Opinião

Primeiro de Maio mudou com o descrédito da luta de classes


A política de confronto passou a ser atenuada na Europa com a social democracia. O trabalhador reivindica o conforto dos bens e serviços, e não quer mais tomar a empresa do patrão


  Por João Batista Natali 30 de Abril de 2017 às 13:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Havia um nítido conflito entre capital e trabalho. Foi no século 19, quando o Primeiro de Maio entrou no calendário político e sindical das comemorações.

Mas a data esfriou com o passar das muitas décadas, e para os trabalhadores a própria política deixou de ser vivida como uma atividade derivada da luta de classes.

E chegamos nesta segunda-feira (01/05), numa das comemorações, a uma espécie de confraternização entre assalariados.
A Força Sindical, por exemplo, que não traz em seu histórico um passado marxista, promove show em São Paulo, na praça Campo de Bagatelle, que atrairá participantes por meio do sorteio de 19 automóveis HB20 da Hyundai.

É bem verdade que, dois dias antes, grupos mais engajados fizeram de tudo para paralisar o país numa greve, que não foi geral e na qual muitos assalariados não puderam chegar ao trabalho, mas em razão da falta de transporte público.

Mesmo entre os dirigentes da CUT e dos partidos de oposição, no entanto, o fator de aglutinação estava mais voltado contra as reformas Trabalhista e da Previdência do governo Temer, que se misturou ao ressentimento pela queda de Dilma Rousseff, e pelo fim do ciclo de 13 anos do Partido dos Trabalhadores.

Mas não é bem isso que nos diz o histórico do movimento operário. Ele se estruturou há pouco mais de 160 anos. Na época, a revolução industrial aconteceu para produzir mercadorias para quem já tivesse um pouco ou muito dinheiro.

A remuneração do trabalho era pequena, e o socialismo revolucionário virou uma bandeira para o conflito, então agudo, entre patrões e empregados.

Mas enquanto os comunistas se organizavam na Terceira Internacional, algo inédito começou a aparecer.
Na segunda metade do século 20, setores mais arejados do empresariado descobriram que dividir as riquezas não era apenas uma questão de filantropia. Era também um fator de ampliação do mercado.

A social democracia deixou, bem devagarinho, de ser revolucionária (só em 1959 o partido alemão dessa tendência abandonou qualquer referência a Karl Marx) e também percebeu que o bem-estar econômico era mais importante que o controle dos meios de produção.

Em lugar de dirigentes mais radicalizados, como Wilhelm Liebknecht e August Bebel, tivemos na geração seguinte o francês Leon Blum, o sueco Tage Erlander, o austríaco Bruno Kreisky e o alemão Willy Brandt.

Deve-se à social democracia conquistas como o fim da semana de 48 horas de trabalho (inclusive oito horas aos sábados) e as férias anuais.

Lideranças como Kreisky e Brandt cresceram como governantes e por não terem vínculos de obediência à União Soviética, antes e depois de Joseph Stalin.

Com a queda do Muro de Berlim (1989) e da própria URSS (1991), a esquerda ainda partidária da luta de classes entrou em colapso e ela hoje ainda existe apenas dentro de pequenos grupos saudosistas.

Ao longo desse percurso, também mudou a maneira pela qual os assalariados se definiam a si mesmos dentro do modelo de sociedade no qual atuavam.

Não eram mais o “proletariado” ou a “classe operária”, mas sim trabalhadores que aspiravam o conforto material e o consumo de bens e serviços que só os ricos possuíam nas gerações anteriores a eles.

Ao mesmo tempo, deixou de existir o empresário que procurava remunerar a mão-de-obra pelo menor valor possível, de olho apenas nos lucros. Esse patrão se marginalizou e depois sumiu porque, no novo modelo econômico, ele não transformava seus empregados em consumidores, com um poder de compra consistente.

Foi um processo demorado. O sindicalismo reformista cresceu na proporção em que suas entidades levavam a conquistas materiais de suas categorias, e não por meio do sonho alimentado pela propaganda de uma suposta sociedade sem classes.

Nesse brevíssimo histórico, está toda a metamorfose pela qual passou o Primeiro de Maio nas sociedades que se industrializaram e se urbanizaram de um século para cá.

O Primeiro de Maio tem hoje pouquíssimo a ver com o confronto entre policiais e operários, nesta mesma data em Chicago, em 1886, que acabou com nove mortos de todos os lados. Ou então com a greve nas estradas de ferro americanas, em 1894, duramente reprimida por tropas federais.

Mas foram os franceses, em 1889, que transformaram o Primeiro de Maio em feriado.

Para se dissociar da conotação de esquerda que a data trazia, o fascismo italiano deslocou o Dia do Trabalho para 21 de abril.

E a Igreja, com Pio 12, procurou sem muito sucesso, em 1955, comemorar no Primeiro de Maio o dia de são José – um marceneiro – talvez para se contrapor à motivação política do Partido Comunista Italiano, que era na época fortíssimo.

No Brasil, o Primeiro de Maio chegou com os militantes anarquistas espanhóis e italianos. Em 1925, o presidente Artur Bernardes criou na data o dia do trabalhador, que entraria com mais força na agenda institucional com Getúlio Vargas (1930-1945).

FOTO: Antônio Lúcio/Estadão Conteúdo