Opinião

Soldados da Pátria


McCann reconheceu no meio militar o papel primordial que os brasileiros concedem aos laços pessoais no trato das questões profissionais, um derivativo da amizade que nas relações da caserna se chama confiança


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 14 de Janeiro de 2019 às 18:15

  | Historiador


O LIVRO: EDITADO NO BRASIL PELA COMPANHIA DAS LETRAS

Para mais uma vez dizer alguma coisa sobre os militares, tomo emprestado o título do livro escrito por Frank McCann, professor emérito da Universidade de New Hampshire, de quem me tornei amigo por intermédio de saudosos amigos.

Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro (1889-1937) é o melhor estudo histórico sobre os nossos militares, cobrindo o período que vai da consolidação da República à estruturação do Estado, do qual emergiu também o moderno Exército.

Rompendo um padrão desta coluna, adoto aqui a primeira do singular para dizer que não se deve temer a amizade. Ela diz algo de nós. À amizade do professor McCann se deve por certo ele ter me atribuído o mérito de haver lhe mostrado como os jovens oficiais viam a história de seu Exército.

Se assim for, fica a constatação de que caminhamos em boa companhia, por uma boa causa. Afinal, como ele mesmo observou: “as histórias que as pessoas conhecem sobre o passado influenciam o modo como pensam e moldam o futuro”.

Porém, independentemente da sua excelente qualidade, o que mais me impressionou na obra de McCann -sem dúvida o melhor historiador da aliança entre Brasil e Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial -foi o seu sistemático esforço para superar a distância entre as realidades culturais dos dois países.

Dessa maneira ele reconheceu no meio militar o papel primordial que os brasileiros concedem aos laços pessoais no trato das questões profissionais, um derivativo da amizade que nas relações da caserna se chama confiança.

Durante muito tempo os norte-americanos souberam cultivar essas relações de confiança nascidas nos campos de batalha da Itália, o que foi extremamente útil para compor visões distintas sobre problemas comuns em momentos difíceis.

Foi lamentável que uma geração depois essa percepção tivesse desaparecido. Servindo na Junta Interamericana de Defesa, em Washington DC, no início dos anos 2000, notei que à exceção das pessoas mais velhas, os norte-americanos desconheciam o Brasil e a sua relação com os Estados Unidos. De nossa parte, o esquerdismo, latente e depois escancarado, praticamente estragou o que restara.

A confiança é o cimento das relações entre os militares. Ela começa no chamado grupo primário, o grupo de combate de nove homens comandado pelo sargento, onde cada um exercita a coragem sem adornos, até os mais elevados escalões, nos quais, em sua máxima expressão moral, a coragem se expressa na responsabilidade pela vida de milhares.

Durante a Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), os generais russos Paul von Rennenkampf e Alexander Samsonov, em meio a uma controvérsia sobre a condução das operações, agrediram-se fisicamente em uma estação ferroviária, diante de subordinados e observadores diversos.

O Coronel alemão Max Hoffman, presente no local, anotou detalhadamente o incidente. Cerca de dez anos depois, em plena Primeira Guerra Mundial (1914-1918), na batalha dos Lagos Masurianos (26-30 agosto de 1914), Hoffman, agora subchefe de operações, convenceu Hindenburg, o comandante geral alemão na frente oriental, de que as forças de Rennemkampf não socorreriam às de Samsonov, o que possibilitou aos germânicos baterem os corpos de exército dos dois generais russos separadamente, impondo-lhes uma séria derrota.

Voltando aos nossos pagos, foi a amizade de Caxias por Osório que lhe permitiu pedir ao lendário gaúcho o sacrifício de voltar, em maio de 1867, ainda não restabelecido, ao teatro de guerra do Paraguai à frente de um corpo de exército que só o seu prestigio poderia arregimentar. Amizade que superaria os mais difíceis momentos da luta e nem mesmo a sordidez política no após guerra conseguiria abalar.

Para quem deseja saber o que são os militares do Exército brasileiro, aconselha-se a leitura do livro do professor McCann.

Já aos brasileiros se pode garantir que eles continuarão a ser o que sempre foram:

Soldados da Pátria!

 

 

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