Opinião

Sustentabilidade em tempos de crise


Mais do que uma crise social, econômica ou ambiental, nos deparamos com uma crise de sobrevivência de nossa própria espécie. Será que essa crise não veio em boa hora?


  Por Rosa Alegria 09 de Maio de 2016 às 09:00

  | Futurista, pesquisadora de tendências e Mestre em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston, EUA


Entre um sistema econômico falindo e outro engatinhando, já podemos sentir o privilégio de viver numa mudança profunda  na forma de trabalhar, aprender, se relacionar, se informar, comercializar e viver.

O epicentro dessa mudança foi a crise econômica de 2008 ainda não superada, no meio dela,  até os próprios capitalistas questionaram o capitalismo.

Daí em diante agravaram-se outras crises de várias naturezas.  As crises humanitárias com o aumento do número de refugiados políticos, as crises ambientais e os assombros dos desastres naturais extremos, as crises éticas na governança de países, e no palco o Brasil como protagonista dos escândalos políticos.

Um fato inédito aconteceu em janeiro desse ano com  o Fórum Econômico Mundial, reunindo  os mais importantes lideres do planeta. Esse grupo que foi sempre o escudo da  da economia tradicional,  introduziu nos debates  do encontro a mudança de sistema econômico e concebeu a possibilidade de uma profunda mudança de rumo na economia.

Foi o que chamaram de   “a quarta revolução industrial” a ser pautada por valores mais humanos, mais construtivos, mais colaborativos e regeneradores.

Há quem pense que em tempos de crise como a que vivemos é muito mais dificil investir em sustentabilidade. Mas a realidade é outra. Evidências atuais são surpreendentes. Pesquisa  realizada  ano passado pela ABRAPS (Associação Brasileira de Profisssionais de Sustentabilidade) em parceria com a consultoria Deloitte traz realidades muito estimulantes:

•Apenas 9% das companhias reduziram o orçamento destinado a projetos de sustentabilidade. A maior parte (43%) manteve o valor, enquanto 29% aumentou o investimento.

•O profissional especializado em sustentabilidade tem sido cada vez mais valorizado para a visão estratégica do negócio, atuando não somente no seu setor mas em  todas as outras áreas da empresa para favorecer o alcance das metas.

No âmbito global, os investimentos têm aumentado. O monitoramento anual “Green Transition Scoreboard” criado pela futurista Hazel Henderson tem medido quanto os investidores estão apostando nessa nova economia movida por energias renováveis, construção verde e outros sistemas para desacelerar ou corrigir a destruição ambiental.

As fontes de dados são as mais legítimas. Entre elas Bloomberg, Standard & Poors, Google, entre outras. Os investimentos nessa nova economia têm se acelerado. Em 2009, quando o monitoramento começou,  o total investido era de US$1.2 trilhões e foram para US$7.1 trilhões em 2015, ano em que todas as questões relacionadas a sustentabilidade ocuparam o centro das agendas politicas mundiais entre os 193 paises membros das Nações Unidas.

Das energias fósseis ao uso eficiente das  energias renováveis o avanço tem vindo a galope. Estima-se que em 5 anos o custo das energias limpas poderá ser inferior ao das energias fósseis e com isso poderemos ver o declínio da velha economia mais rápido.

A atitude das corporações confirma o vigor da sustentabilidade  - mesmo em tempos de crise - através de seus atuais investimentos em energia renovável:

•A Intel possui 18 projetos solares em nove de seus centros, além de usar biogás, biomassa, pequena central hidrelétrica e eólica.

•A Microsoft é a segunda maior consumidora de energia verde nos EUA e obtém sua eletricidade a partir da biomassa, pequenas centrais hidrelétricas, energia solar e eólica.

•A rede de supermercados Whole Foods apoia a geração de energia solar e eólica para alcançar o seu objetivo de energia verde.

•O Walmart recebe sua eletricidade alternativa a partir do biogás, energia solar e eólica.

•O Google compra energia verde para abastecer 32% do seu consumo anual de energia elétrica, que vem do biogás, energia solar e eólica.

•A Staples já ultrapassou sua meta, usando biogás, energia solar e eólica. A empresa tem investido em seus próprios projetos de energia renovável.

•A Starbucks compra créditos de energia renovável que equivalem a 70% de seu consumo de eletricidade por ano para abastecer suas lojas próprias.

•A Apple supre a maior parte de seu consumo anual com biogás, energia solar e eólica. Ela adotou três vertentes: a construção de seus próprios projetos de energia renovável, a compra direta de energia limpa e a compra de certificados.

•A Unilever compra créditos de energia renovável oriundos da biomassa e eólica para suprir seu consumo anual de energia elétrica.

As “verdades inconvenientes” das mudanças climáticas reveladas ao mundo por Al Gore na década passada, não podemos negar, provocaram mudanças  de comportamento na sociedade e na postura das empresas perante o estrago que provocaram à Natureza,  mobilizando vários setores da economia em torno da urgência que se proclamava.

Em 2006 tive a oportunidade de entrevistá-lo quando veio ao Brasil  para o lançamento do seu livro “Uma verdade inconveniente” e a atmosfera criada pelas informações alarmantes era de medo. Os relatórios científicos da ONU foram a prova mais amarga dos danos irreversíveis sobre o meio ambiente.

Aquelas imagens da Groenlândia derretendo e do planeta fervendo, os gráficos e curvas exponencias da destruição, assustaram até as crianças que começaram a perguntar aos pais e professores se o mundo iria acabar. Fui testemunha de uma cena dessas na casa de um amigo.

Hoje, passados 10 anos, o céu começa a se abrir pela esperança  que o próprio Al Gore nos traz, dizendo-se surpreso com o que tem descoberto com relação à curva exponencial no investimento em plantas eólicas e a tudo o que foi além do previsto na virada do século.

Previa-se naquela época que em 2010 o mundo seria capaz de instalar 30 gigawats de capacidade eólica. Al Gore constata que excedemos 14,5 vezes essa marca e a queda no custo que tem caido drasticamente. Previa-se também que em 2010 o mundo seria capaz de  instalar  1 gigawat de energia solar.

Na época, a marca foi ultrapassada em 17 vezes e no ano passado a marca foi superada em nada mais nada menos que em 58 vezes.

Embora haja espaço para muita esperança, não podemos deixar de lado o sentido de urgência e a necessidade de encontrarmos caminhos para sair dessas múltiplas crises e dos inúmeros desafios que a sustentabilidade nos impõe.

Porque o que antes era  necessário para tornar a economia sustentável é hoje questão de seremos capazes de sobreviver.  Sustentabilidade passa a ser eufemismo de sobrevivência.

O mundo pede urgência por caminhos alternativos.  Estamos assistindo a várias diferentes expressões de uma nova economia  em evolução, através do compartilhamento, da colaboração, da circularidade, da troca, da mudança de visão do que antes era escassez e hoje passa a ser abundância pelos valores do intangível.

 A essa economia materializada ambientalmente destrutiva e socialmente desigual, vão se incorporando valores intangíveis e seus impactos inegáveis sobre as empresas.

As que mais investem em capital humano (qualidade das pessoas e suas relações) têm maior probabilidade de ter seu desempenho acima da média (International Journal of Applied Management Science). Cerca de 80% do valor das empresas que compõem o índice S&P 500, dependem dos ativos intangíveis.

Frente a esses sinais de mudança e a tantos desafios para os próximos anos, acredito que a crise tem sido  benéfica para a sustentabilidade porque nos coloca diante de nossa capacidade de superar nossas próprias  limitações.

Mais do que uma crise social, econômica ou ambiental, nos deparamos com uma crise de sobrevivência de nossa própria espécie. Será que essa crise não veio em boa hora?

 






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