Opinião

Quem foram, quem são...


A sistemática opção pela força para calar os adversários, a marca nazista por excelência, na qual se podem perfeitamente arrolar as ameaças feitas pelo PT aos manifestantes anti-governo


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 08 de Março de 2016 às 19:41

  | Historiador


“Faz 2.000 anos, a malta de Jerusalém arrastou um homem para a execução, exatamente como hoje eu sou arrastado”.

 A frase nos soa incrivelmente familiar, mas não foi pronunciada no Brasil. Ela tem tempo, mas é estranhamente atual. Na verdade, foram as palavras do líder de um partido conhecido por promover provocações públicas violentas, perturbações da ordem e agressões físicas a opositores, o que acabou por leva-lo à prisão. Cada país com seu problema, a seu tempo.

Quando foi preso pela primeira vez, em 4 de junho de 1922, Hitler já verificara que valia a pena recorrer à força, empregando seus militantes para espancar oradores e dissolver manifestações de adversários, como fizeram no comício da Liga da Baviera, na Lowenbraükeller, em 14 de setembro de 1921, e depois no episódio conhecido como a “batalha  da Hofbräuhaus”, em 4 de novembro, ambos ocorridos em Munique.

Interrogado pela polícia, já pelo primeiro incidente, Herr Hitler respondeu friamente, resumindo sua estratégia: “está tudo certo, conseguimos o que queríamos, Ballerstedt (orador adversário) não abriu a boca”.

Cinco semanas na cadeia serviram para Hitler consolidar as suas convicções. Ao sair da prisão, já estava envolvido em coisa mais grave, um golpe de estado contra o governo da Baviera, o qual passaria à História como o Putsch de Munique (9 de novembro de 1923). Imperava o caos na Alemanha do pós-Primeira Guerra, com a economia arruinada, violência politica e desordem social, as condições propícias às aventuras.

O golpe foi um fracasso, mas o julgamento dos implicados serviu muito bem a Hitler e ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. 

Esse é um dos temas mais bem explorados pelos principais biógrafos de Hitler. Tanto John Tolland como Ian Kershaw descrevem muito bem a farsa em que se transformou o julgamento dos responsáveis pelo Putsch de Munique.

Graças a uma combinação de juízes simpáticos aos golpistas e fraqueza política do governo, Hitler dominou a cena, falando por mais de quatro horas, desqualificando testemunhas, insultando a polícia e se evadindo das perguntas essenciais à sua responsabilização.

Um jornalista que assistiu ao julgamento qualificou-o de “carnaval político de Munique”.  O final foi uma pizza de chucrute: o líder militar do golpe, General Ludendorff, foi inocentado, Hitler recebeu uma pena branda e o pior, nenhuma menção foi feita na sentença aos quatro policiais mortos pelos golpistas, ao roubo de 28.000 marcos ouro, à destruição da sede do jornal socialdemocrata, à tomada de reféns e ao projeto de constituição ditatorial encontrado com os mentores do golpe. 

Não há regime que sobreviva a tamanha omissão e covardia demonstrada perante adversário tão determinado. Dez anos depois, Hitler poria fim à República de Weimar.

No que os nazistas se transformaram, depois de conquistarem o poder total, foi um problema para o mundo, mas foi, antes de tudo, um problema para a Alemanha. Nos dias de hoje, de forma eloquente, mas didática, os alemães se empenham para que o holocausto moral que foi o nazismo não seja esquecido.

Essa história está exposta no Centro Memorial da Resistência Alemã ao Nazismo, inaugurado em 1989 no complexo de edifícios históricos conhecido como Bender Block, na periferia do quarteirão diplomático de Berlim.

Foi ali que Hitler discursou em 3 de fevereiro de 1933, defendendo o Lebensraum (espaço vital) para a Alemanha às custas dos europeus orientais, no mesmo lugar onde foi fuzilado o Coronel Claus Schenck Graf von Stauffenberg, na noite de 20 de julho de 1944, depois do fracasso do atentado ao Führer no seu Quartel-General de Rastemburg, na Prússia Oriental, episódio retratado no excelente filme “Operação Valquíria” (2008) estrelado por Tom Cruise.

São 22 salas, nas quais se distribuem 29 exposições temáticas, com mais de 5.000 fotos e documentos, que traçam o extenso e  diversificado rol de vítimas  dos nazistas: judeus, eslavos, prisioneiros de guerra, ciganos, católicos, protestantes, ativistas políticos e deficientes mentais e físicos, dentre outros.

Mas o centro de Bender Block é também a memória de um fracasso, o da sociedade alemã, atestado no acumpliciamento de muitas personalidades e grupos sociais que acabaram por se tornar vítimas também do nazismo.

Dessa coleção de imagens  trágicas, uma das mais emblemáticas da transformação dos nazistas de meros foras da lei em detentores do poder é a fotografia de uma corte de justiça alemã  na qual os juízes iniciam a sessão com o Heil Hitler! No estado sem lei em que se transformou a Alemanha, onde a justiça deixara de ser para todos, a lição de história deixada foi a da absoluta falta de limites demonstrada por aqueles que acreditam na violência como instrumento de tomada do poder, tão logo o poder é conquistado.

Para saber quem foram os nazistas, basta ler os livros de História. Para saber quem são hoje, há que se distinguir os que remanescem por convicção, meras seitas de fanáticos espalhados pelo mundo, e os que o são pelos métodos, no caso, a sistemática opção pela força para calar os adversários, a marca nazista por excelência, na qual se podem perfeitamente arrolar as ameaças feitas pelo PT aos manifestantes anti-governo que forem às ruas no próximo domingo para expressar pacificamente o sentimento da maioria da população.

Registre-se, a bem da verdade, o silêncio de algumas lideranças petistas que certamente não estão de acordo com o descalabro que isso representa.

Se não forem estes a prevalecer nas decisões do partido quanto à conduta que ele democraticamente deve observar neste País, nada impedirá que a sociedade brasileira julgue todos os petistas pelos atos que vierem a ser cometidos em seu nome e passe a nominá-los, todos, de nazistas!

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