Sustentabilidade

Coronavírus começa a moldar o futuro das cidades


Grandes centros urbanos se tornaram o epicentro do novo coronavírus e agora, usam essa experiência para repensar a melhor forma de construir e organizar as cidades para superar futuras crises


  Por Mariana Missiaggia 19 de Junho de 2020 às 07:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Cada vez mais perto de retomar suas atividades e diminuir as medidas de isolamento social, muitas cidades têm se empenhado em repensar sua dinâmica de ocupação e uso do espaço público durante e pós-pandemia.

Embora muitas das medidas em prática tenham se dado por conta da aparição do novo coronavírus, muito do que se tem feito pode ser replicado, transformando em definitivo nosso comportamento e a forma como lidamos com o meio em que vivemos.

Nesse contexto, Claudio Bernardes, presidente do Conselho Consultivo do Secovi-SP, diz que os planejadores urbanos têm papel relevante a desempenhar, fomentando novas ideias para desenvolver novos modelos de funcionamento da cidade, ajudando a superar a crise atual e outras que possam surgir.

Na última quarta-feira (17/6), Bernardes se reuniu com integrantes do Conselho de Política Urbana (CPU), da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), e falou sobre o funcionamento das cidades na era da pandemia.

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“Nosso modelo de ambiente urbano infelizmente facilita a transmissão. Temos organismos dinâmicos com dois sistemas importantes, o social e o natural – a interação entre esses dois sistemas é que causa muita complexidade”, diz.

Bernardes destaca que em São Paulo, 96% da população mora em áreas urbanas e que com o esvaziamento da cidade, o fluxo de pessoas e carros deram espaço às ruas, avenidas e calçadas vazias, que sem movimento mostraram o quão são estreitas para a alta concentração da população. Fica claro também, segundo ele, que a maioria dos bairros não oferece nas suas proximidades tudo o que as famílias precisam como itens de primeira necessidade.

“No contexto de uma pandemia, a situação é difícil de ser controlada dada a amplitude dos níveis de conectividade que temos. Precisamos chegar ao modelo de uma sociedade mais igualitária, em especial quando tratamos de moradia, saneamento e acesso à saúde”.

BOAS PRÁTICAS

O que o futuro nos reserva ainda não é possível saber, entretanto, Bernardes acredita que os sistemas urbanos de transporte coletivo tendem a ter seu uso remodelado – com menor taxa de ocupação de passageiros por metro quadrado, com maior escalonamento das empresas para evitar picos de aglomeração e maior uso de bicicletas. Neste sentido, ele sugere, por exemplo, o uso de tecnologias como algoritmos e o big data - inteligência capaz de prever áreas com alta probabilidade de serem afetadas por ressurgências da epidemia, além de agrupar dados e padrões de comportamento gerando ajustes mais assertivos na oferta de serviços de mobilidade urbana.

RUA EM AUCKLAND, NA NOVA ZELÂNDIA: MAIS CICLOVIAS
E CALÇADAS EXTENSAS

Em busca de novas práticas econômicas e estratégias de segurança para tentar proteger a população contra uma futura onda de contaminação, Bernardes cita um estudo feito pela Associação Nacional de Funcionários de Transporte da Cidade (Nacto, na sigla em inglês), financiado pela Bloomberg Philanthropies.

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De acordo com o material, por se tratar de um modal de uso individual com menor chance de contágio, o incentivo ao uso de bicicletas como opção de meio deslocamento diário já é uma realidade em algumas cidades do mundo que tentam adaptar uma nova rotina por conta do novo coronavírus. Disponível on-line, o manual reúne práticas bem-sucedidas pelo mundo que visam o redesenho e novos usos de ruas e áreas urbana.

TEATRO NA ALEMANHA PASSARÁ A OPERAR COM 30% DA
CAPACIDADE TOTAL

O estudo traz também outras ações como a maior circulação de ônibus em faixas exclusivas com menor superlotação e a ampliação de calçadas. Para o comércio também há muito a ser feito – o setor de alimentação em geral precisará de áreas abertas e protegidas para mesas, balcões e filas. Outros locais de maior aglomeração como escolas e igrejas podem voltar a funcionar ao ar livre garantindo mais segurança às aulas e programação em geral.

Um dos espaços culturais mais importantes da Alemanha, o Teatro Berliner Ensemble promoveu uma nova configuração de seus assentos. O distanciamento entre as poltronas e a adaptação da capacidade total de seu espaço – originalmente de 678 pessoas – foi reduzida a 30%. Na capital, Berlim, duas pistas anteriormente usadas para veículos foram transformadas em ciclofaixas no bairro de Kreuzberg, enquanto o tráfego de veículos apresentava significativa redução. O sucesso da medida reverteu novas faixas em outros pontos da capital.

PLANO DE RETOMADA DA ESPANHA: MAIS ESPAÇO PARA PEDESTRES

Em Buenos Aires, na Argentina, foram usados cones e algumas pinturas no chão para indicar o distanciamento correto que as pessoas deveriam manter. Auckland, na Nova Zelândia, usou os mesmos recursos para ampliar a calçada da principal via comercial do centro da capital neozelandesa, a Queen Street. O plano de retomada de Barcelona, na Espanha, também prevê alargar calçadas, fechar ruas e criar ciclovias temporárias.

A cidade de Bogotá, na Colômbia, anunciou em março a habilitação de 76 novos quilômetros de faixas destinadas a bicicletas, localizadas em vias existentes, mas separadas dos carros por cones. O Brasil também aparece entre os exemplos com a Feira Segura, de Goiânia, num modelo de feira livre em que os consumidores fazem compras de dentro do carro, no sistema drive thru.

"Este é o momento de sermos arrojados, buscarmos novas ideias e nos espelharmos em outras experiências para desenvolver os espaços públicos e os modelos de funcionamento da cidade, que possam nos ajudar a superar essa crise e outras que possam surgir". 





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