Opinião

Um novo cenário internacional?


O petróleo confirmou ontem a manutenção dos preços em baixa, o que compromete ainda mais a economia de países como Angola e Venezuela


  Por Roberto Fendt 14 de Agosto de 2015 às 10:57

  | Economista.


Nessa quinta-feira o preço do petróleo West Texas para entrega em setembro no mercado futuro Nynex bateu no ponto mais baixo desde 2009, na esteira da crise do subprime, iniciada em fins de 2008. De fato, o preço esteve por alguns momentos abaixo de US$ 42 por barril, encerrando-se o pregão com o preço a US$ 42,23. Queda semelhante se observa também com relação aos preços dos contratos de petróleo Brent.

Tudo parece indicar que se consolida a tendência de manutenção de preços baixos para o petróleo no futuro visível. Boa ou má notícia?

Como tudo na vida, depende de quem olha e de onde olha. É compreensível que para as empresas produtoras de petróleo a situação não poderia ser pior. Por sete meses, mais de 40% dos poços estão sem utilização, e a pequena recuperação observada no mês passado certamente será abortada pela nova queda nos preços.

A razão para tudo isso é simples: a despeito dos cortes na produção promovidos recentemente pela Arábia Saudita, a produção do conjunto de países da Opep continua aumentando. Não poderia ser de outra forma: os produtores estão procurando compensar a queda nos preços com a produção e venda de maiores volumes.

Não se trata de um problema de falta de demanda, como poderia parecer à primeira vista. De fato, a demanda mundial tem crescido; o problema está no fato de que a oferta mundial está crescendo a taxas ainda mais aceleradas. Ao contrário do que esperavam muitos produtores, especialmente a Arábia Saudita, a produção a partir do xisto nos Estados Unidos não caiu tanto como se esperava.

Tampouco se imaginava que o Iraque voltasse a produzir volumes significativos de petróleo tão cedo, dado a situação de guerra civil em que se encontra o país. Mesmo as áreas ocupadas pelo Estado Islâmico na Síria estão produzindo petróleo e aumentando o excesso de oferta global do produto.

Se a situação não está boa para os produtores norte-americanos com a queda da produção a partir do xisto e generalizado prejuízo para muitos produtores, o que dizer dos demais? Um bom indicador é o fato de que a Arábia Saudita emitiu títulos de dívida pública e colocou-os no mercado pela primeira vez em 12 anos, depois que suas reservas internacionais caíram de US$ 746 bilhões no ano passado para o atual montante de US$ 664 bilhões.

Em situação pior está a Rússia. Em decorrência das sanções impostas pelos Estados Unidos e seus aliados no Ocidente, a Rússia atravessa profunda recessão e desvalorização do rublo. Em situação não tão ruim como a da Rússia estão outros mono-produtores de petróleo, como Angola e Venezuela.
 
O outro lado da moeda é o ganho auferido pelos importadores líquidos de petróleo com a atual bonança nos preços. O principal deles é a China, que adicionalmente obteve termos muito vantajosos no tratado para a construção do gasoduto ligando o país à Rússia e à importação do produto desse relutante parceiro.

Por outro lado, como a experiência recente está demonstrando após um longo período de preços acima de US$ 100 o barril, esse mercado é volátil, e a situação pode novamente inverter-se. Razão pela qual persiste o interesse das empresas estrangeiras no pré-sal brasileiro. Se estão cautelosas, essa atitude reflete mais a expectativa de mudanças nas regras de exploração e na possibilidade de que a Petrobras não mais tenha a obrigação de participar da exploração de todos os novos campos a entrar em produção.

Um fator digno de nota nesse contexto é a crescente dificuldade dos governos bolivarianos produtores de petróleo. De particular importância é o agravamento das dificuldades internas do governo de Nicolás Maduro. Sua popularidade caiu para pouco mais de 24% e continuará em queda, já que decorre da inflação, que poderá chegar a 100% até o final do ano, e da escassez de alimentos.

Como mostram os mercados futuros, a expectativa de retorno dos preços a um patamar de US$ 60 parece ainda remota. O acordo entre os Estados Unidos e o Irã trará em pouco tempo a oferta iraniana de petróleo ao mercado.

Devemos nos habituar a pensar que estamos em um novo cenário internacional com grandes reflexos sobre as economias de todos os países. As mudanças recentes no mercado petrolífero são apenas uma das facetas desse novo cenário.

 





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