Opinião

Voltando ao futuro


o conhecimento não é apenas central no processo de geração de riqueza das sociedades afluentes. Ele é riqueza em si mesmo.


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 06 de Julho de 2016 às 17:22

  | Historiador


Das tantas, e por vezes mirabolantes, previsões feitas após a queda do Muro de Berlim, nenhuma se mostrou tão real, duradoura e aceita quanto a apresentada por Peter Drucker (1909-2005) em “A sociedade pós-capitalista” (1993): o conhecimento passará a ser o principal fator de produção, superando o capital e os recursos naturais.

Passados pouco mais de vinte anos, o conhecimento não é apenas central no processo de geração de riqueza das sociedades afluentes. 

Ele é riqueza em si mesmo. Hoje a Apple é a 8a maior empresa e a marca mais valiosa do mundo, produzindo o aparelho mais influente da História (“Time”, 04/05/2016), o IPhone que, nos bolsos de milhões de pessoas, ou replicado em versões e marcas mais baratas portadas por muitos milhões mais, alterou profundamente a maneira de lidarmos com a tecnologia. 

Mas a importância do conhecimento apontada também por outro futurólogo de renome (“o conhecimento é o recurso essencial da Terceira Onda”)  Alvin Toffler (1928-2016) não é automática ou consensual. 

Como está bem claro no mundo de hoje, essa visão de futuro é prevalente apenas nas sociedades afluentes, que fizeram opções que se mostraram corretas, a começar pelas ideológicas.

Sim, ideológicas, pois essa é uma questão que não pode ser varrida para debaixo do tapete no debate sobre o futuro do Brasil, a ser restabelecido com urgência e propriedade.

Foi o filósofo e físico argentino Mario Bunge, professor de Lógica e Metafísica na Universidade Mc Gill em Montreal, que nos mostrou que aquilo que distingue a nossa época das anteriores é o fluxo incessante entre pesquisa básica e aplicada, desta para a técnica e desta para a economia; estando esses quatro setores de atividade estreitamente ligados à Filosofia e à Ideologia. “Não há pesquisa científica sem conceitos filosóficos sobre natureza e sociedade [...]. Nem há técnica sem ideologia, já que esta fixa valores e, com estes, os seus objetivos”  (Ciência e Desenvolvimento, 1980).  

É interessante notar como as posições de Drucker, Toffler e Bunge realçam a asserção do primeiro sobre o novo papel do intelectual nas sociedades modernas como “trabalhador do conhecimento”, algo que pode deixar muita gente de cabelo em pé no meio acadêmico brasileiro, inegavelmente marcado por uma hegemonia marxista descompassada no tempo.  

Lá se vive a Era do Antes, com Herbert Marcuse (1898-1979) pontificando sobre a opressão e a destruição criadas pela ciência e tecnologia (One-Dimensional Man, 1964); com Jürgen Habermas pregando a superação do trabalho produtivo pela atividade humana crítica (Knowledge and Interest, 1968); e com Ernst Bloch (1885-1977), o transformador do marxismo em utopia concreta (Das Prinzip Hoffnung, 1954-1959).

Foi de lá, graças a uma série de desdobramentos perversos, mas perfeitamente evitáveis, que proveio a visão vesga que prosperou no Brasil contra produtividade e conhecimento, levando-nos ainda mais para trás do que estávamos há trinta anos nas nossas carências financeiras, industriais e tecnológicas. 

Hoje, estamos mais avessos do que nunca à produtividade e à produção de conhecimento, aferrados a uma visão dialética e corporativista de sociedade. 

Houve tempo melhores para o futuro do Brasil, quando havia menos unanimidade e mais arejamento no campo das ideias.

Em 1995, Delfim Netto, tratando de grandes questões que não resolvemos até hoje, escreveu: “Democracia e capitalismo não são “coisas”.

Não são utopias que saíram prontas e congeladas da cabeça de algum gênio do cálculo abstrato e que existem, como as ideias platônicas, no mundo da imaginação. São processos de solução de conflitos nascidos da prática cotidiana, que se interpenetram e tiram a sua capacidade de evoluir, da resolução sempre incompleta e imperfeita dos problemas criados por sua dinâmica”.  

E concluiu, deixando para trás as decepções e chauvinismos: “o Brasil é um exemplo concreto de que o processo democrático tem aptidão para se auto-reformar, ainda que isso exija muita paciência e algum tempo” (Democracia e capitalismo, Gazeta Mercantil, 7 de abril). 

O que houve com nossos intelectuais? Em que tempo se perderam? 

Dentre tantos dilemas que o Brasil encara, há um inescapável. O nosso país tem que passar pelo obstáculo do qual nos desviamos, mas que foi saltado há vinte anos pelos corredores mundiais que estão à frente. 

O obstáculo ficou para trás, mas está lá, impassível e monumental. Ou  assumimos o conhecimento como vital para o desenvolvimento de nossa sociedade, ou ficamos ainda mais para trás.  

Como no filme de Robert Zemeckis, só voltando para termos futuro.