Opinião

Recessão prolongada e busca por liquidez


Está em curso uma dinâmica de “desalavancagem” em termos micro e macroeconômico, paralisando e encolhendo a economia como um todo e, ainda, debilitando crescentemente sua capacidade de produzir resultados presentes e futuros


  Por Nicola Tingas 08 de Dezembro de 2015 às 19:38

  | Economista de mercado financeiro, especialista em crédito, consultor empresarial. Foi economista chefe da Acrefi e da Febraban


Um “incêndio” de grande intensidade vai se alastrando pela economia brasileira, “queimando” parte do que foi uma economia vibrante e virtuosa até alguns anos atrás.

Estão sendo fortemente afetados diversos alicerces e pontos de apoio da dinâmica macroeconômica e financeira da economia: finanças públicas, produto (PIB), renda, salários, lucro, emprego, preços, câmbio, juros, consumo, investimento, produtividade, entre outros.

Este processo trouxe, pelo lado positivo, alguma reversão de distorções de preços relativos e possibilidade de melhora nas contas externas, como reflexo da forte desvalorização do Real.

Contudo, o impacto negativo tem sido muito severo: a crise política e econômica tem resultado em recessão profunda e prolongada, ou seja, um ciclo de destruição de riqueza e perda de capacidade de crescimento futuro (PIB potencial).

Nesse contexto, empresas, famílias e governo (federal, estadual e municipal), procuram meios de mitigar os efeitos desse “incêndio” - buscando ampliar a liquidez.

Há crescente busca por dinheiro, caixa, redução de dívidas, redução de estoques, redução de tamanho de negócio e orçamento e, até mesmo, fusão ou venda de patrimônio.

O objetivo primordial desta ação dos agentes econômicos é limitar perdas, proteger o fluxo de caixa e manter solvência patrimonial, diante de um ambiente de crescente incerteza alimentada pela falta de confiança no futuro.

A recessão que poderia ser um processo de correção de rota de política econômica, e, portanto conjuntural, passa a ser estrutural e prolongada.

Está em curso uma dinâmica de “desalavancagem” em termos micro e macroeconômico, paralisando e encolhendo a economia como um todo e, ainda, debilitando crescentemente sua capacidade de produzir resultados presentes e futuros.

Os números ilustram bem esse difícil contexto. As expectativas sobre o desempenho econômico em 2016 são ainda sombrias, esperando-se uma queda do PIB entre 3,0 a 4,0% (estimativa de mercado financeiro neste momento), após uma contração estimada próxima a 3,8% em 2015, e estagnação em 2014 quando o PIB registrou apenas 0,1%.

O PIB do 3º trimestre de 2015, divulgado pelo IBGE no início de dezembro, evidenciou que estamos atravessando a mais profunda e prolongada recessão em décadas.

Na marcação estatística o PIB do período contraiu 2,5% em quatro trimestres, sendo que foi de 1,8% a contração do “Consumo das Famílias” e de 11,2% a contração do “Investimento” (Formação Bruta de Capital Fixa).

EVOLUÇÃO DO PIB E COMPONENTES SELECIONADOS/Taxa (%) acumulada em quatro trimestres sobre mesmo período anterior/Fonte: IBGE. Elaboração do autor

Um agravante desse quadro é que há expectativa da continuidade das demissões no início de 2016, medida essa necessária para ajuste do “tamanho” das empresas ao menor mercado e maiores custos, o que deverá gerar um pico de desemprego em 2016 da ordem de 11% a 12% da “taxa de desocupação da força de trabalho”, seguindo a já elevada taxa de 8,9% indicada pela PNAD Contínua do IBGE relativa ao 3º trimestre de 2015.

Afora isso, há perda de poder aquisitivo e aumento de custos na economia decorrente da elevada inflação próxima a 10,5% em doze meses.

Como consequência, a desejada recuperação futura da economia passa a ser um caminho mais tortuoso, difícil e lento.  O que poderá reverter e mitigar esse cenário destrutivo?

Os atores econômicos e formadores de opinião estimam, neste momento, que a decisão do ‘sim’ ou ‘não’ ao impeachment da Presidente da República possa abrir uma janela de oportunidade para resgate da economia.

Mas, a tarefa não será simples, pois em qualquer cenário estimamos que três pilares dinâmicos terão de estar minimamente presentes: liderança, credibilidade e confiança.

O fim da crise e reversão do cenário vicioso para virtuoso poderá ser gradativamente obtida na medida em que haja real condição de surgimento de “liderança política” e/ou “acordo de poder”, em seguida ou concomitantemente que seja indicado um “plano de resgate econômico” crível e viável, sendo estas etapas necessárias para conseguir restaurar gradativamente, através de atos com consistência e transparência a “confiança” dos agentes econômicos e recuperação da capacidade de crescimento da economia.

Portanto, enormes desafios de travessia ainda persistem para 2016.

Buscar ampliar a liquidez e estabelecer decisões financeiras pessoais e empresarias cautelosas, que mitigam riscos, são boas opções de estratégia e posicionamento nesta difícil conjuntura; mas, se praticadas com excesso podem engessar e impedir haver flexibilidade para reagir rapidamente e participar de oportunidades na fase de recuperação econômica futura.   

    






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