Opinião

Você e o rebaixamento do País


Como o rebaixamento da nota de crédito do Brasil pode influenciar sua vida


  Por Ulisses Ruiz de Gamboa 19 de Fevereiro de 2016 às 17:26

  | Economista da ACSP e professor da FIA/USP e FIPE/USP; Doutor em Economia pela FEA/USP; Pós-Doutorando pela UCLA; ex-Consultor do Banco Mundial


“Pois mesmo na torrente, tempestade, eu diria até no torvelinho da paixão, é preciso conceber e exprimir sobriedade - o que engrandece a ação”
(“A Tempestade” – William Shakespeare)

Quarta-feira passada (17/02), uma das principais agências internacionais de classificação de risco, a centenária Standard & Poor’s, diminuiu novamente a nota de crédito soberano do Brasil. Em português claro, o que significa esse rebaixamento (downgrade), e de que forma sua vida pode ser afetada?

No mundo globalizado, os governos e as empresas, tanto de países emergentes como desenvolvidos, recorrem ao financiamento externo, emitindo, em troca, papéis financeiros.

O retorno desses papéis, como sempre acontece no mercado financeiro, em geral depende do risco de que o emissor não honre a dívida.

Sendo assim, aqueles países e empresas com maior probabilidade de inadimplência deverão oferecer em troca rendimentos maiores para os compradores desses títulos.

São justamente as agências de classificação de risco (rating), cujas mais importantes, além da Standard & Poor’s, são a Moody’s e a Fitch, que exercem há muito tempo esse papel, atribuindo notas, em escalas similares às notas de colégio e universidade anglo-saxões (A,B,C, etc).

É normal que a evolução da avaliação de empresas e bancos de um país siga mais ou menos de perto o que ocorre com o risco do país (soberano).

Quanto maior a classificação, menor a probabilidade de “calote” do país ou empresa, menos juros seus papéis deverão pagar aos tomadores, e vice-versa. As escalas possuem uma “nota de corte”, como se fosse a “qualificação mínima de aprovação do curso”, que divide os “bons pagadores”, chamados de “graus de investimento” dos “maus pagadores”, ou “grau especulativo”.

Acima desse “divisor de águas”, quanto maior a classificação, menor o risco de inadimplência, chegando à qualificação máxima (AAA ou Aaa, dependendo de qual agência consideremos – nota 10 para nós!) geralmente é dada para países “acima de qualquer suspeita”, que nunca deram “calote”, como Estados Unidos e Alemanha, por exemplo, pelo menos a partir do século XX (em séculos anteriores, por incrível que pareça, a Alemanha só perdia para a Espanha o “cetro” de “caloteira em série”).

Também temos toda uma escala descendente a partir do “grau especulativo”, com progressivo aumento no risco e das taxas de retorno, culminando com a nota mínima (C ou D, dependendo da agência – nota 0 para nós!) atribuída ao país ou empresa que está em moratória, ou seja, “devo e não nego, pagarei quando puder”.

Devido à piora da situação da economia brasileira, decorrente de graves erros de política econômica, cometidos principalmente a partir de 2011, e intensificada pela crise política, o Brasil perdeu no ano passado o “grau de investimento”, conquistado a duras penas em 2005, rebaixado ao primeiro nível de “grau especulativo” pela Standard & Poor’s em setembro, e posteriormente, em dezembro, pela Fitch.

Vale notar que um país ou empresa só são considerados formalmente “maus pagadores” se pelo menos duas das três agências citadas assim os qualificam.

Sendo assim, esse downgrade não altera a nova condição de “mau pagador” do Governo brasileiro e de suas empresas e bancos, porém isso não quer dizer que não produza consequências.

Como foi dito, se um país tem sua nota de risco diminuída, isso significa que o financiamento externo fica mais caro, ou seja, os juros da dívida pública ficam maiores, elevando as despesas financeiras do Governo, que tenderá a aumentar a tributação e o nível de endividamento interno para diminuir o “rombo” em suas contas.

Também fica mais caro para os bancos captarem recursos para realizarem operações de crédito e para as empresas financiarem seus empreendimentos.

A maior demanda de crédito por parte do Tesouro e a menor oferta por parte do setor bancário farão subir a taxa de juros da economia, o que, conjuntamente com os maiores impostos, deverá reduzir a atividade econômica e aumentar o desemprego.

Por outra parte, muitos fundos de pensão e investidores estrangeiros, por regras internas, não estão autorizados a investir em países que sejam considerados “grau especulativo”, reduzindo a entrada de dólares, o que tende a aumentar a taxa de câmbio, pressionando, por tabela, a taxa de inflação.

Em síntese, as consequências do rebaixamento da nota de risco do país são claramente negativas para as pessoas e empresas, pois terminam por agravar a situação atual de recessão misturada com inflação (“estagflação”).

Ademais, é preocupante que a Standard & Poor’s tenha colocado a nova nota dos papéis do governo brasileiro com perspectiva de baixa, ou seja, há grande chance de o país obter notas “mais vermelhas” durante os próximos meses.

Contudo, existem dois atenuantes. Em primeiro lugar, continua havendo uma “montanha” de dinheiro no mercado financeiro mundial, formada pelas “megainjeções” dos bancos centrais dos países desenvolvidos, que buscam aplicações mais rentáveis que os parcos retornos pagos nessas economias, que, inclusive introduziram a “novidade” de juros negativos.

Isso e o barateamento das empresas brasileiras, após o intenso enfraquecimento do Real, continuam a atrair vultosos capitais para nosso país, atenuando a pressão sobre os juros e o câmbio.

Além disso, se o governo federal for capaz de recuperar a credibilidade na política econômica, realizando o ajuste das contas públicas de forma efetiva, o que também passaria por sinalizar reformas estruturais como a da Previdência, essas notas podem ser revertidas, e o país poderia, quem sabe, daqui há alguns anos, “passar de ano” como o fez em 2005.

Porém, se houver insistência na adoção de um modelo macroeconômico inconsistente, como o que se tenta de forma recalcitrante “reinventar”, e na medida em que o mundo desenvolvido finalmente supere a crise de 2008, levando ao “enxugamento” dessa enorme massa monetária, o país poderia sofrer intensamente as consequências anteriores, o que poderia alongar a já severa recessão, sendo impossível evitar uma verdadeira “tempestade perfeita”.

 





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