Sustentabilidade

Glossário do Empreendedor: o que é Slow Fashion?


A expressão remete a um movimento que busca construir uma cadeia de produção de moda que valoriza o pequeno produtor, gera menos resíduos e utiliza matérias-primas orgânicas e naturais


  Por Italo Rufino 31 de Janeiro de 2018 às 08:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


Regularmente, a loja e confecção de roupas Flavia Aranha (na foto que abre esta reportagem) recebe doações de sementes de abacate do restaurante Banana Verde, especializado em cozinha vegetariana.

Localizados na Vila Madalena, os dois estabelecimentos são vizinhos. O que para o restaurante é um resíduo que poderia ser jogado no lixo, na Flávia Aranha se torna uma matéria-prima.

Os caroços são usados para produção de um corante natural, utilizado para tingir os tecidos de camisas, camisetas, vestidos e outras peças vendidas na loja.

Fundada em 2009, a marca de moda é pautada em sustentabilidade. Entre os fornecedores estão mais de 30 pequenos grupos e empresas que produzem tecidos de algodão e seda orgânicas, ingredientes botânicos e embalagens biodegradáveis. A marca também tem parceria com grupos de bordados, tricô e crochê, que conferem detalhes às peças.

Na loja, existem coleções atemporais, com modelos que estão nas araras há mais de sete anos. Nas etiquetas, há um QR Code que permite ao consumidor assistir em seu próprio smartphone um vídeo que mostra o passo a passo da produção da roupa.

LINHA DE PRODUÇÃO DA FLAVIA ARANHA: USO DE
INGREDIENTES ORGÂNICOS DE PEQUENOS FORNECEDORES

A Flávia Aranha é uma empresa que se guia pelo conceito batizado de Slow Fashion, movimento que visa uma alternativa mais sustentável para a cadeia de produção de moda. E como fazer isso?

O Slow Fashion prioriza a produção artesanal, com recursos locais, numa relação transparente e justa para todos os elos da cadeia (fornecedores, fabricantes, comércio e consumidor).

Valoriza a qualidade (e durabilidade), fontes renováveis e história da roupa, o que desperta no consumidor noção de pertencimento e afeto.

Também propõe o trabalho em rede e cooperativas. Por fim, as características do slow fashion são fatores que estão em voga na atualidade e são bem vistos pelo consumidor contemporâneo – e que podem ser usados também como uma maneira de diferenciar a marca das concorrentes.

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NADANDO CONTRA A MARÉ

O conceito de Slow Fashion nasceu como uma contraposição ao Fast Fashion. O modelo prioriza a produção em massa, baixo custo de mão-de-obra e matéria-prima, escala global e necessidade de lançamentos recorrentes. As empresas referências em fast-fashion no mundo são Zara e Forever 21. No Brasil, destaca-se Renner e C&A.

SAPATO DA INSECTA SHOES: CONFECCIONADOS
COM MATERIAL DE DESCARTE

Entre as principais críticas ao fast fashion (e que o movimento slow deseja solucionar), está a grande geração de resíduos. Imagine que, para uma loja criar novas coleções todo mês, é necessário obter elevado volume de vendas.

Para isso, as marcas criam a sensação de necessidade nos consumidores, por meio de criação de peças alinhadas a modismos passageiros e produtos de baixa durabilidade, que precisarão ser trocados em breve.

Essas táticas servem para aumentar o consumo. A prática, porém, aumenta o descarte e geração de lixo. 

A busca incansável por redução de custo também pode fazer com que a empresa torne precária sua cadeia de produção, seja pelo uso de matérias-primas com alto impacto ambiental (como tecidos sintéticos, mais baratos) ou por meio de mão-de-obra terceirizada em condições insalubres.

Não por acaso, algumas grifes por vezes são denunciadas por trabalho análogo à escravidão, como ocorreu com Zara, M. Officer, Le Lis Blanc.

Por outro lado, pequenas empresas que atuam em nichos de mercado têm chances de conseguirem manter uma operação baseada em slow fashion, uma vez que o modelo de negócio é pautado na diferenciação e não na venda por volume.

É o caso da Insecta Shoes, que produz e vende sapatos veganos (sem matéria-prima de origem animal). A empresa utiliza roupas de descarte, borracha e plástico reciclado e tecidos excedentes da indústria para desenvolver novos produtos.

Nos dois primeiros anos de operação, a Insecta Shoes reaproveitou 2100 peças de roupas, 630 kg de tecido e 1000 garrafas PETs para a produção de aproximadamente 15 mil pares de sapato, comercializados a um preço médio de 269 reais.

Tanto a Insecta Shoes quanto a Flavia Aranha são empresas certificadas com o selo americano B Corp, que atestam negócios que usam seu poder local para encontrar soluções para questões sociais, ambientais e econômicas. Em 2016, as duas empresas se uniram para criar dois modelos de sapatos numa coleção limitada.

ORIGEM DO TERMO

O termo foi inspirado no conceito de Slow Food, que teve origem no meio gastronômico da Itália nos anos 80. O Slow Food promove o hábito de apreciar a comida, com refeições de maior qualidade e meios de produção que valorizam os ingredientes naturais, meio ambiente, cultura local e o pequeno produtor.

Por sua vez, o termo Slow Fashion foi popularizado duas décadas mais tarde, em 2008, pela inglesa Kate Fletcher, consultora e professora de design sustentável da escola britânica Centre for Sustainable Fashion.

Ambos os conceitos carregam a palavra slow (devagar), que remete o respeito aos ciclos e ao tempo das pessoas, meio ambiente e tecnologia, e foco no consumo responsável.

IMAGEM: Caio Ramalho (Flavia Aranha) e Divulgação (Insecta Shoes)