Opinião

Recessão ou depressão?


Somente o tempo poderá dizer se passamos por uma séria e profunda recessão em 2015 ou se de fato ingressamos em uma depressão


  Por Roberto Fendt 02 de Dezembro de 2015 às 10:41

  | Economista.


Leitora lê em conceituado jornal do Rio de Janeiro que a economia retrocede a patamar de 2011 e ruma para depressão. Fica confusa com a notícia e pergunta: o que diferencia uma recessão de uma depressão?

Antes de procurar responder à pergunta acho prudente uma digressão. Como para quase tudo na vida, é importante tentar pelo menos precisar termos.

Não fosse assim, ficaria difícil comparar situações e nossa retórica se tornaria totalmente subjetiva.

Para evitar isso, os economistas procuraram uma definição quantitativa para medir a progressão da atividade econômica ao longo do tempo.

A base dessa tentativa é o reconhecimento de que todas as economias apresentam comportamento cíclico, expandindo-se em determinados períodos e se contraindo em outros.

Aos períodos de contração prolongada dá-se o nome de recessão.

Os economistas foram mais adiante em precisar o conceito e concordaram em separar quedas ocasionais na atividade econômica de contrações persistentes e prolongadas.

Por convenção, passaram a denominar a fase de retração geral da atividade econômica em que ocorre simultaneamente um grande número de mazelas: queda na produção, aumento do desemprego, redução do rendimento das famílias e da lucratividade das empresas, aumento de falências e concordatas e aumento da capacidade ociosa, tudo isso acarretando a queda nos investimentos produtivos.

Por convenção ainda, é geralmente aceito que uma economia está em recessão se ocorre uma queda na atividade econômica geral por pelo menos dois trimestres consecutivos.

Feitas essas considerações, importa apontar que a diferença entre recessões e depressão diz respeito à duração das primeiras e sua intensidade. Recessões são parte normal de qualquer economia em crescimento, podendo ser muito curtas (os economistas às vezes a elas atribuem o formato de um V) ou mais prolongadas (com um formato de um U com sua base alongada).

Já o termo depressão é usado com parcimônia, já que caracteriza situações anormais na trajetória de crescimento de uma economia.

A maior delas começou como uma simples recessão a partir de 1929 e teve início com a queda violenta do valor das ações na bolsa de Nova Iorque.

Dali, por erros grosseiros da política monetária norte-americana, o que seria uma recessão aprofundou-se rapidamente e contagiou toda a economia global.

A estagnação persistiu por quase toda a década de 1930 e somente foi debelada com o aumento dos gastos militares na segunda guerra mundial. Foi precisamente essa corrida armamentista nos países em conflito que ocupou a capacidade produtiva ociosa e pôs fim à depressão.

No caso atual do Brasil me parece prematuro falar-se em depressão. É verdade que os dados divulgados pelo IBGE para o terceiro trimestre mostram que a atividade econômica retrocedeu ao patamar do início de 2011. Atualmente atravessamos um período em que a produção está em queda por três trimestres consecutivos, depois de outros três sem crescimento.

Além disso, os dados revelam que a queda na produção no terceiro trimestre deste ano está 4,5% abaixo do nível obtido em igual período do ano passado. Não é, portanto, uma queda trivial e muito menos esporádica. Pelos critérios que expus anteriormente, estamos claramente em recessão.

Dizer, contudo, que estamos a caminho de uma depressão é temerário. Não se descobriu que a economia americana estava em depressão em 1930, mas muito depois. Somente o tempo poderá dizer se passamos por uma séria e profunda recessão em 2015 ou se de fato ingressamos em uma depressão.

O que podemos dizer já e peremptoriamente é que as mazelas com que convivemos hoje e ainda vamos conviver por algum tempo, nada tem a ver com eventos ou choques vindos de fora. Essa recessão foi engendrada aqui mesmo, por uma série de erros de política econômica cometidos nos últimos 10 anos.

Esses erros foram apontados seguidamente nesse espaço, onde se apontou que a persistência no erro levaria inevitavelmente à situação em que hoje os encontramos.

    

    





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