Opinião

Preparar-se para enfrentar a crise


Não é tarefa fácil administrar em tempos de crise, mas, muitas vezes, elas nos fazem sair da rotina e do imobilismo e enfrentar com coragem e criatividade os desafios


  Por Marcel Solimeo 23 de Julho de 2015 às 11:46

  | Economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo


O Brasil atravessa um período de queda expressiva do nível da atividade em todos os setores, com exceção do agronegócio que, por depender do setor externo, mas ser competitivo graças aos investimentos em pesquisa e inovação, vem se mantendo relativamente bem, apesar da redução dos preços internacionais.

A Indústria, Comércio e Serviços apresentam queda de faturamento real (descontada a inflação), que vem se acentuando a mês. O INC-Índice nacional de Confiança IPSOS/ACSP mostra que o consumidor está inseguro com a situação, especialmente em relação ao emprego e não se mostra disposto a aumentar seus gastos.

Assim, as perspectivas de curto prazo não indicam mudança desse cenário de recessão, podendo-se esperar apenas no médio prazo (talvez no segundo trimestre de 2.016) a estabilização da economia e, posteriormente, uma lenta retomada do crescimento.

O impacto da recessão, embora atinja a maior parte das atividades econômicas, não é uniforme para todos os setores, bem como não atinge por igual todas as empresas.

Algumas atividades são mais afetadas, como, por exemplo, as vendas de bens de maior valor, como veículos, móveis e eletrodomésticos, devido ao encarecimento do crédito, redução de prazos e maior rigor na concessão, enquanto produtos mais dependentes da renda, por sua vez, está  sendo afetados pelo aumento de seus preços e pelo “ tarifaço” que reduziu o poder de compra do consumidor.

Essa mudança para pior do cenário da economia não pode ser ignorada pelo empresário, qualquer que seja seu ramo de atividade, embora alguns possam não ser diretamente afetados pela crise e, até, serem por ela beneficiados, mas a grande maioria seguramente sofrerá, em maior ou menor grau, os efeitos negativos sobre seu negócio

Não existem receitas prontas para orientar os empresários, sobre como se prepararem para enfrentar um período de dificuldades, mas o primeiro passo deve ser o de procurar se informar não apenas sobre a situação geral da economia, mas, também, sobre o impacto na região, que pode ser maior, em virtude da predominância de algumas atividades importantes em sua economia, como, por exemplo, a indústria automobilística, que vem registrando maiores quedas expressivas de vendas e reduzindo seu quadro de pessoal ou a remuneração dos trabalhadores.

As diferenças setoriais também são importantes, pois algumas variáveis, como o valor do dólar, por exemplo, atuam de forma diversa para exportadores e para importadores, assim como para o turismo interno e externo.

Para informar-se de tudo isso, o dirigente da empresa deverá acompanhar o noticiário econômico, frequentar as entidades de classe, conversar com fornecedores, e até com concorrentes, trocar informações com outros empresários da vizinhança e, se necessário, procurar o SEBRAE.

Conhecendo todas essas informações ele poderá então procurar avaliar como sua empresa será afetada e buscar soluções para garantir pelo menos a sobrevivência de seu negócio e, se possível, preparar-se para quando a economia retomar seu crescimento.

Algumas medidas podem ajudar nesse  ajuste, mas, o primeiro ponto, é tomar consciência de que o cenário da economia mudou, e isso exige mudança de postura por parte do empresário, que vai ter que recorrer à criatividade para superar as dificuldades que serão inevitáveis, mas que não significam o fim de seu mercado, mas apenas uma redução temporária.

Se em relação ao mercado o empresário nada pode fazer no curto prazo a não ser procurar se adaptar, buscando parcerias e fazendo promoções, o que, certamente, afetará a margem de lucro, muito pode ser feito internamente no sentido de redução de custos, de aprimoramento de seu pessoal e na gestão de caixa e dos estoques.

Parece fundamental mobilizar seu colaboradores para que participem dos esforços nesse sentido, mostrando que somente com a sobrevivência da empresa será possível manter os empregos.

Motivados e mobilizados, certamente colaborarão para a redução dos custos, racionalizando o uso de tudo que a empresa se utiliza, desde de energia até clips, e apresentando sugestões para superar a crise.

Preservar o caixa e evitar o endividamento, sempre que possível, mas em caso de necessidade, buscar as formas menos onerosas de se financiar, buscando primeiro verificar se não existem no estoque produtos “ encalhados” que podem ser convertidos em dinheiro, mesmo sem lucro.

Não é tarefa fácil administrar em tempos de crise, mas, muitas vezes, elas nos fazem sair da rotina e do imobilismo e enfrentar com coragem e criatividade os desafios, despertando forças que se achavam adormecidas. Essa é a vocação do empresário.