Opinião

Querelas do Brasil


Perpetuam-se mecanismos de manutenção da pobreza e transferência de renda para os mais ricos no País


  Por Josef Barat 13 de Agosto de 2019 às 11:37

  | Economista, Coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da ACSP


A canção de Aldir Blanc e Mauricio Tapajós chamava a atenção para a falta de sintonia das elites brasileiras com o povo. Trazendo para a Economia, ao longo de décadas elites e governantes perderam a sintonia com os anseios do país. São muitas as querelas.

Comecemos com as disparidades pessoais e regionais de renda. Estudo recente do IPEA e publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, analisou 29 países — desenvolvidos e em desenvolvimento — e mostrou que o Brasil está no grupo das dez nações mais desiguais. O 1% mais rico concentra 23% do total da Renda do país, nível bem acima da média internacional. Dados de Imposto de Renda referentes ao período de 2006 a 2014 mostram que a desigualdade não diminuiu no país nos oito anos analisados.

Por outro lado, relatório do Banco Mundial mostra que, no Brasil, os servidores públicos federais ganham 67% a mais do que um empregado no setor privado, em função semelhante e igual formação e experiência profissional.

O chamado “prêmio salarial” do funcionalismo brasileiro é o mais alto em uma amostra de 53 países pesquisados. O Banco avalia que os salários elevados dos servidores contribuem para aumentar a desigualdade.

Para os servidores estaduais, a diferença é de 31%, patamar também alto, uma vez que a média internacional em países com níveis médios e altos de desenvolvimento é de 16%. Sendo os altos salários dos servidores financiados por meio de tributação, ao final, trata-se de uma forma de redistribuição de renda das classes pobres e médias para os mais ricos.

Das dez dez atividades com salários mais elevados, seis estão no setor público, o que coloca os funcionários públicos federais no topo da distribuição de renda do País.

A segunda querela é a da Educação. O sistema educacional brasileiro não só reflete as desigualdades, como as perpetua.

Segundo os dados do IBGE, a taxa de analfabetismo da população com mais de 15 anos no Brasil é de 7,0% (2017). O dado representa 11,5 milhões de indivíduos que não sabem ler e escrever, não considerada a massa considerável de analfabetos funcionais.

As disparidades regionais são gritantes, sendo, por exemplo, de 18,2% em Alagoas e 16,7% no Maranhão, contra 2,6% em São Paulo e Santa Catarina. Sendo grande parte dos recursos públicos direcionados para universidades gratuitas em detrimento da educação básica, perpetua-se mais um mecanismo de manutenção da pobreza e transferência de renda para os mais ricos.

Uma terceira querela é a da produtividade do trabalho, afetada evidentemente pela desigualdade social e mazelas do sistema educacional.

Segundo análise do INSPER, nas últimas décadas o Brasil teve avanço insignificante em sua produção por trabalhador, passando de U$ 25 mil, em 1994, para U$ 30 mil, em 2016 (19% em mais de 20 anos).

Comparativamente à produção por trabalhador dos Estados Unidos (que cresceu 48% no período), estamos em um patamar pior do que estávamos na década de 1990. Sabe-se que uma série de fatores influencia os baixos níveis de produtividade no Brasil. Mas a Educação e os parcos investimentos em infraestrutura continuam sendo os principais problemas.

Se foi ampliado o acesso dos jovens à escola e o número de anos de estudo, eles não receberam uma educação de qualidade que os permitisse ser mais produ tivos. O Brasil está há décadas entre os piores do mundo em qualidade da educação.

Por fim, mas não esgotando as querelas, a falta de qualidade do sistema educacional é o grande freio ao desenvolvimento. O Brasil tem baixo percentual de alunos formados em ciências, tecnologia, engenharia e matemática. Enquanto China, Coreia do Sul e Estados Unidos têm metade dos universitários nessas áreas, no Brasil o percentual não passa de 15%.

Parcerias entre empresas e universidade para a produção de novas tecnologias, por meio de incubadoras ainda são muito reduzidas. Desta forma, a maior parte das empresas brasileiras se vale de técnicas mais rudimentares de produção, baixando a média da produtividade e sendo pouco competitivas. O Brazil não conhece o Brasil...

|*Economista, consultor de entidades públicas e privadas e Coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da Associação Comercial de São Paulo.

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