Opinião

Preço do petróleo despenca. E agora?


Quedas drásticas colocam em movimento um processo de desalavancagem entre os produtores que pode se tornar um empecilho para a economia mundial


  Por Paul Krugman 22 de Janeiro de 2016 às 09:36

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Preço do petróleo despenca e tem consequências negativas no mundo todo

Quando os preços do petróleo começaram a cair drasticamente, havia a crença de que os efeitos econômicos disso seriam positivos.

Alguns de nós vimos com ceticismo essa ideia. Contudo, é possível que nosso ceticismo não tenha sido suficiente: do ponto de vista global, pode-se dizer perfeitamente que a queda dos preços do petróleo tem produzido efeitos nitidamente negativos. Por quê?

Bem, pense na razão pela qual costumávamos acreditar que as quedas nos preços do petróleo tinham efeitos expansionistas.

Elas diminuíam a inflação, permitindo que os bancos centrais flexibilizassem sua política monetária ? isso, porém, não é uma questão importante numa época em que a inflação já está abaixo da meta por quase toda parte.

Além disso, porém, de acordo com o ponto de vista tradicional, a queda nos preços tendia a redistribuir a renda retirando-a de agentes com baixas propensões marginais de gasto e transferindo-a para agentes com propensão de gastos elevada.

Por exemplo, os países ricos em petróleo do Oriente Médio e os bilionários texanos ? essa é a história que se conta por aí ?, estavam sentados em pilhas enormes de dinheiro, por isso era improvável que tivessem de enfrentar restrições de liquidez, já que poderiam desobstruir as flutuações na sua renda (e foi o que fizeram).

Ao mesmo tempo, as vantagens dos preços mais baixos se espalhariam por toda parte, alcançando inclusive muitos consumidores que viviam de contracheque em contracheque e que, provavelmente, gastariam aquele dinheiro extra.

Agora, parte da razão pela qual essa lógica não funciona do jeito que funcionava antes é que com a ascensão do fraturamento hidráulico, ou fracking, há muito gasto com investimento intimamente associado aos preços do petróleo ? gastos com investimentos com um tempo de execução relativamente curto e que, portanto, cairão rapidamente.

Acredito, porém, que há outra coisa acontecendo: uma importante não linearidade nos efeitos de flutuação do petróleo.

Uma queda de 10% ou de 20% no preço pode funcionar do jeito tradicional, mas uma queda de 70% tem realmente efeitos drásticos sobre os produtores ?eles se tornam mais sujeitos, e não menos, a restrições de liquidez se comparados aos consumidores.

A Arábia Saudita, por exemplo, foi forçada a instituir políticas de austeridade severas, enquanto empresas altamente endividadas têm dificuldades com seu balanço patrimonial.

Ou, em outras palavras: as pequenas quedas de preços podem ser expansionistas nos canais de sempre, mas as quedas realmente drásticas colocam em movimento um processo de desalavancagem entre os produtores que pode se tornar um empecilho para a economia mundial, sobretudo quando o mundo avançado em peso ainda enfrenta uma armadilha de liquidez, ou está próximo disso.

Ah, feliz Ano Novo atrasado.

TRADUÇÃO: A.G. Mendes

CLIQUE NO BOTÃO ABAIXO PARA LER A PÁGINA DE PAUL KRUGMAN NO THE NEW YORK TIMES [EM INGLÊS]

Paul Krugman 22/01