talk com surdos dos Estados Unidos para ensinar Hugo as minúcias do ASL.

Um orgulho para Alagoas e para o Brasil, não é? Só que um ponto nessa história é extremamente importante, e a verdadeira guinada da Hand Talk.

“A gente participou de diversas reuniões com o Governo do Estado para colocar o Hugo no site deles, com a Prefeitura também; eles adoravam a ideia, mas a coisa não andava. Falamos com outros potenciais clientes aqui em Maceió, mas sem evolução. Vimos que não dava para esperar e centramos nossos esforços fora do estado. A Hand Talk só tem 3,35% de seus clientes em Alagoas, e olhe que somos alagoanos exportando tecnologia para o mundo”, destaca Carlos Wanderlan.

A CAMINHADA DE HUGO

Outro fato interessante sobre a prospecção de clientes para a Hand Talk é o que eles pretendem fazer com o Hugo.

“Se a empresa quer nos contratar só para ter o selinho dela de inclusão no site e pronto, depois não renovar, nem adianta nos procurar, que não queremos isso. Estamos interessados em clientes que realmente queiram trabalhar a inclusão e a acessibilidade”, reforça Wanderlan.

Essa é uma questão vital para as empresas do século XXI, para as quais o trio missão-visão-valores é mais do que palavras em uma plaquinha. Para as startups, de modo mais específico, que surgem como forma de resolver um problema da sociedade ou facilitar algo para os usuários, a “vontade de mudar o mundo” também não é apenas um conjunto de palavras vazias. O propósito do seu negócio é algo muito forte e guia as conexões inerentes à economia colaborativa do mundo digital.

Não à toa, em seus primeiros passos, a Hand Talk recebeu o World Summit Award Mobile (WSA-Mobile), prêmio internacional promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU), considerado o mais importante para a tecnologia móvel. O evento foi em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, em 2013, e colocou os alagoanos no centro do palco mundial pela primeira vez.

A Hand Talk esteve nas primeiras turmas do Projeto de Startups do Sebrae em Alagoas, ainda nos tempos do Arranjo Produtivo Local (APL) Tecnologia da Informação. Em 2014, foi uma das contempladas pelo Edital de Inovação Tecnova, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), quando recebeu R$ 400 mil para, entre outras aplicações, desenvolver o plugin que realiza a tradução de websites.

Com a caminhada rumo à consolidação, a Hand Talk aproximou-se da categorização de negócio de impacto social, quando a empresa une os mecanismos tradicionais de mercado enquanto visa alto impacto no segmento em que está atuando. O próprio Carlos Wanderlan inseriu-se na dianteira das discussões sobre o tema em Alagoas e outros estados – em 2017, chegou a ser um dos palestrantes sobre negócios sociais da Feira do Empreendedor organizada pelo Sebrae, em Maceió.

“Antes de tudo, é preciso ter empatia e viver o problema do outro. A métrica da receita anda lado a lado com a métrica de impacto. Para o empreendedor social, é preciso ter a atitude de querer mudar o que está errado”, afirmou à época.

Mudar a realidade em que estão inseridos é um dos motivos da Hand Talk manter seu escritório central em Maceió. Há uma equipe de vendas em São Paulo e, em breve, outra pode surgir nos Estados Unidos, mas o “quartel-general” segue em terras caetés.

A empresa emprega surdos em sua equipe direta e entre os consultores para construir o dicionário de sinais que Hugo entende e reproduz. Sempre que sobem em algum pódio ou participam de eventos fora do país, Carlos Wanderlan, Ronaldo Tenório e Thadeu Luz carregam uma bandeira de Alagoas ou citam o estado. Podem não saber onde a Hand Talk estará no próximo ano ou mais além, mas, para deixar Maceió de vez, a proposta terá que ser muito boa.

TECNOLOGIA ROSA

Essa história de sucesso inspira muitos outros empreendedores digitais alagoanos, não só pela conquista financeira e de mercado, mas porque a Hand Talk consegue tudo isso dando sua contribuição para o mundo. É o que Alessandra Pontes quer fazer com o seu aplicativo Touch Saúde: colocar o conhecimento sobre o próprio corpo na palma da mão das mulheres para descobrir logo e tratar o câncer de mama antes que a doença avance.

Alê, como é chamada, parte da própria experiência: como enfermeira, sabendo realizar o autoexame das mamas, identificou uma leve alteração, foi diagnosticada com a doença e conseguiu iniciar o tratamento de forma precoce. Ao longo dessa batalha, conversando com outras pacientes e outras mulheres, percebeu que essa não era uma informação tão simples e difundida quanto pensava.

“As meninas, geralmente, não faziam o autoexame; algumas, por não saberem como, e outras porque esqueciam. Quase nenhuma sabia que havia um melhor momento para realizar o autoexame das mamas. Então, como enfermeira, professora, mulher e ex-paciente, eu comecei a me questionar e tive a ideia do App, que, diante das datas da menstruação da mulher e idade, envia um lembrete de quando ela deve fazer o autoexame, trazendo todas as orientações para que seja feito da forma correta.”, explica.

Isso foi há seis anos, em 2013. Sem saber programar, mas com mestrado em Modelagem Computacional do Conhecimento pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Alê visualizou o problema e traçou uma proposta para o desenvolvedor. Em 2015, o Touch Saúde começou a ganhar corpo, ou melhor, código, em sociedade com o programador Kledson Soares, e foi lançado oficialmente no final de 2018.

Nas visitas ao Projeto de Startup do Sebrae, o aplicativo ganhou também alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especificamente com o número 3: assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades.

O que o Touch Saúde propõe não é só orientar sobre o câncer de mama – a segunda maior causa de morte para mulheres em todo o mundo e, no Brasil, responsável por 12 mil mortes a cada ano e 60 mil novos casos descobertos no mesmo período –: é munir a mulher de conhecimento e segurança sobre o próprio corpo. O acompanhamento mensal permite que ela identifique qualquer sinal estranho, por mínimo que seja, e procure a orientação médica adequada o mais rápido possível.

Outra meta é manter a autoestima da mulher e ressignificar o momento de descoberta da doença. "Eu tive a chance de fazer um tratamento mais leve, menos agressivo. Então, mulheres, se toquem, façam o autoexame. Quando a gente se conhece, as chances de identificar uma coisa diferente e de sobreviver ao câncer são bem maiores. Não é só uma mama, é a mulher percebendo qualquer alteração que seu corpo teve ao longo daquele mês para que ela possa cuidar da sua saúde.", alerta.

Essa convicção é o que alimenta a esperança da empreendedora digital diante dos obstáculos do mercado para uma startup, ainda mais quando se trata de um negócio de impacto social, já que os números, às vezes, não são tão atrativos aos investidores nos pitches, como apontou Alessandra.

“Trabalhar com impacto social é mais difícil, acredito eu, por não termos um modelo de negócio com números perceptíveis para o investidor ou para as empresas, que visualizam retorno imediato. Geralmente, esse lucro não é tão visível financeiramente. As pessoas gostam da proposta, mas não ajudam você a fazê-la decolar”, pondera, acrescentando que, no momento, o Touch Saúde está em fase de tração por meio de parcerias com empresas que foquem no bem-estar da mulher.

Como combustível, Alê busca forças em histórias como os dos criadores da Hand Talk, pessoas que ela conheceu no Sebrae, que passaram pelas mesmas dificuldades até o crescimento, mas que triunfaram sem abrir mão do compromisso de tornar o mundo melhor com seu trabalho.

“Eu acho que o Carlos Wanderlan e sua equipe na Hand Talk são exemplo de persistência para nós. Eles conseguiram atingir um nível alto no mercado, e é como se nossos projetos estivessem no mesmo patamar, porque temos alguém que chegou lá. Muitas vezes, parece ser rápido, mas só a equipe que está por trás é que sabe como foi o processo. Foram mais de 5 anos tentando, e eles não desistiram, continuaram na luta, acreditando na proposta e visualizando as pessoas que precisavam do Hugo”, reforça Alessandra Pontes. O aplicativo Touch Saúde está disponível gratuitamente na plataforma Android e, em breve, também para iOS.

A EDUCAÇÃO POR TRÁS DO APP 

O impacto social de uma startup não está só no problema que ela busca resolver. Às vezes, o benefício que leva à sociedade está por trás da programação, nas pessoas que a compõem. Como, por exemplo, ajudar a dar uma nova cara à educação e dar novas perspectivas de futuro a jovens mentes cheias de energia e ávidas por possibilidades.

O Instituto Federal de Alagoas (IFAL) tem uma vasta tradição em ensino e pesquisa de qualidade. Uma de suas ferramentas é o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), que professores lançam aos alunos como forma de projetos específicos a serem desenvolvidos, gerando conhecimento e um protótipo de solução para a sociedade.

Um desses projetos do professor Flávio Medeiros foi o Hupi, um guia de bolso para turistas. O projeto começou a ser trabalhado pelos alunos Anderson Feitosa e Gabriel Lima, do bacharelado em Sistemas de Informação. Quando surgiu a maratona de programação “Hackaton do Turismo”, promovida pela Prefeitura de Maceió, em 2017, o trio refinou mais a proposta e apresentou no desafio. Venceram.

Além da possibilidade de contrato para fornecer os serviços do Hupi ao município, eles começaram ali uma relação com o Sebrae em Alagoas dentro do Projeto de Startups.

“As reuniões ajudaram muito no networking e na educação para negócios, porque a gente tem muito conhecimento na parte técnica, mas precisa de ajuda na parte de gestão, nas coisas ligadas ao empreendedorismo. E o Sebrae pode nos apoiar com isso”, comentou Gabriel, de 22 anos.

Ali, o professor Flávio viu possibilidades muito maiores não apenas para seus alunos.

“Eu acredito que o IFAL, assim como a Academia em geral, tem necessidade de estar mais próximo da indústria, e não só na área da Informática, mas também nas outras. Em nossas pesquisas, precisamos orientar os alunos a atacarem problemas reais das empresas, e o parceiro para isso é o Sebrae, que tem muito forte essa veia do empreendedorismo, que pode trazer palestras e eventos para dentro do Instituto”, revelou Flávio, que é chefe do Departamento de Pesquisa e Inovação do IFAL, além de se envolver com a Pós-graduação.

Essa foi uma empolgação que não passou despercebida. “O Flávio tem esse olhar diferenciado, de quem acredita que não deve só formar o aluno, mas que esse aluno tem que ajudar a desenvolver o estado de Alagoas. Essa forma de enxergar o ensino está contagiando professores em outros polos. E o próprio IFAL está nesse processo de transformação, de olhar para fora e ver o que o estado está precisando”, diz Áurea Andrade, analista da Unidade de Comércio e Serviços (UCS) do Sebrae em Alagoas e gestora do Projeto de Startups.

A oportunidade diferenciada de formação acadêmica ainda é outro fator a se considerar nessa parceria, destacou Áurea. “As empresas de tecnologia da informação precisam de gente capacitada, tanto que sempre tem vagas abertas; na maioria dos casos, aqui em Alagoas, a gente não consegue preenchê-las. Às vezes, tem gente na China desenvolvendo uma parte do software que a Hand Talk está precisando, por exemplo, porque não entramos aqui o profissional com a expertise necessária”, complementou.

Contudo, às vezes, é preciso mais do que formação adequada para manter esses jovens nas vagas apontadas. Lembra do Anderson e do Gabriel, que trabalharam com o professor Flávio no Hupi? O contrato com o município teve que esperar um pouco por conta de uma viagem à Suécia, para a Conferência Internacional de Engenharia de Software.

“Eles elencam vários projetos e você escolhe um para desenvolver, mas não é só entregar. Os jurados observam todo o processo de engenharia por trás, e você tem que apresentar como o projeto foi desenvolvido. Foi uma coisa bem grande, bem complexa.”, relatou Anderson Feitosa, 20 anos.

A ansiedade dos jovens girava em torno da competição em si, da viagem à Europa e até mesmo do fato de andarem de avião pela primeira vez. “Foram eles e outros dois jovens de Rio Largo, Igor e Genilson, do Curso Técnico. Trabalhamos durante seis meses e o Anderson treinou muito a apresentação, pois não falava inglês fluente. Foi uma loucura lá!”, contou Flávio.

O resultado dessa loucura? “Os meninos ficaram em 3º lugar, sendo que a equipe vencedora era de alunos de mestrado de uma faculdade de Desenvolvimento de Software distribuída por vários países da Europa. Em 2º lugar, ficou outra equipe de mestrado”.

O aprendizado nessa experiência foi tremendo, e a perspectiva dos rapazes foi alterada para sempre. Anderson somou o conhecimento técnico com as práticas de gerenciamento que aprendeu no projeto do Sebrae para lidar melhor com projetos pessoais e no trabalho, ajudando-o a crescer na empresa. Já Gabriel tem outras viagens de avião para usufruir: ainda no 5º período de curso, recebeu um convite para trabalhar em Blumenau, no estado de Santa Catarina. Vai fazer as malas e parte em breve, levando o nome de Alagoas para longe, mais uma vez.