Opinião

Zé Dirceu conta sua história


Quem tiver uma visão de Brasil e de mundo diferente não vai mudar um milímetro em suas convicções. Pode ler sem medo


  Por Aristóteles Drummond 26 de Setembro de 2018 às 11:07

  | Jornalista


Está nas livrarias o primeiro volume das memórias de José Dirceu, com uma das mais ricas carreiras  de nossa vida pública. Uma leitura importante para quem quer conhecer a visão de um revolucionário de mais de 40 anos de presença  nacional.

A narrativa mostra sua militância desde o movimento estudantil, a adesão à luta armada, a troca da liberação do embaixador americano pela soltura de presos políticos, a vida em Cuba, a volta  da clandestinidade, a retomada de sua identidade com a anistia, a construção do PT, a eleição para deputado e as candidaturas e os governos de Lula e Dilma.

O livro é rico em citações de companheiros de jornada, de conceitos políticos, de política interna e externa, de economia. Tudo numa sequência de muita coerência.

Mesmo discordando integralmente de sua linha de pensamento, e ação, no meu entender ultrapassado e pré-queda do muro de Berlim, não há como se negar uma vida dedicada ao que acredita. E, na narrativa, é a própria história contemporânea, sob uma visão tão parcial quanto sincera.

O Brasil que se deseja democrático precisa conhecer os fatos, as versões e avaliar as experiências, para poder julgar. Mesmo cometendo erros, já alvos de processos judiciais, o que move os homens públicos por vocação, como José Dirceu, são suas convicções, às quais sempre foi fiel e, por tal, merece respeito.

Em nenhum momento renega o apreço e admiração por Fidel Castro e a solidariedade ao ex-presidente Lula. Justifica a luta armada e não concede nenhum reconhecimento aos brasileiros que passaram pelo poder no período militar.

Curiosamente, bate pouco nos militares, falando mal dos governos em geral. Bate mesmo, e duro, em FHC e, inexplicavelmente em Fernando Gabeira. Fora do PT, cujas memórias se confundem com a do próprio partido, Dirceu elogia Montoro, Brizola e Itamar. E revela com naturalidade sua filiação ao PCB e o bom convívio com os comunistas. O Foro de São Paulo é exaltado como a inserção do PT nos movimentos internacionais de esquerda.

Conta a história de um radical que sabe fazer política, assume posições e envolve toda uma geração de militantes, louvando ou criticando. Por vezes, deixa-se levar por conceitos fantasiosos, como a suposta interferência dos EUA no movimento de 64 e nas políticas econômicas de FHC.

Quem tiver uma visão de Brasil e de mundo diferente não vai mudar um milímetro em suas convicções. Pode ler sem medo. E mais: querendo saber o pensamento de um grupo que chegou a dominar o país por quase 12 anos e a fazer a cabeça de parte da população, é leitura recomendável. Se esta ascensão do PT teve três grandes cabeças, Zé Dirceu foi uma delas!

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

FOTO: Marcelo Camargo/Agência Brasil