Sustentabilidade

Projeto para revitalizar os calçadões do Centro é apresentado para comerciantes


Proprietários de empresas da região conheceram a proposta, tiraram dúvidas e apresentaram sugestões e críticas no debate realizado pela ACSP com o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano Fernando Chucre (acima)


  Por Karina Lignelli 18 de Outubro de 2019 às 07:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Será que agora vai? O projeto de requalificação dos calçadões do Centro Velho da capital paulista está pronto e previsto para terminar no fim de 2020, segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU) da Prefeitura Municipal de São Paulo (PMSP). 

A urgência da implantação se deve principalmente à necessidade de revitalização da mobilidade no Triângulo Histórico – perímetro que vai do Pátio do Colégio ao Largo São Bento, passando pelas ruas Boa Vista, Líbero Badaró e Benjamin Constant -, hoje prejudicada por buracos e desníveis resultantes de um projeto cuja implantação data de 1970.

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Mas são os impactos dessas obras, para pedestres e turistas que circulam quase diariamente pela região, e em especial, no dos comerciantes locais, que foram tema da reunião do Conselho de Política Urbana (CPU) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), para a qual alguns foram convidados, realizada na última quarta-feira (16/10) e comandada pelo 1º vice-presidente Roberto Mateus Ordine. 

Na reunião, comandada pelo 1º vice-presidente Roberto Mateus Ordine, Fernando Chucre, secretário municipal de desenvolvimento urbano, e Luis Brettas, superintendente de desenho da paisagem da SP Urbanismo e responsável pelo projeto, apresentaram o novo modelo, que traz mudanças importantes quanto à melhora da micromobilidade e acessibilidade e na valorização do patrimônio histórico local.

Assim como a obra do Vale do Anhangabaú, o projeto será executado em fases “para minimizar o impacto”, segundo Chucre. "Criamos um plano de comunicação direta com lojistas, moradores e usuários, rua por rua, com o cronograma de obras apresentado a todos para nos precavermos de qualquer imprevisto", afirma.

"O acompanhamento permanente, 24 horas por dia, para não impedir nem prejudicar o funcionamento do comércio local, é o nosso compromisso", completa. 

O ponto principal do projeto é a priorização dos pedestres, que terão acessibilidade universal no entorno das estações de metrô e dos centros comerciais, além do alargamento de calçadas para reduzir o tempo de travessia.

Na prática, o projeto de requalificação prevê a implantação de um novo pavimento simples e definido junto aos órgãos de patrimônio, que substitui as pedras portuguesas por placas de concreto armado de 1,20 m x 1,20m, com grelhas de microdrenagem e piso tátil.

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Luis Brettas afirmou que o objetivo é facilitar a manutenção do cabeamento subterrâneo de telefonia, gás e eletricidade, além de resistir à sobrecarga provocada pela passagem de veículos pesados nas vias, como carros-fortes, bombeiros e ambulâncias - inclusive com a organização da circulação de carga e descarga de produtos e mercadorias.

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O projeto engloba ainda a repaginação da paisagem, preservando a arborização e padronizando o mobiliário urbano, como lixeiras, sinalização turística e nomes e números de ruas, além de interação com fachadas de prédios tombados.

Até o tradicional espaço das bancas de jornal e engraxates da praça Antônio Prado, próximo à Bolsa e ao Santander, será mantido, para alívio dos presentes à reunião: apenas o mobiliário será modificado, sendo que as duas atividades ficarão no mesmo espaço, uma de costas para a outra, localizados nas duas extremidades da praça.

“Estamos fazendo esse trabalho de requalificação para ter uma área que sobreviva por muitos anos”, diz Brettas.

De acordo com o secretário Chucre, a Prefeitura anunciou um plano mais amplo, com aumento do orçamento para revitalizar não só o Centro Velho, mas também o Novo (que inclui os calçadões no entorno da Praça da República e a região do Mercado Municipal): serão R$ 200 milhões agora em 2019, e mais R$ 200 milhões em 2020.

"Tem dinheiro, tem projeto, a licitação está sendo homologada... Vamos dar um salto de qualidade no Centro", acredita.

AGORA É QUE SÃO ELAS

Após a demonstração do projeto de requalificação, os presentes já tinham seus questionamentos na ponta da língua. O primeiro, e o mais óbvio, nas palavras de um comerciante da rua Três de Dezembro, foi: quando começa?  

(ESQ.P/DIR.) ALEXANDRE ORTIZ, DA DISTRITAL
CENTRO DA ACSP, ORDINE, CHUCRE E BRETTAS:
DIÁLOGO PERMANENTE COM OS COMERCIANTES

Fernando Chucre explicou que a execução do projeto terá duas etapas distintas: a primeira, que será realizada com recursos privados da Bolsa, da B3 e do Santander, e que inclui o perímetro entre as ruas João Brícola e Três de Dezembro, praça Antônio Prado e uma parte da Quinze de Novembro será executada em breve, ainda neste ano.  

 

"Com esse recurso há mais rapidez na contratação, e o resultado prático aparece logo", afirma. "Já a segunda parte, realizada pela Prefefeitura, está em licitação, mas mesmo assim não haverá descontinuidade da obra", prometeu.  

Outro lojista, preocupado com a proximidade da Black Friday e o Natal, lembrou que um terço das receitas do comércio varejista no ano é auferido entre 30 de novembro e 24 de dezembro, e quis saber se o "quebra-quebra das obras" vai acontecer nesse período, afugentando os consumidores.

"Como já dissemos, vamos fazer tudo por partes, em conversação permanente com os lojistas, e procurando manter a acessibilidade ao comércio com a implantação de passarelas conforme o previsto no projeto", disse Chucre.

A circulação de veículos nos calçadões na base da "carteirada", conforme apontou um empreendedor de TI da região, "agora vai acabar" após a implantação do projeto, segundo o secretário, por conta de um mecanismo de balizamento hidráulico automático na entrada. "Eliminaremos o fator humano, e só vão entrar os veículos autorizados, mesmo."

 

Já a ciclofaixa da rua Boa Vista, "ociosa há pelo menos quatro anos", segundo um empresário de serviços, foi alvo de críticas. "Temos 83 estacionamentos no Centro, precisamos de espaço para carga e descarga...Como será possível alargar as calçadas, como vocês querem, mantendo a ciclofaixa?", questionou.

O secretário, que lembrou do posicionamento crítico da ACSP em relação a ela - que por sinal passa pela porta da entidade -, disse apenas que, apesar de não haver uma posição majoritária no projeto sobre o assunto, a Prefeitura preferiu mantê-la por questões de adequação aos padrões de acessibilidade.

PRAÇA ANTÔNIO PRADO: MOBILIÁRIO MODERNIZADO PARA
AS TRADICIONAIS BANCAS DE JORNAL E OS ENGRAXATES

O último comerciante a se manifestar fez uma sugestão crítica. "Cuidado quando forem alargar as calçadas, pois em vez de ampliaram o espaço para o pedestre, vocês podem acabar atraindo camelôs para a frente da nossa loja."

Em resposta, Chucre lembrou das particularidades de cada trecho, e reforçou que todos serão chamados para conversar, caso a caso, sempre na expectativa de concluir as obras até o fim de 2020. "A variável é a licitação", avisa.

Antonio Carlos Pela, vice-presidente da ACSP e coordenador do CPU, afirma que a casa apoia o projeto  mas o comitê continuará acompanhando seus desdobramentos, já que alguns detalhes do desenho das calçadas não estão claros.

"Mas o importante é que esse diálogo que começou hoje com os comerciantes continue até o fim das obras", conclui. 

FOTOS: Bianca Cavalcante / Imagens da reprodução do projeto: Divulgação SMDU