Opinião

Um golpe digno do nome


O irrealismo perigoso para o Brasil é o projeto que se esboça para impor uma solução extra constitucional para a crise, sob a mais legal das aparências


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 05 de Abril de 2016 às 14:15

  | Historiador


A crise brasileira acelerou o passo, agravada nos últimos dias tanto pelos impasses criados por instituições dominadas pelo PT, quanto pelos ingredientes explosivos que Dilma e Lula lhe acrescentam.

Ninguém pode prever o desenlace imediato da situação crítica que o País enfrenta, dada a magnitude dos interesses espúrios gestados no PT e além dele, os quais ainda o sustentam no poder. Por incrível que pareça, tudo o que se pode dizer é que não chegamos ao fundo do poço.

Talvez o melhor quadro do Brasil neste momento seja o que o New York Times pintou na sua capa nesta 2a feira: “Como a rede de corrupção enleou o Brasil” (How Web Of Corruption Ensnared Brazil, NYT, 4 de abril de 2016).

Sem dúvida, uma percepção mais realista do que a do  grupo jornalístico que, dizendo-se a serviço do Brasil, publicou no domingo passado um editorial pregando uma solução irreal para a crise e ontem se empenhou em dar a máxima divulgação às não menos irreais razões de defesa de Dilma apresentadas pelo Advogado Geral da União perante a Comissão de Impeachment da Câmara de Deputados.

É esse irrealismo que dá mais um tom de gravidade ao momento vivido pelo Brasil. Não por si mesmo, aquela desconexão com o cenário real do País em que a sociedade clama pelo afastamento da presidente, pela investigação desimpedida de Lula e pelo prosseguimento da Operação Lava Jato, doa a quem doer.

O irrealismo perigoso para o Brasil é o projeto que se esboça para impor uma solução extra constitucional para a crise, sob a mais legal das aparências.

Para os idealizadores desse projeto, há que se preservar o PT, não somente na sua atual configuração partidária, mas acima de tudo como núcleo de poder que efetivamente detenha o poder no País.

E para implementar esse projeto há que se avançar sincronicamente em diversas frentes, das quais é possível identificar, já com alguma clareza, a política, a de opinião e a jurídica.

Enquanto Lula se consolida no governo, legalmente ou não, pouco importa, o STF posterga sine die o julgamento de sua posse e o mantém fora do alcance da justiça de primeira instância que o investiga. 

Desembaraçado por ora para sua colheita de aliados improváveis, com uma verba de cooptação já à sua espera na Casa Civil, Lula reitera sua conhecida audácia intimando o STF a acabar com a indefinição que, na verdade, serve aos seus propósitos.

Enquanto Lula acumula poder, vai tomando forma a ideia da antecipação da eleição presidencial, partida de um “bloco do Senado”, que mais devia se chamar puxado do Planalto. Então, do nada, em meio a isso tudo, sugere-se a Dilma, a irrenunciável, que renuncie.

E mais, que Temer, o mal amado, a acompanhe, não se sabe bem por que, se pela solidariedade que nunca houve ou se pelo descarado interesse do PT mesmo.

Tempere-se o imbróglio com um pedido de impeachment do vice-presidente, abonado pela desassinatura de um  Ministro do STF, e está servido o prato: Lula 2016!

Resolvidos estão os problemas do PT, de Lula principalmente, e quem sabe de Dilma, melhor na figura de renunciada do que deposta ou sabe-se lá mais o quê.

Mas esse enredo que faria o crioulo doido de Stanilaw Ponte Preta endoidar de vez só é factível por que estamos enleados para valer numa teia de corrupção.

Ou o Brasil a enfrenta, ou sucumbirá a um golpe digno do nome.