Opinião

Privilégios que escravizam a nação


Somos os brasileiros escravos de um Estado gigante, opressor e corrupto


  Por Paulo Saab 13 de Agosto de 2020 às 14:23

  | Jornalista, Bacharel em Direito, professor universitário e escritor.


Fato 1: A entrevista do ex-Secretário de Desestatização, Salim Mattar, sobre a resistência do “establishment” e sua dominação nas instituições e no país.

Fato 2- A reportagem da revista eletrônica Oeste a respeito dos custos do aparato judiciário para o país.

Fato 3- A existência de cerca de 54 mil servidores públicos com foro privilegiado no Brasil, disparado o país com a maior taxa de privilégio do mundo.

 

1- Quem não leu a entrevista lúcida e objetiva de Salim Mattar deve fazê-lo. O empresário que foi por 19 meses Secretário de Desestatização (em Brasília mesmo a Secretaria é chamada de Desratização) mostra com clareza como o “sistema” que abrange o Judiciário, o Legislativo, o Executivo, os servidores públicos, os funcionários das estatais”, se torna uma barreira intransponível ao progresso.

- “O establishment” não quer a transformação do Estado. Não deseja a reforma administrativa. Não deseja a privatização. Se tiver privatização acaba o toma lá dá cá. Acaba o rio de corrupção. O “establishment” deseja segurança de que as coisas vão continuar do jeito que estão”, disse o ex-secretário. O “Leviatã” pátrio.

Estarrecedor.

2- Segundo levantamento da Revista Oeste, em 2019 a despesa do Poder Judiciário brasileiro foi de R$ 49,9 bilhões. Ou, como disse a revista, inacreditáveis R$ 1.500 a cada segundo. A reportagem desvenda a estrutura das cortes e seus respectivos custos para o pagador de impostos no Brasil e, no mínimo, choca quem se assusta com os números e benefícios aos seus integrantes. Notadamente se comparados ao resultado que se chama de justiça ineficiente no país. Ficando só neste adjetivo.

Vale a pena ler. Igualmente, estarrecedor.

3-Há menos de uma década completa, quando o país ainda vivia a era das trevas do lulopetismo corrupto e predador, aqui, nesta coluna do Diário do Comércio, realizei uma campanha de esclarecimento ao leitor sobre os males e os efeitos do chamado foro privilegiado, aquele que dá a mais de 54 mil servidores públicos direito de julgamento em cortes apartadas, superiores, quando na maioria dos países, essa excrescência é reduzida a um ou poucos personagens da vida pública. É um instrumento a favor do abuso, da tentação, da corrupção, do desmando e até da soberba que acomete muitos servidores públicos que se acham acima do comuns mortais. Preciso exemplificar?

Na época cheguei a coletar milhares de apoios dos leitores que foram encaminhados ao Legislativo propondo o fim desse privilégio odioso. Quem recebe deve estar rindo até hoje.

Mais um fato estarrecedor.

A somatória desses três itens, e vamos hoje ficar só neles, é um dos mais fortes vetores de indicação do porquê o Brasil é um país ancorado no atraso, na corrupção, e na dominação da sociedade pelo Estado. Nas verdadeiras democracias, o Estado é controlado pela sociedade. O servidor público, seja qual for o seu nível, hierarquia e privilégios, é um empregado do cidadão, do pagador de impostos, dos que efetivamente produzem a riqueza do país.

No Brasil, por vícios da história e por interesses escusos de dominação e controle da própria população, governos ditos sociais, transformaram o Leviatã pátrio no algoz dos brasileiros inferiores, os que não pertencem à casta do “establishment”.

Somos os brasileiros escravos de um Estado gigante, opressor e corrupto.

Luto contra isso há décadas. E hoje acredito que somente haverá alguma mudança se a população, a massa, os pagadores de impostos, apartados do centro de decisão, retomar Brasília para si (ou tomar, já que o despautério do DF nunca foi do povo) e por sua manifestação de vontade expressa, realizar as mudanças.

Nosso sistema de representatividade viciou-se e aderiu a um mecanismo que cuida apenas de si próprio, relegando ao país o ônus de sustentar os privilégios dos que tomaram como propriedade privada, para si, os mecanismos públicos.

Ainda bem que hoje é 13 de agosto, mas não é sexta-feira.

 

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

 





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