Opinião

Um único imperativo


Como seria possível promover o interesse comum neste domínio de ilicitude, de falta de decoro e de degradação da coisa pública em que se transformou o País?


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 30 de Outubro de 2017 às 08:40

  | Historiador


Com um governo assediado pela justiça e associado a um congresso corrupto, o Brasil está sem condições de promover a reforma previdenciária, enquanto assiste à trabalhista e ao ajuste fiscal se diluírem no corporativismo e  politicagem. Um quadro em que o mais lamentável de tudo é a sua previsibilidade, ou, como preferem os mais céticos, a sua inevitabilidade.

No final de 2016, começaram a surgir sérias dúvidas se Temer podia se livrar da corrupção do governo anterior. À medida que ficava claro que não, ele fez das reformas o contraponto ideológico para se descolar da administração da qual fazia parte, pouco adiantando alertar que o clientelismo e a corrupção levariam a uma soma zero, ampliando o déficit público para deixar o Brasil onde está, endividado e improdutivo .

A compra de consciências deu sobrevida à má política que segue arruinando o País.

Agora, os economistas do mainstream, esquecendo que as atividades em uma sociedade,  quaisquer que sejam, inclusive econômicas, “requerem certa forma de organização, e, organização requer uma forma de atividade política” (FROLICH; OPPENHEIMER, 1982, p. 7)*, insistem num descolamento entre economia e política.

Mais de uma área de conhecimento mostra que isso é impossível, mas o marketing político se interessa justamente em criar a impressão oposta. A ele convém destacar determinadas facetas da conjuntura para manipular a atenção segundo a conveniência do momento.  

O público que exigiu nas ruas o impedimento de Dilma Roussef  e compõe a  maioria dos 97% que desaprovam o governo Temer é conservador de classe média, sensível, portanto, aos efeitos da crise econômica e às questões morais de comportamento, família, lei e ordem.

Para desmobilizar esse público convém iludi-lo de uma melhoria do seu bem estar e canalizar a sua indignação potencializada para outros alvos. Por aí se pode compreender a inusitada polêmica em torno da desconstrução da identidade de gênero, da família e da moral pública, e outras que ocupam, de uma hora para outra, grande espaço nas mídias, umas provindo de questões não resolvidas, outras não se sabe bem de onde e porque.

Uma desmobilização, é claro, favorecida pela neutralização ou cooptação das lideranças que levaram esse público em massa às ruas em 2015 e 2016, e curiosamente se quedam mudas diante do afundamento do País, indicando que engoliram a isca dos novos marqueteiros do Planalto ou aceitaram as vantagens oferecidas pelos seus operadores.

É assim que o condomínio transpartidário de poder, abalado mas não desfeito em 2016, quer chegar a 2018 para ir muito além. De ilusão em ilusão, até impor-se por falta de alternativa.

Esse projeto é tão óbvio que só pode ser enfrentado por outra obviedade: o interesse comum. E antes que os cínicos de plantão falem de utopia, é bom lembrar que, embora a democracia seja a administração do conflito de interesses, ela não subsiste sem um forte interesse comum, difuso em várias questões, a começar pela administração pública idônea e responsável.

Mas, como seria possível promover o interesse comum neste domínio de ilicitude, de falta de decoro e de degradação da coisa pública em que se transformou o País?

Resposta fácil, dialeticamente difícil, para aqueles que têm fé no Brasil e dele não desistem.

Só pelo imperativo da independência e do compromisso.

*FROHLICH, Norman; OPPENHEIMER, Joe A. Economia Política Moderna. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982.

****

*As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio