Opinião

Quem poderá nos salvar dos unicórnios?


Startups do tipo unicórnios são geralmente disruptivas, quebram paradigmas, são famintas por novos usuários e crescimento exponencial para gerar retorno aos investidores


  Por Dennis Nakamura 10 de Abril de 2019 às 07:59

  | É engenheiro financista por formação, apaixonado por empreendedorismo, tecnologia e comida e sócio fundador da Relp! Aceleradora de Restaurantes


Outro dia postei sobre o termo unicórnio em minhas redes sociais e percebi que grande parte dos seguidores ainda não sabiam o real motivo de crianças (e adultos) estarem frequentemente fantasiados de unicórnios, ou grandes marcas lançarem produtos coloridos à cada dia.

Num segundo post, expliquei que o termo unicórnio é utilizado há anos em referência a empresas novas (startups) com menos de 10 anos de idade e valuation (valor de mercado) maior que 1 bilhão de dólares (US$ 1BB).

O termo unicórnio se deve ao fato dessas empresas serem bastante raras, quase místicas. Esse termo foi mais fortemente disseminado à partir do ano de 2012, quando a Cowboy Ventures publicou um dos primeiros artigos a respeito disso.

Alguns dias após os posts em minhas redes sociais, estava eu tendo uma ótima conversa com amigos “tecnológicos e nerds” sobre startups e estratégias que facilitam o sucesso de startups como mentorias e acelerações, quando um deles comentou sobre um artigo que ele havia lido: “Será mesmo que zebras podem consertar o que os unicórnios estão fazendo de errado?” (Zebras Unite To Fix What Unicorns Broke)

Agora que o termo unicórnio já foi explicado, há uma analogia entre empresas unicórnios e empresas zebras. Ambas se remetem, principalmente, a empresas startups, ou seja, jovens. Entretanto, o quadro a seguir mostra essencialmente a diferença entre as duas.

Começamos a conversar e levantamos alguns pontos das duas teorias, empresas unicórnios e empresas zebras. Resumindo a parte sobre unicórnios do quadro anterior, podemos ver que startups do tipo unicórnios são geralmente disruptivas, quebram paradigmas, são famintas por novos usuários, crescimento exponencial para gerar retorno aos investidores e geralmente, enxergam o mercado como “There can be only one” (só pode haver um) – analogia do filme Highlander, no qual homens e mulheres imortais tendem a matar uns aos outros para que no final sobreviva apenas o mais forte – se não assistiu Highlander, recomendo.

Como exemplo de unicórnio, podemos citar o famoso AirBNB. Não me leve a mal, tenho o app e sou usuário, mas não sei se você já pesquisou sobre “impacto do AirBNB no mercado imobiliário” no Google. Faça. Num artigo de agosto de 2018, The Guardian mostrou um caso bastante interessante sobre a destruição que um unicórnio mal domado pode causar.

Na data desta notícia houve o protesto “Barcelona no está en venda”. Resumidamente, o AirBNB desincentiva a locação de longo prazo e incentiva a locação de curto prazo, isso significa, por exemplo, que os aluguéis de longo prazo que costumavam estar em torno de EUR$ 1.000,00 mensais, com AirBNB as locações de “alta rotatividade” ou “de poucos dias”, acabam elevando esse tíquete para três vezes mais, também reduzindo a oferta de locações de longo prazo motivando sua alta também.

Nesse caso a jovem força de trabalho que precisa alugar um apartamento pequeno para morar próximo do trabalho ou universidade, tem sua capacidade financeira de locação drasticamente reduzida e em muitos casos precisam mudar de emprego e de cidade.

Numa tentativa de solução, Amsterdam, Berlin, Lisboa, Paris e Veneza restringiram fortemente as locações de curto prazo após receber protestos do mesmo modelo.

Já o termo “empresas Zebras” tomou corpo no DazzleCon em Portland em 2017 (Conferência da Manada [de zebras]), sobretudo tendem a estar mais ligadas à economia real, tendem a quebrar e utilizar paradigmas de uma forma mais responsável.

São famintas por qualidade dos processos em que atuam para gerar cada vez mais valor para a sociedade em que se encaixam, e por isso têm um crescimento geralmente mais lento que os unicórnios.

Preferem cooperar com outras empresas ao invés de comprá-las ou destruí-las. O termo Zebra surge do fato de serem realmente empresas preto e branco, o que significa que elas enxergam o mundo tanto de uma forma mais faminta por rentabilidade quanto da outra, mais sustentável para o ambiente e ecossistema em que se insere, então são rentáveis causando impacto positivo a sociedade.

Por andarem em bandos, ou manadas, as Zebras acabam também protegendo umas às outras e são mais eficientes no uso do capital investido.

Um exemplo de capital mal investido e gerido é essa guerra de cupons de desconto que os aplicativos distribuem diariamente em nossos celulares.

Quem ainda não recebe “push” desse tipo, me ensine como eu poderia não recebê-los também. Brincadeiras à parte, talvez as disrupções não precisem ser tão rápidas e agressivas assim.

As empresas Zebras fazem parte de um mundo com raízes "non-profit" (sem fins lucrativos) e "for-profit" (com fins lucrativos), por isso são empresas “listradas preto e branco”, estão entre esses dois mundos.

Não pense que as empresas zebras são a solução para todos os nossos problemas. Um caminho ainda inicial está sendo trilhado pelas “Venture Capitals de Impacto Social”.

Porém, ao analisar os padrões, podemos verificar um maior investimento dessas VCs (Venture Capitals) direcionado principalmente para microfinanças para regiões carentes, saúde para regiões carentes e tecnologias limpas.

E acabam ficando de lado algumas esferas que talvez teriam impacto positivo ainda maior, como alguns formatos de I.A., LawTechs, InsurTechs e HealthTechs. Essas empresas também ainda estão engatinhando na direção de serem mais rentáveis para chamar cada vez mais atenção dos investidores e também reduzirem sua taxa de mortalidade, ainda bastante alta.  

Se as Zebras são a evolução dos Unicórnios eu não sei. Mas sei que, apesar de ainda querer criar mais alguns unicórnios ao longo da minha carreira, já incluirei o nosso planeta e a sociedade como importante stakeholder (parte de interesse) do modelo de negócio das empresas das quais faço parte.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio