Opinião

Primeiro de Maio mudou com o descrédito da luta de classes


A política de confronto passou a ser atenuada na Europa com a social democracia. O trabalhador reivindica o conforto dos bens e serviços, e não quer mais tomar a empresa do patrão


  Por João Batista Natali 01 de Maio de 2019 às 08:00

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


Havia um nítido conflito entre capital e trabalho. Foi no século 19, quando o Primeiro de Maio entrou no calendário político e sindical das comemorações.

Mas a data esfriou com o passar das muitas décadas, e para os trabalhadores a própria política deixou de ser vivida como uma atividade derivada da luta de classes.

Mas não é bem isso que nos diz o histórico do movimento operário. Ele se estruturou há pouco mais de 160 anos. Na época, a revolução industrial aconteceu para produzir mercadorias para quem já tivesse um pouco ou muito dinheiro.

A remuneração do trabalho era pequena, e o socialismo revolucionário virou uma bandeira para o conflito, então agudo, entre patrões e empregados.

Mas enquanto os comunistas se organizavam na Terceira Internacional, algo inédito começou a aparecer.

Na segunda metade do século 20, setores mais arejados do empresariado descobriram que dividir as riquezas não era apenas uma questão de filantropia. Era também um fator de ampliação do mercado.

A social democracia deixou, bem devagarinho, de ser revolucionária (só em 1959 o partido alemão dessa tendência abandonou qualquer referência a Karl Marx) e também percebeu que o bem-estar econômico era mais importante que o controle dos meios de produção.

Em lugar de dirigentes mais radicalizados, como Wilhelm Liebknecht e August Bebel, tivemos na geração seguinte o francês Leon Blum, o sueco Tage Erlander, o austríaco Bruno Kreisky e o alemão Willy Brandt.

Deve-se à social democracia conquistas como o fim da semana de 48 horas de trabalho (inclusive oito horas aos sábados) e as férias anuais.

Lideranças como Kreisky e Brandt cresceram como governantes e por não terem vínculos de obediência à União Soviética, antes e depois de Joseph Stalin.

Com a queda do Muro de Berlim (1989) e da própria URSS (1991), a esquerda ainda partidária da luta de classes entrou em colapso e ela hoje ainda existe apenas dentro de pequenos grupos saudosistas.

Ao longo desse percurso, também mudou a maneira pela qual os assalariados se definiam a si mesmos dentro do modelo de sociedade no qual atuavam.

Não eram mais o “proletariado” ou a “classe operária”, mas sim trabalhadores que aspiravam o conforto material e o consumo de bens e serviços que só os ricos possuíam nas gerações anteriores a eles.

Ao mesmo tempo, deixou de existir o empresário que procurava remunerar a mão-de-obra pelo menor valor possível, de olho apenas nos lucros. Esse patrão se marginalizou e depois sumiu porque, no novo modelo econômico, ele não transformava seus empregados em consumidores, com um poder de compra consistente.

Foi um processo demorado. O sindicalismo reformista cresceu na proporção em que suas entidades levavam a conquistas materiais de suas categorias, e não por meio do sonho alimentado pela propaganda de uma suposta sociedade sem classes.

Nesse brevíssimo histórico, está toda a metamorfose pela qual passou o Primeiro de Maio nas sociedades que se industrializaram e se urbanizaram de um século para cá.

O Primeiro de Maio tem hoje pouquíssimo a ver com o confronto entre policiais e operários, nesta mesma data em Chicago, em 1886, que acabou com nove mortos de todos os lados. Ou então com a greve nas estradas de ferro americanas, em 1894, duramente reprimida por tropas federais.

Mas foram os franceses, em 1889, que transformaram o Primeiro de Maio em feriado.

Para se dissociar da conotação de esquerda que a data trazia, o fascismo italiano deslocou o Dia do Trabalho para 21 de abril.

E a Igreja, com Pio 12, procurou sem muito sucesso, em 1955, comemorar no Primeiro de Maio o dia de são José – um marceneiro – talvez para se contrapor à motivação política do Partido Comunista Italiano, que era na época fortíssimo.

No Brasil, o Primeiro de Maio chegou com os militantes anarquistas espanhóis e italianos. Em 1925, o presidente Artur Bernardes criou na data o dia do trabalhador, que entraria com mais força na agenda institucional com Getúlio Vargas (1930-1945).

FOTO: Antônio Lúcio/Estadão Conteúdo