Opinião

Profissão: protagonista


Para garantir seu lugar no futuro, as empresas precisam funcionar como polos de incentivo na formação de protagonistas profissionais


  Por Rosa Alegria 14 de Março de 2016 às 20:14

  | Futurista, pesquisadora de tendências e Mestre em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston, EUA


Se existe uma mudança que está transformando nossas vidas de forma profunda,  tem a ver com o futuro do trabalho.  Aumentam as contratações de profissionais independentes para substituir empregados formais que dão lugar a um crescente número de empreendedores. 

Empreendedores ou protagonistas? 

Há cinco anos atrás, eu havia redefinido o conceito de empreendedorismo para uma outra dimensão, o que chamei de protagonismo profissional, quando iniciei um estudo de tendências de RH para um  banco global, levando em conta o resgate da auto-estima e a vontade reinante de muitos querendo tomar as rédeas das próprias vidas. Entre as dez tendências que identifiquei em 2011,  apontei a Profissão Protagonista. 

Empreendedor ou protagonista profissional?

Senti ressonância com esse novo conceito   quando participei de um evento no mês passado  promovido em São Paulo pelo Cubo,  incubadora de negócios do Itau. Foi o  lançamento da Polifonia,  plataforma de educação voltada para o Protagonismo Criativo que segundo a definição dos seus fundadores, é o exercício da maestria pessoal, o que para mim se traduz como o fortalecimento da identidade profissional. Qual a diferença entre o  protagonismo criativo e o empreendedorismo? O protagonista resolve pilotar seu destino, enquanto o empreendedor,  faz parte de um novo negócio, mas nem sempre passa a lidera-lo. Apenas faz parte. O protagonista é um empreendedor apaixonado pela nova vida e pelo novo empreendimento.

Sair das empresas está na moda. Quantos ex-empregados  você conhece  que passaram a ser protagonistas em suas profissões?  Esse número cresce a cada dia. Muitas vezes especialistas reconhecidos mudam de rumo e se identificam com outras atividades, até se dispõem a aprender algo novo desde o começo. Abrem mão de um conhecimento adquirido, das regalias do emprego formal, do salário garantido, do décimo terceiro e dos benefícios.  Só não negociam a liberdade de controlar seu próprio tempo nem a identidade própria que passam a construir depois de verem seus nomes confundidos com a marca do empregador.  Fulano da marca X ou Y. Nem sobrenome aparece. Apenas a marca define o individuo. Esse e outros atentados à identidade próprias e um ser humano têm sido fatores determinantes na busca de um protagonismo profissional. É um fenômeno em ascensão. Proliferam na mídia reportagens que ilustram pessoas que largaram o emprego com alto salário para realizar um sonho ou orientando sobre como empreender e fazer uma transição suave entre o emprego e o novo negócio. 

Protagonismo ou empreendedorismo, salvas as sutis diferenças, o que temos que reconhecer é que estamos chegando ao da gestão centralizada e dos empregos formais.  

Há mais de duas décadas, Thomas W. Malone,  professor do MIT,  já falava em hierarquias flexíveis e descentralização do poder. Em 2006 suas ideias revolucionárias viraram o livro “O Futuro dos Empregos”. Por descentralização, ele quis dizer “a participação das pessoas na tomada de decisões que são importantes para elas”. Ou seja,
liberdade. Segundo Malone, estava chegando ao fim a era das corporações de rígida estrutura centralizada. O futuro estaria em modelos como o usado para a criação do software Linux, na época o grande ícone da economia colaborativa, produzido em conjunto por milhares de programadores voluntários em todo o mundo, ou da Wikipédia, ajustada livremente por quem tivesse acesso à internet. 

Desemprego em massa ou a reinvenção do trabalho?

O Projeto Millennium, a maior rede global de pesquisadores futuristas, está conduzindo um novo estudo  tematizado no futuro do trabalho em relação com o advento das novas tecnologias.  As descobertas exigem muita atenção em vista da velocidade dos avanços da inteligencia artificial, da robótica, e várias outras tecnologias que poderão dispensar a espécie humana na condução de tarefas e produção de bens.  De acordo com o Banco Mundial, um bilhão de pessoas entrará no mercado de trabalho ao longo dos próximos 10 anos, enquanto outros centros de pesquisa preveem que 2 bilhões de empregos serão eliminados em 2030.  É escolher ou largar: desemprego em massa ou a reinvenção do trabalho. 


A era do alforria empregatícia

Os investimentos em start ups não param de crescer e o Brasil, apesar da crise, se destaca, registrando aumento de 14% entre 2014 e 2015, segundo dados da ABStartups (Associação Brasileira de Startups).

O ultimo relatório GEM Global Entrepreneurship Monitor divulgado em 2015 coloca o Brasil no topo do ranking mundial de empreendedorismo. Três em cada dez brasileiros adultos entre 18 e 64 anos possuem uma empresa ou estão envolvidos com a criação de um negócio próprio. Em dez anos, a taxa total de empreendedorismo no Brasil aumentou de 23% para 34,5%.

Vida profissional e pessoal são uma coisa só


Para o profissional protagonista não há muros entre a vida
profissional e  a vida privada. Um pouco de como era o trabalho antes da revolução industrial, em que casa, escritório e comércio coexistiam, conforme exemplifica Thomas Fisher, decano do College of Design da Universidade de Minnesota .
A ideia de um mundo pós-industrial, pós-Guttenberg não é nova, mas a fluidez da economia global, a capacidade disruptiva da revolução digital e o empoderamento dos indivíduos a partir da computação móvel e da microeletrônica na manufatura, tornaram esse modo de vida uma realidade para um contingente expressivo da força de trabalho.

O fator auto-estima

Tudo começa com a  auto-estima e para que se obtenham bons resultados na vida, muitas vezes é necessário reestruturá-la, para que seja possível alçar voos maiores. Um dos combustíveis do profissional protagonista é a automotivação, a crença em si mesmo e, consequentemente, no seu sonho. Para se realizar no trabalho  é importante estar consciente do próprio processo evolutivo. O que significa conhecer a si mesmo, suas próprias limitações e qualidades, fazer autoavaliações, projetar visão de futuro, celebrar as vitórias do passado, aprender com os fracassos. 

O curso de Protagonismo Criativo da Polifonia  vai nessa direção. Tem a ver com  auto-aprimoramento e coloca o individuo acima dos negócios. Para mim faz todo o sentido. De que serve dar foco ao negócio  sem antes gerar valor, mudar o comportamento e trabalhar a autoestima? Nesse novo século repleto de start ups e inovações que vão e vêm, qualquer novo negócio que possa surgir sem essa abordagem humanizada passará a ser fútil e irrelevante. 

Para garantir seu lugar  no futuro, as empresas precisam funcionar como polos de incentivo na formação de protagonistas profissionais. Que se constituam não só por funcionários com individualidade própria e  auto-estima, como também por aqueles que resolveram sair do mundo corporativo para se dedicar ao controle de suas próprias vidas. Seja qual for a situação, um aliado com poder econômico está sendo aguardado nesse novo palco para receber pessoas que amam o que fazem e veem sentido no trabalho ao gerar valor para a sociedade.

 

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As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

 






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