Sustentabilidade

Cidade pensada para o pedestre beneficia o comércio


Skye Duncan, urbanista neozelandesa, defende cidades em que as pessoas sejam estimuladas a caminhar e pedalar, a partir de intervenções, como, por exemplo, o fechamento da avenida Paulista aos domingos


  Por Mariana Missiaggia 14 de Setembro de 2018 às 12:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Pensar nas ruas como algo muito além do que simplesmente um ambiente de passagem de veículos é o que propõe Skye Duncan, diretora da Global Designing Cities Initiative, da Bloomberg Philantrophies.

Há 15 anos, a especialista neozelandesa visita países com a ideia de que é preciso mudar as ruas para mudar o mundo. Partindo de exemplos reais, praticados em cidades da Suécia, Holanda e Estados Unidos, Skye diz ser possível criar espaços públicos mais dinâmicos, sustentáveis, seguros e agradáveis para a população. Em São Paulo, ela cita a decisão de fechar a avenida Paulista para carros todos os domingos como um avanço.

SKYE DUNCAN DESENVOLVE PROJETOS PARA TORNAR
CIDADES MAIS AGRADÁVEIS PARA OS PEDESTRES

Na quarta-feira (12/9), Skye se reuniu com integrantes do CPU (Conselho de Política Urbana) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) para discorrer sobre a importância de colocar o pedestre no centro da discussão sobre mobilidade.  

Entender o que não está funcionando no planejamento e na regulamentação urbana pode  ser o ponto de partida para atualizar as políticas públicas de qualquer lugar, na visão da urbanista.

Skye lembrou que em 2009, Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York, fechou parte da avenida Broadway para os carros. A decisão fazia parte de uma ação temporária para aumentar a segurança para os pedestres e diminuir o congestionamento de veículos.

Embora, num primeiro momento, a novidade tenha causado estranheza na população, o projeto foi um sucesso e tornou-se permanente. Desde então, o número de atropelamentos caiu 67%. Também houve queda de 33% nos acidentes de trânsito, as vendas do varejo cresceram 49% e o número de estabelecimentos comerciais aumentou 180% naquele espaço.

“A resistência é grande quando dizemos que algo é definitivo. Por isso, é importante apostar em ações temporárias que tenham como propósito a coleta de dados para planejar o desenho urbano”, diz.

Skye destaca que são os números e fatos que irão ajudar o governo e entidades a dialogar e convencer os moradores de que algumas mudanças são necessárias. No Brasil, a urbanista tem participado de uma experiência de transformação em Fortaleza.

Durante 15 dias, a Bloomberg, em parceria com a Prefeitura, testou novos usos para o entorno do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, na Praia de Iracema, na capital cearense, a fim descobrir possíveis adaptações para tornar a área mais atrativa para o tráfego de pedestres e menos aberta para o de veículos.

PROJETO DRAGÃO DO MAR, EM FORTALEZA, DIMINUIU TEMPORARIAMENTE PRESENÇA DE CARROS

Com a redução da presença de veículos na região, algumas mudanças foram feitas. Entre elas, a pintura de asfalto e instalação de mobiliários urbanos como bancos, mesas, jarros de plantas, paraciclos e estruturas de sombreamento.

As alterações foram combinadas com atividades culturais, apresentações, oficinas e ações de saúde. A experiência levará a algumas decisões concretas de mudança do tráfego na região de forma gradativa. Onde há três faixas que, atualmente, priorizam os carros, por exemplo, futuramente haverá apenas uma.

Por enquanto, as intervenções provisórias focam no alargamento de calçadas e na oferta de serviços e programação cultural.

E O COMÉRCIO?

Skye diz que a exemplo do que ocorreu em Fortaleza e em outros lugares do mundo, como, Nova York, nos Estados Unidos, e Bogotá, na Colômbia, é possível traçar um paralelo entre a qualidade das vias e o desempenho do comércio de rua.

“Estamos habituados a medir o número de carros nas ruas. Precisamos agora, contar o número de pessoas que circulam pelo espaço público e o impacto disso no comércio de rua”, diz.

“Uma cidade pensada para o pedestre torna a população mais feliz e isso tem relação direta com o consumo. Carros não compram nada”.

Do ponto de vista empresarial, Skye acredita que o comércio deveria enxergar pedestres e ciclistas como aliados e se engajar em causas que convençam a sociedade a trocar o carro pelo transporte público. "Transformar o deslocamento em um passeio prazeroso traz vitalidade econômica para as cidades", afirma a urbanista.

FOTOS: Movimento Conviva e Bloomberg Philantrophies