Opinião

Saudades do Cândido Mota


A capital recém-fundada ainda era um verdadeiro lamaçal, com um bom restaurante, além de dois hotéis, Brasília Palace e Nacional e um único cinema


  Por Aristóteles Drummond 31 de Janeiro de 2020 às 07:00

  | Jornalista


Neste momento em que o Supremo Tribunal Federal desperta tanto interesse e é alvo das atenções da sociedade, fugindo a uma tradição de discrição e austeridade, recordo da oportunidade que o destino me proporcionou, aos 17 anos, de conhecer e ouvir quase todos os membros da nossa mais alta corte, em Brasília, nas férias de janeiro e julho de 1961.

A capital recém-fundada ainda era um verdadeiro lamaçal, com um bom restaurante, além de dois hotéis, Brasília Palace e Nacional e um único cinema, de Luiz Severiano Ribeiro, provocava um convívio mais íntimo entre os parlamentares, militares, magistrados, muitos ainda morando sozinhos, com as famílias no Rio de Janeiro. 

O ministro Cândido Mota Filho, gigante da nossa vida intelectual, que fora ministro da Educação e ativo na vida pública desde a década de 1920, foi dos poucos a se mudar logo, com sua mulher, Elza, e a filha Lesa. Convidado de meu querido amigo e seu neto Nelson, herdeiro de sua presença na cultura nacional, ali passei as férias, assistindo à despedida de JK, que, em carreata, levamos ao aeroporto, e ao início dos poucos meses de mandato de Jânio Quadros.  

A hospitalidade do casal Cândido Mota fazia com que acolhesse, todos os dias, para jantar muitos dos demais ministros, poucos com suas mulheres. E, ali, eu e meu amigo Nelsinho, tivemos a oportunidade de ouvir as conversas, os casos contados por cada um daqueles homens de notável saber, ilibada vida profissional e pessoal. 

Aquela foi uma composição memorável da Corte. Além de Cândido Mota, também membro da Academia Brasileira, lá estavam Nelson Hungria, homem com odores de santidade, com sua filha Célia, Antônio Carlos Lafayette de Andrada, cujo nome já diz tudo, Hahnemann Guimarães, austero e reservado, Ari Franco, rico em histórias do Rio, o carismático e severo Álvaro Ribeiro da Costa, o tranquilo Luiz Gallotti e o mineiro de rica biografia Vilas Boas. Todos acima que qualquer suspeita, magistrados como se deve ser, sem a presença da vaidade exacerbada em nenhum deles. Homens respeitados e independentes, em harmonioso convívio. 

A Revolução de 64 a todos respeitou. Afastou dois nomeados por Jango e aumentou o número de membros do Supremo para garantir maioria. Nenhum deles exercia atividades que pudessem receber recursos públicos ou privados, muito menos familiares, inclusive na área do ensino, onde a Constituição lhes garante o exercício do magistério. 

Os presidentes que nomearam aqueles homens não se deixaram levar, ao que tudo indica, por indicações ou afinidades políticas. Foram, como diz a Carta Magna, nomeados por serem “de notável e reconhecido saber e ilibada reputação”. 

Hoje, apesar de alguns notáveis no Supremo, o convívio não é o mesmo; por pouco não chegam às vias de fato por pequenas divergências. As maneiras de acesso ao cargo mudaram e, em alguns casos, houve até escolhas, em afronta à tradição, de homens de passado na militância política partidária e no fracasso em tentativas de ingresso na magistratura por concurso. 

Saudade daquele Brasil. Saudade de Cândido Mota Filho!!!

 

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IMAGEM: Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil