Sustentabilidade

Glossário do empreendedor: o que é upcycling


Conceito, que tem crescimento como tendência no mercado de moda, consiste em aproveitar materiais que seriam descartados e transformá-los em novos produtos, mas sem utilizar processos químicos e físicos


  Por Italo Rufino 27 de Dezembro de 2017 às 08:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


A indústria da moda é repleta de controvérsias. Já virou rotina denúncias de trabalho análogo à escravidão na cadeia de produção de grandes marcas.

Um dos casos mais recentes envolveu a empresa Animale. Peças, que podiam ser vendidas por mais de R$ 600 nas lojas, eram confeccionadas por imigrantes bolivianos em situações insalubres. Cada item rendia, em média, R$ 5 para o trabalhador.

A principal matéria-prima da indústria também é alvo de contestação. O cultivo de algodão convencional é altamente dependente de agrotóxicos.

É estimado que 10% dos agrotóxicos e 25% dos pesticidas produzidos no mundo são aplicados apenas nesse tipo de lavoura.

No caso de peças coloridas, até 600 litros de água podem ser usados no tingimento de apenas um quilo de tecido. De acordo com a consultoria de sustentabilidade Eco-Age, a vida útil média de uma peça de fast-fashion é de cinco usos.

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É por essas e outras razões que algumas empresas têm buscado adotar práticas mais sustentáveis. Uma delas é a C&A.

Em agosto, a empresa lançou uma coleção de moda certificada pelo Cradle to Cradle Innovation Institute, organização americana que capacita indústrias em práticas de sustentabilidade.

A coleção é composta por doze camisetas confeccionadas com algodão orgânico e com tingimento livre de químicos nocivos.

MARCA ALEMÃ SCHMIDTTAKAHASHI CRIA NOVAS
ROUPAS COM PEÇAS DESCARTADAS POR SEUS CLIENTES

Meses antes, a rede varejista havia apresentado outro programa. A marca lançou um ateliê dedicado a utilizar três fontes de matéria-prima: tecidos e peças descartados pelos fornecedores, uniformes de funcionários e roupas dos clientes.

A iniciativa da C&A está atrelada ao conceito de upcycling, que consiste em aproveitar materiais que seriam descartados e transformá-los em outros produtos, mas sem passar por novos processos químicos e físico.

Diferenciar upcycling de reciclagem é importante. No segundo caso, novos processos industriais podem gerar resíduos poluentes e consumir alto volume de água – o que torna a prática menos eficiente.

O conceito de upcycling é conhecido entre designers e tem ganhado força como tendência mundial.

Desde 2012, a britânica London College of Fashion mantém um departamento para estudar métodos de produção baseados em upcycling.

A marca alemã Schmidttakahashi utiliza peças descartadas por seus próprios clientes para criar novas coleções.

As roupas usadas são limpas. Punhos, furos, manchas e vestígios de uso podem ser aprimorados e realocadas em novas posições. Os cortes são usados para criar novas combinações de cores, formas e texturas.

Voltando ao Brasil: em 2009, a marca Cavalera lançou uma coleção de bolsas e carteiras utilizando sacos de cimento usados. Meses antes, a empresa tinha realizado uma reforma em seu showroom.

Na bagunça da obra, sacos vazios se acumularam ao ar livre. Mesmo após receber chuva e luz solar, o “lixo” se manteve intacto. Foi então que a equipe de estilistas da marca tive a ideia de utilizar o material.

O setor de construção civil também fornece outros materiais utilizados em projetos de upcycling. São os casos de madeiras de demolição, como portas e janelas, que dão origem a móveis.

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ORIGEM

O termo foi cunhado pelo empresário e ambientalista alemão Reine Pilz. Em 1994, durante uma entrevista, Pilz criticou processos de reciclagem, que geravam mais resíduos do que reaproveitamento de materiais.  

MÓVEL DE MADEIRA DE DEMOLIÇÃO
DA LOJA ILHA DA MADEIRA

“O que precisamos é de upcycling, em que é dado mais valor aos produtos antigos e não menos”, disse Pilz.

O conceito ganhou popularidade a partir de 2002, com o lançamento do livro Cradle to Cradle: Remaking the way we make things, de William McDonough, arquiteto americano, e Michael Braungart, químico alemão.

Na obra, os autores demonstram que a redução na criação de novas matérias-primas poderia reduzir o consumo de energia, poluição do ar e da água e emissões de gases causadores do efeito estufa.

Em 2010, eles criaram um instituto de pesquisa de desenvolvimento de produtos, que mais tarde se tornaria o Cradle to Cradle Innovation Institute, o mesmo que certificou a coleção da C&A.

IMAGENS: Thinkstock e Divulgação