Opinião

Posição Facesp/ACSP - Perspectivas para 2016


Vivemos um período de grande incerteza, o que para os empresários é um cenário paralisante, que impede decisões de investimentos e afeta drasticamente o dia a dia das empresas


  Por Alencar Burti 23 de Outubro de 2015 às 07:00

  | Presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp)


Falar em perspectivas no Brasil atualmente é uma tarefa quase impossível porque o país atravessa uma conjugação sem precedentes de crises: política, econômica, fiscal, ética e de conflito de poderes.

Cada uma dessas crises já seria suficiente para gerar grande incerteza não apenas para os empresários, como para toda a população, pois seus desdobramentos são de difícil previsão quando vistos de forma isolada – e de quase total imprevisibilidade quando analisados em conjunto porque a evolução de qualquer uma dessas crises pode contagiar as demais.

Assim, vou procurar abordar apenas um cenário econômico possível, entre muitos que se poderia desenhar, baseado nos dados disponíveis sobre os principais indicadores econômicos, considerando que os desdobramentos das diversas crises não tenham impacto determinante no desempenho da economia.

Começando pelo indicador principal, o PIB: as estatísticas do IBGE mostram uma queda de 2,1% no primeiro semestre, mas os dados mais recentes da economia mostram o agravamento da desaceleração no período mais recente, sinalizando que a retração do PIB brasileiro em 2015 será da ordem de 3%, com apenas o agronegócio registrando crescimento. 

O varejo restrito, que não inclui veículos e material de construção, acumula até agosto redução de 3% nas vendas deflacionadas, mas deve fechar o ano com uma queda ainda maior. 

No varejo ampliado, que inclui os dois setores, a perda em comparação ao ano passado já atingiu 6,9%. E, como a queda das vendas de material de construção e de veículos vem se acentuando, o resultado negativo do ano deverá se acentuar.

Examinando-se os fatores que têm acarretado o desempenho negativo do varejo, constata-se que o crédito para pessoas físicas, excluindo-se o imobiliário e o consignado, tem se expandido a taxas inferiores à inflação, o que significa redução em termos reais, além de ser mais seletivo, com juros maiores e prazos menores. 

A massa salarial - que resulta do emprego e dos aumentos salariais - apresentou em agosto último uma diminuição de 5,4% sobre igual período do ano passado, em consequência do crescimento do desemprego e de menores reajustes dos salários.

Além disso, como a inflação continua a se acelerar, seja pelas correções de tarifas ou disparada do dólar, o processo de corrosão do poder de compra do consumidor continua.

Como resultado deste quadro, a confiança do consumidor, de acordo com o Índice Nacional de Confiança calculado pelo Instituto IPSOS para a ACSP, vem registrando quedas consecutivas nos últimos meses – e está em seu patamar mais baixo desde o início da série, em 2005, abaixo inclusive ao observado na crise de 2009.

A pesquisa, realizada em 70 cidades com 1.200 pessoas, revela que em todas as regiões do Brasil os entrevistados estão mais inseguros no emprego (quando já não estão desempregados) e com menor intenção de compra de bens de maior valor (móveis, eletrônicos, veículos e imóveis), o que sinaliza a continuidade da desaceleração das vendas nos próximos meses, quando se compara com igual período do ano anterior.

Os dados relativos ao comércio neste ano mostram um cenário de retração das vendas de bens de menor valor - inclusive alimentos - devido à queda do emprego e da renda.

O crédito mais limitado, menos acessível e mais caro provoca a redução ainda maior no tocante aos itens de valor mais alto, dependentes do crediário, o que é agravado pela insegurança do consumidor.

Se analisarmos a evolução da indústria, constataremos que a situação é ainda mais negativa, pois esse setor já vem amargando desempenho negativo de suas atividades há mais de dois anos, primeiro em virtude das importações e, agora, da queda dos investimentos e da diminuição da demanda interna.

Os dados recentes do IBGE mostram que os serviços têm apresentado faturamento inferior à taxa de inflação, o que significa dizer que também estão registrando diminuição em termos reais. E que o setor - que era o grande empregador nos últimos anos - agora está desempregando. 

O agronegócio continua registrando crescimento em termos de produção e produtividade, mas os preços externos vêm apresentando redução, que, em parte, está sendo compensada para o produtor com a valorização do dólar.

Partindo-se do quadro atual, qual o cenário que podemos projetar para 2016? 

Abstraindo-se de qualquer choque de credibilidade do governo, seja no plano político ou na área fiscal, que possa despertar as esperanças da população e a confiança dos empresários, pode-se esperar para o primeiro semestre do próximo ano “mais do mesmo”, talvez com quedas menores das atividades econômicas pelo efeito da menor base de comparação.

A segunda metade do ano poderá ser de estabilização se houver avanços no ajuste fiscal, ficando a retomada gradual da economia para 2017 ou, caso nada avance no tocante ao orçamento público, a recuperação das atividades será adiada por mais tempo.

De qualquer forma o resultado esperado pelo mercado em termos de crescimento do PIB para o ano que vem é ainda negativo, com queda em torno de 1%. 

Para concluir, pode-se afirmar que vivemos um período de grande incerteza, o que para os empresários é um cenário paralisante, que impede decisões de investimentos e afeta drasticamente o dia a dia das empresas.

O Brasil tem condições de superar mais essa crise, apesar de suas múltiplas vertentes, como superou outras talvez até mais graves no passado. Mas o preço que vem sendo pago pela sociedade é muito alto.

Para o empresário é mais um desafio. E, como ele não pode alterar o ambiente externo, o que pode fazer é procurar realizar ajustes internos que melhorem a eficiência de sua gestão e aprimorem seu negócio, além de motivar seus colaboradores e se preparar para a retomada em condições mais favoráveis. É preciso ser pessimista na análise, mas otimista nas ações.