Opinião

Uns e outros


Uns morarão em Paris, em tríplex alhures, em sítios acolá, em nome da igualdade que pregam aos outros


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 01 de Fevereiro de 2016 às 10:46

  | Historiador


“Se todos os homens são iguais, alguns são mais iguais do que os outros”.

A frase, popularizada no refrão “Si tous les hommes sont égaux, certains sont plus égaux que l’autres” da canção-tema do antológico “Les Uns et les Autres” (Retratos da Vida, 1981) dirigido por Claude Lelouch, é inspirada na fábula de George Orwell “A Revolução dos Bichos” (The Animal Farm, 1945), considerada até hoje uma das mais contundentes denúncias contra o domínio de poucos sobre muitos  em nome da igualdade.

Na ficção de Orwell, os porcos, determinados a promover uma revolução dos animais contra o dono de uma fazenda decadente, criam o Animalismo sintetizado nos Sete Mandamentos que escreveram em grandes letras no estábulo:

1o) qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo; 2o ) qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo; 3o) nenhum animal usará roupas; 4o ) nenhum animal  dormirá em cama; 5o) nenhum animal beberá álcool; 6o ) nenhum animal matará outro animal; 7o) todos os animais são iguais.

Vitoriosa a revolução, os porcos se mudam para a Casa Grande do antigo dono. A partir desse momento, sucedem-se alterações, tanto na vida da fazenda como nos Sete Mandamentos.

Primeiro, os animais ficam sabendo que os porcos estão dormindo em camas, mas logo são avisados de um adendo ao Quarto Mandamento: ...com lençóis. Depois, surpreendem-se com a notícia de que os porcos bebem whisky na Casa Grande, porém se acalmam quando lembrados das duas últimas palavras do Quinto Mandamento: ... em excesso. Assustam-se muito quando o cavalo Sansão é levado numa carroça com o letreiro “Matadouro de Animais”, mas logo se tranquilizam quando o porco Garganta lhes explica que a carroça era do carniceiro, mas agora pertencia ao cirurgião veterinário que dedicou os maiores cuidados ao Sansão enfermo que nunca mais apareceu.

Finalmente, os animais assistem aos porcos passarem a caminhar nas duas patas traseiras e antes que consigam protestar, as ovelhas aclamam a novidade balindo em uníssono: “quatro pernas bom, duas pernas melhor”!

Para piorar as coisas, deparam-se com Napoleão, o supremo porco, usando as roupas de Mr. Jones, o ex-proprietário da fazenda.

Diante de tudo isso, horrorizados, o burro Benjamin e a égua Quitéria correm ao estábulo e descobrem que os Sete Mandamentos se haviam reduzido a um só: todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros.

Dessa música originou-se um jogo de palavras em francês (égaux vs. ego) que foi usado para enfatizar a dicotomia entre igualdade e egoísmo na vida social.

Na verdade, se algo puder ser extraído de muitos tempos e situações, há que se falar de indissociabilidade, não de dicotomia.

Como diz a letra da canção, se cada um é o outro para alguém, raramente ele é alguém para o outro, apesar de todos os discursos e pedidos de ajuda dos outros. Uns morarão em Paris, em tríplex alhures, em sítios acolá, em nome da igualdade que pregam aos outros.

Sem liberdade, sempre haverá uns que dirão quem são os outros.