Opinião

Posição Facesp/ACSP: Falta diálogo


O que se espera da administração municipal é que, antes de implementar mudanças na vida da cidade e da população, sejam apresentados estudos técnicos


  Por Alencar Burti 23 de Julho de 2015 às 19:38

  | Presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp)


São Paulo é uma cidade grande e complexa. São muitos os problemas para a população no que se refere a segurança, mobilidade urbana, ruas esburacadas, calçadas quebradas, poluição, manifestações de ruas que paralisam o trânsito, invasões de prédios, deterioração acentuada da área central (que virou albergue a céu aberto), iluminação precária.

Mas a administração municipal se ocupa fazendo alterações drásticas na cidade, com medidas que afetam as atividades econômicas e a vida da população, como implantação de faixas de ônibus e ciclovias e redução da velocidade nas marginais.

Tudo isso sem debate prévio ou divulgação dos estudos que embasam as iniciativas. Tais estudos - se existirem - deveriam ser divulgados antes da adoção das medidas, para serem debatidos, contestados, aprimorados.

Informações divulgadas pela Prefeitura sobre o assunto não esclarecem aspectos relevantes, que deveriam ser considerados antes de se introduzir mudanças profundas na cidade.

É preciso considerar a questão do trânsito numa área e nas regiões afetadas, bem como o impacto das medidas sobre a poluição, a segurança e as atividades econômicas, considerando que as empresas não significam apenas os empresários, mas também comunidades que envolvem trabalhadores, fornecedores, consumidores, prestadores de serviços e, até, o setor público, pois respondem por significativa parcela dos recursos tributários que sustentam os governos.

O ritmo com que foram implantadas as faixas de ônibus, e que estão sendo implantadas as ciclovias, parece indicar que estudos para embasar as medidas, se existirem, são superficiais e não consideram os aspectos necessários, sem discussão técnica, com um voluntarismo que parece indicar mais uma preocupação quantitativa em atingir metas de quilômetros realizados, do que avaliar resultados efetivos.

O cidadão que circula pela cidade pode observar faixas de ônibus que ficam a maior parte do tempo ociosas. Ou ciclovias com múltiplos usos, mas rara utilização por ciclistas.

Na Rua Boa Vista a ciclovia tem servido para pedestres se desviarem de obstáculos da calçada e para os carrinhos que entregam mercadorias nas empresas. Com a pressa da instalação, sem debate ou aviso prévio, não houve preocupação com buracos na via: o mais importante é pintar a rua.

Outra medida polêmica, que pode ter sérias repercussões, foi adotada sem debates: a redução dos limites de velocidade nas marginais, que, segundo se anuncia, será estendida para outras vias, com o argumento de diminuir o número e a letalidade dos acidentes.

Não se mostra, contudo, uma análise das razões para as mudanças, dos horários e locais de maior incidência e outras informações relevantes. Por natureza, as marginais permitem maior velocidade, desde que as pistas estejam em boas condições, bem sinalizadas, fiscalizadas.E desde que os pedestres respeitem os lugares para atravessá-las.

Atribuir apenas aos limites de velocidade o aumento do número de acidentes, sem considerar esses fatores e o aumento da frota de veículos, não justifica mudança tão drástica sem estudos e debates. Apresentar exemplos de outras cidades com diferentes características também não acresce racionalidade à medida.

O que se espera da administração municipal é que, antes de implementar mudanças na vida da cidade e da população, sejam apresentados estudos técnicos. E que sejam feitos debates antes, a fim de que as medidas sejam eficazes para alcance do objetivo maior do administrador: a melhora do bem-estar da população.