Opinião

Um fantasma levantou-se há 100 anos. Era o hoje esculhambado comunismo


Revolução russa completa um século nesta terça-feira. Mas o regime implodiu em 1991. Perdeu a corrida armamentista para os Estados Unidos e sofreu com a incompetência da economia centralizada


  Por João Batista Natali 06 de Novembro de 2017 às 15:11

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A tomada do poder pelos bolcheviques completa cem anos nesta terça (07/11). Entre 1917 e 1991, com o colapso da União Soviética, a economia de mercado sofreu um violento e constante desafio do mundo comunista.

Uma curiosidade. Vladimir Lênin (1870-1924) chefiou o golpe que destituiu o governo reformista de Alexander Kerensky (1881-1970), em episódio que passou para a história como a Revolução de Outubro.

Ainda era outubro no calendário juliano da Rússia, mas o Ocidente já estava em novembro, pelo calendário gregoriano.

Kerensky comandava o fraco regime republicano que havia deposto em fevereiro o czar Nicolau 2º, o último monarca da dinastia dos Romanov, que seria morto com a família em 1918.

Mas não é isso que importa. O comunismo, defendido por sindicatos e partidos ligados à herança teórica de Karl Marx (1818-1883), foi, desde então, um soco no estômago da democracia liberal e do capitalismo.

Enquanto existiu, sobretudo durante a Guerra Fria, a partir de 1945, uma parcela significativa da esquerda o tomava como uma alternativa concreta ao liberalismo econômico e político.

PREVALECEM CARACTERÍSTICAS TRÁGICAS

O regime comunista soviético teve poucos momentos relevantes e muitíssimos momentos de tragédias.

De positivo há o papel da máquina militar no processo de derrota do nazi-fascismo – 18 milhões de mortos entre russos e associados – e um breve período de supremacia tecnológica.

Foram russos o primeiro satélite lançado ao espaço, o Sputnik, em 1957, e o primeiro astronauta a entrar em órbita ao redor da Terra, Yuri Gagarin, em 1961.

Mas o comunismo soviético também funcionou como um laboratório a céu aberto no campo dos desastres econômicos e da repressão às liberdades individuais.

Um de seus dogmas, a chamada propriedade coletiva, jamais deu bons resultados.

Entre 1931 e 1933, por exemplo, a expropriação de toda a agropecuária gerou uma queda drástica na produção de alimentos e a morte, por desnutrição, de uma multidão hoje estimada entre 6 a 8 milhões de pessoas.

A indústria, com baixa produtividade, não conseguiu em nenhum momento abastecer o mercado com bens de consumo duráveis. Um liquidificador ou uma torradeira de pão eram produtos reservados aos aparatchiks (elite do partido).

Por detrás desse fracasso está justamente a impossibilidade de se criar um modelo econômico capaz de prever toda a demanda dos consumidores por produtos e serviços.

Apenas o capitalismo e o risco dos investidores satisfizeram essa forma de oferta dentro da economia de mercado, por definição descentralizada.

O chamado socialismo real, ou socialismo político, tomou conta de todo o Leste Europeu, mais a URSS e a China, além de países asiáticos como Coreia do Norte e Vietnã e a pequena Cuba, como exceção política em terras americanas.

Nos anos 1950 corria um curioso chiste. Em todo o mundo comunista, passavam-se menos necessidades só na Alemanha Oriental. Mas não por mérito do comunismo, mas sim pelo espírito alemão de organização.

OS MILHÕES DE TÚMULOS ANÔNIMOS

A grande tragédia gerada pelo comunismo, no entanto, foi no campo dos direitos humanos. O regime era abastecido por uma paranoia segundo a qual era preciso eliminar o inimigo interno antes que ele sabotasse o pensamento consensual e a produção.

Entre 1936 e 1940, os expurgos determinados pelo ditador Josef Stalin (1878-1953) levaram ao fuzilamento de 680 mil pessoas.

Mas os números reais jamais serão conhecidos. Fala-se, em termos até meio conservadores, em 30 milhões de mortos, entre os executados e os que morreram em campos de trabalhos forçados.

O stalinismo matou 2,5 mil escritores, 500 poetas e mais uma quantidade indescritível de músicos e outros intelectuais.

Entre os que sobreviveram, prevalecia o imobilismo e o constante temor como formas de sobrevivência.

Não é preciso demonstrar esse clima por meio de sociólogos ou historiadores.

Basta a leitura dos depoimentos reunidos pela jornalista Svetlana Alekseievitch, Prêmio Nobel de Literatura em 2015. O chamado “homem soviético” é uma mistura desastrada da apatia com medo.

COM GORBATCHEV, O REI FICOU NU

Mas não era por ser moralmente hediondo que o regime comunista se deixou corroer por dentro. A insatisfação que ele gerava entre os próprios soviéticos pode ser medida pela ampla e barulhenta receptividade da perestroika e da glasnost de Mikhail Gorbatchev.

As reformas radicais propostas pelo último dirigente comunista soviético (1995-1991) simplesmente provocaram a implosão do regime.

Havia uma incompatibilidade visceral entre o monolitismo herdado dos bolchevistas e alguma forma de liberdade.

Nesse processo também pesou a impossibilidade de a tecnologia militar da URSS acompanhar o processo de radicalização estratégica imposto pelos Estados Unidos durante a presidência de Ronald Reagan (1981-1989).

Sob Reagan, o Pentágono lançou um sistema balístico que neutralizaria, ainda em órbita, os mísseis intercontinentais russos, vulnerabilizando o sistema de defesa da então superpotência soviética.

Diante do desequilíbrio favorável aos norte-americanos, de pouco adiantava o fato de a URSS ter mais ogivas nucleares ou uma frota maior de submarinos.

Fragilizada no final de 1989 pela queda do Muro de Berlim e pelo desmoronamento do castelo de cartas do Leste Europeu, a URSS pura e simplesmente implodiu.

As privatizações que se seguiram sob Boris Yeltsin (1991-1999) deram uma dimensão precisa de uma verdade que muitos no Ocidente de há muito alardeavam.

A saber: o comunismo soviético havia se transformado numa enorme e infinita sucata. E foi com esse estatuto que o comunismo, sem honras ou comemorações, partiu para o sepultamento.

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