Opinião

Será que o Brasil corre o risco de virar uma Venezuela?


PT, PC do B e Psol apoiam o regime de Nicolas Maduro, e o clima nesses partidos de esquerda é de ressentimento. Mas as Forças Armadas não se deixariam instrumentalizar por aqui


  Por João Batista Natali 24 de Julho de 2017 às 14:26

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Nesta segunda-feira (24/07), Caracas amanheceu coberta de cartazes com os dizeres “Não à Chimba”. A palavra, na gíria venezuelana, significa maçante, enfadonho. Mas é também um termo muito vulgar para designar o ato sexual.

A “chimba”, no caso, é a suposta Assembleia Nacional Constituinte, cujos 500 integrantes serão escolhidos com o voto indireto neste domingo (30/07), e que representou o passo mais ousado do ditador Nicolas Maduro para aniquilar a oposição –amplamente majoritária – a seu regime esquerdista.

Uma primeira questão: até que ponto o Brasil estaria correndo um risco semelhante? Teoricamente, bastaria reunir os mesmos ingredientes para que se chegue à iminente eclosão de uma Guerra Civil, como a da Venezuela.

Nicolas Maduro é abertamente apoiado pelo Partido dos Trabalhadores e por seus aliados do PC do B e do Psol. Um dos roteiros para o Brasil de 2018 pode indicar, também em teoria, a vitória de uma esquerda de conteúdo venezuelano.

PT, UM PARTIDO DE RESSENTIDOS

Isso porque pouco resta hoje do PT moderado de 2002, quando Lula lançou sua Carta aos Brasileiros, comprometendo-se a respeitar os contratos, enquanto escolhia, como vice, o empresário liberal José de Alencar.

O PT é hoje um partido ressentido, contra a Lava Jato, que poderá levar Lula à prisão, e contra uma ordem constitucional, que permitiu o afastamento de Dilma Rousseff.

Mas as comparações com a Venezuela têm um grande e eloquente senão. Trata-se das Forças Armadas. Hugo Chávez, que criou em 1998 o regime bolivariano, era um coronel do Exército.

E antes de morrer, em 2013, ele instrumentalizou ideologicamente todas as promoção de oficiais superiores.

Maduro herdou uma oficialidade bolivariana, que, apesar de 120 prisões nos últimos quatro meses – pouco se sabe se eram apenas dissidentes -, tornou-se um ponto forte de apoio ao regime.

No Brasil, Exército, Marinha e Aeronáutica seguem uma dinâmica própria. A tentativa de promover oficiais simpáticos ao PT –quando, em 2015, o ministro da Defesa era Jaques Wagner, no segundo mandato de Dilma –morreu antes de se viabilizar.

Além disso, um novo governo petista com perfil bolivariano precisaria passar por cima do cadáver do Congresso para transformar as Polícias Militares em forças de apoio ao partido, ou armar milícias criadas pelo partido do governo. São duas das realidades da Venezuela.

Por fim, e para impedir obstáculos legais, essa possível esquerda teria a difícil tarefa de acabar com o Supremo Tribunal Federal.

Adotando, por exemplo, a receita venezuelana, que consistiu em nomear 22 ministros bolivarianos ao lado dos 11 então existentes, para com isso alcançar o conformismo de seus integrantes.

Com todos esses obstáculos, um presidente de esquerda no Brasil precisaria se conformar muito mais com o modelo moderado do presidente Tabaré Vazquez, no Uruguai, ou do primeiro-ministro Antonio Luiz Santos da Costa, em Portugal, ambos com apoio de comunistas e socialistas.

COMO A VENEZUELA CHEGOU LÁ

A gravidade do quadro venezuelano é crônica, e tudo deu errado, bem antes que, em 2014, a queda da cotação do petróleo reduzisse pela metade as divisas que abastecem o país. Ele tem as maiores reservas mundiais e é o sétimo exportador do combustível.

É um regime centralizador, corrupto e incompetente.

Alguns números. A população de 31 milhões registra 81% abaixo da linha de pobreza. A inflação será este ano de 1.660%, segundo projeção do FMI. O PIB caiu em 30% nos últimos três anos.

Quanto ao consumo, o venezuelano não encontra nos supermercados 84% dos alimentos de que necessita, enquanto as farmácias têm apenas 15% dos medicamentos.

Há um colapso no sistema de saúde e de educação. A poliomielite voltou. Recentemente, uma das emissoras de Caracas registrou alta mortalidade nos asilos, porque os idosos não tinham o que comer.

Com esse quadro, é compreensível que, em dezembro de 2015, a oposição, com partidos da Mesa de Unidade Democrática (MUD), tenha eleito dois terços dos 167 deputados do Parlamento unicameral.

E é também previsível que Maduro tenha manobrado para não publicar nenhuma das leis que desde então os deputados votaram.

Em golpe mais ousado, o ditador tentou em março último tirar da Assembleia os poderes legislativos, transferindo-os para os 33 ministros do Tribunal Superior de Justiça.

Foi o que desencadeou, há exatamente quatro meses, a maior e mais persistente onda de protestos da história latino-americana. A cada dois dias, a população sai às ruas. As milícias e a PM reprimem. Mais de 100 venezuelanos já foram mortos.

O país foi paralisado na última quarta-feira por uma greve geral contra o governo. Outra paralisação de 48 horas está prevista para esta quarta e quinta.

Não há outra motivação, a não ser a golpista, para querer agora uma nova Constituição. A atual foi redigida em 1999, submetida a referendo e emendada em duas ocasiões.

Mas, em lugar de convocar o eleitorado, Maduro fez suas contas e inflou a representatividade de comunidades próximas do regime. Ele não tem como ficar em minoria nesse processo a ser desencadeado domingo.

E isso quando a oposição, no último dia 16, convocou um referendo oficioso de rejeição aos planos da ditadura e obteve a participação de 7 milhões de eleitores – ou 85% dos votantes em potencial nas regiões em que a votação pode ser feita.

A equação de Maduro consiste, então, a manter a maioria em minoria. O que a oposição obviamente rejeita. E não só ela. A Procuradoria Geral da República entrou ne dissidência, e a Igreja Católica, por meio do cardeal Jorge Urosa Savino, também ataca o governo.

Uma solução negociada é a única saída, com a garantía de exílio aos atuais dirigentes e anistia a seus subordinados. Mas quem é que vai pendurar o guiso no pescoço do gato?

O Vaticano, a Espanha, a Colômbia e o Mercosul já tentaram mediar um acordo. Nada conseguiram.

Os Estados Unidos cometeram há días a besteira de ameaçar a Venezuela com sanções económicas. Se insistir nesse caminho, Donald Trump reunificaría o establishment bolivariano, hoje rachado.

O Brasil, informou há días o jornalista Clóvis Rossi, leva a sério o cenário de Guerra Civil e montou um plano de emergencia para reunir e proteger os 32 mil cidadãos brasileiros residentes naquele país.

É este o ponto em que estamos. Diante dele, cabe sempre a pergunta mais sensata: será que é algo do mesmo gênero que interessa aos brasileiros?

Somos nós que iremos votar no ano que vem. Façamos uma pausa para reflexão.

FOTO: Marcelo D.Santes