Opinião

São Paulo, cidade abandonada


Vou lamentar, a falta de habilidade política e urbana do PSDB que se entrega, sempre, a brigas internas, disputando eleições sempre dividido, dando chance a que sejam eleitos postes


  Por Paulo Saab 29 de Fevereiro de 2016 às 16:04

  | Jornalista, Bacharel em Direito, professor universitário e escritor.


Ao longo de minha vida, nascido e criado e vivendo sempre na capital paulista, acompanhei em mais de metade de século a evolução ou involução da nossa grande cidade. Sou ainda do tempo da garoa. Que não há mais. Quando São Paulo tinha inverno de verdade. Não sou saudosista nem -graças a Deus- uma metamorfose ambulante como Lula.

Eu não durmo com medo do japonês da Federal bater em minha porta. Em sendo um mero e comum cidadão paulistano, desde garoto, gostei sempre da minha cidade.

Costumava, antes ainda de entrar na adolescência, de sentar na cadeira da frente, solitária, ao lado do motor e do motorista, do ônibus circular 572 que saía da Rua Humberto Primo, esquina com Álvaro Alvim, na Vila Mariana, subia a Major Maragliano, pegava a Vergueiro, ia ate a Praça João Mendes e voltava subindo a Avenida da Liberdade, Domingos de Moraes, descia a Rodrigues Alves e entrava de novo na Humberto Primo ate o ponto inicial.

Ia apreciando a cidade. 

Hoje em dia, notadamente depois das desastrosas gestões de que a capital tem sido vítima, na prefeitura, andar por São Paulo, virou um suplício.

Com Haddad, então, nossa capital transformou-se num aglomerado urbano abandonado à sua sorte. Não há gestão. Não há visibilidade e as coisas são feitas sem critério e explicações, quando são feitas. 

Dar uma volta na cidade hoje significa, entre outras coisas:

1-Se de ônibus, andar amassado, prensado ou atrasado por corredores que também param, sem lugar disponível, nem vista para ser apreciada. 

2-Se de carro, ser multado a cada esquina, sacudir na direção como se trafegasse em estacas de trilho de trem, tantos são os buracos e remendos mal feitos. Não se anda 50 metros de forma suave no asfalto de São Paulo.

3-Ainda de carro, quando se falar andar, leia-se, se arrastar, porque a mobilidade é quase nula. O trânsito insiste em não andar, e onde anda, a velocidade é reduzida para fomentar a indústria da multa, importante componente da arrecadação municipal, nos orçamentos de governos incompetentes. 

Corre-se também o risco já quase frequente de ter o veículo alcançado por alguma enchente, basta chover, e ficar horas sem andar porque bastou cair agua para os semáforos não funcionarem. Detalhe interessante: os radares de multa nunca param de funcionar, mesmo sob aguaceiro. São novos, Brilhando de modernos. Os semáforos estão velhos, caídos, fora de moda, porque já há sinaleiras, como dizem os gaúchos, mais modernas em cidade de vinte mil habitantes. Semáforo não multa. Para que trocar?

4-Se for andar a pé, cuidado. As calçadas são todas tortas, quebradas, desalinhadas, em nível, esburacadas e fedorentas. Isso, onde há calçada. Se for a noite, cautela dobrada. A iluminação pública é um breu só. Faltam postes e os que existem quase nunca acendem todas as lâmpadas.

Fios caídos, debruçando-se sobre as calçadas, provocando tropeços ou choques. O que ocorrer primeiro. O meio-fio sujo, as calçadas imundas, os bueiros entupidos. As ruas e baixos de viadutos lotados de ditos sem teto, consumidores de crack ocupando as instalações públicas com fios puxados em gatos de iluminação, fazendo xixi e cocô no bueiro da esquina, fogueiras para aquecer o corpo e comida com risco de por fogo em tudo em volta. E bicicletas, vindas de vez em quando de algum lugar para atropelar alguém quando a ciclovia vazia disputa espaço com os pedestres na mesma calçada.

5-Se for de táxi e pegar um Uber corre o risco de apanhar sem saber porquê, tamanha é a violência de alguns motoristas que montam armadilhas para tocaiar quem anda nos carros da Uber, seja motorista ou passageiro. 
Se pegar um táxi normal, dependendo do motorista, há bons e ruins, como em toda profissão, fica a mercê do rádio em volume elevado em estação de gosto duvidoso. Ou tem que ouvir horas de discurso a favor deste ou contra aquele. Horas pode ser figurativo, mas pode chegar mesmo porque ir ao destino demora, com o trânsito sempre congestionado.

6-Se for de bicicleta...bem, como quase ninguém vai...fica o problema para todos. Risco de todo lado para todos. Nos milhões de ônibus, carros, motos (nem vou mencionar se for de moto....)a bicicleta vira hobby do prefeito , que não a usa.

Não vou cansar mais o leitor, os da capital que se identificam com essa situação –e nem falo dos bairros de periferia com seus problemas também- porque vai longe.

Vou isso sim, lamentar, a falta de habilidade política e urbana do PSDB que se entrega, sempre, a brigas e disputas internas, disputando eleições sempre dividido, dando chance a que sejam eleitos postes e quetais, enquanto seu candidato sofre boicote interno.

Com a gestão Haddad mais mal avaliada e com o cidadão abandonado como todos sabem e sentem, com o PSDB se matando internamente de onde não sairá unido, Marta –Deus nos poupe- só não será eleita se sair dizendo bobagens como costuma soltar de vez em quando queimando a si própria. 

Em resumo: cidade em estado de flagelo e não há candidato visível ainda capaz de oferecer no mínimo esperança de melhora.

Aí da saudades mesmo dos tempos de outrora. Faria Lima, Prestes Maia, entre poucos, simbolizando os bons prefeitos que tivemos.

O resto..é isso..resto...

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