Opinião

Posição Facesp/ACSP - Desafios e esperanças


A credibilidade de Michel Temer e de seus colaboradores permitirá restaurar a confiança dos empresários, destravando os investimentos, e dos consumidores, na medida em que vislumbrem a melhora da economia


  Por Alencar Burti 12 de Maio de 2016 às 15:05

  | Presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp)


O processo de impeachment avança. E o presidente interino Michel Temer -que poderá se tornar definitivo, depois de terminadas todas as fases- assume um País com graves problemas não apenas no tocante à economia, mas praticamente em todas as áreas da administração pública federal. 

A desorganização da economia, fruto do intervencionismo que caracterizou o governo nos últimos anos, resultou em completo descontrole fiscal, com enorme rombo nas contas públicas, crescimento constante dos gastos correntes, aumento significativo da dívida interna, do que resultou forte queda da atividade econômica, inflação e o dramático quadro de desemprego, atingindo mais de dez milhões de trabalhadores, que não vislumbram perspectivas de recolocação.

As empresas estatais, regra geral, enfrentam grandes dificuldades financeiras e alto endividamento, resultante de controles de preços e tarifas, mudanças em contratos, má gestão e, em algumas, comprovados casos de corrupção. 

Os investimentos têm sido insuficientes sequer para a manutenção da infraestrutura e os serviços públicos deterioram em qualidade e quantidade. É o caso da saúde pública, incapaz de atender às necessidades mínimas da população em um período de aumento da demanda devido ao desemprego e à queda da renda. 

Sabemos que esses desafios somente poderão ser vencidos se o novo presidente contar com apoio da classe política e, principalmente, da sociedade, cuja atuação nos últimos meses mostrou o desejo, da população, de participar. Sabemos também que sacrifícios serão necessários para superarmos a crise.

A população foi, em grande parte, responsável pelo andamento do processo de impeachment e deixou claro seu posicionamento em favor da ética nos negócios públicos, da meritocracia na indicação de colaboradores do governo, de transparência nos atos governamentais e do combate rigoroso da corrupção, com punição exemplar dos culpados por desvios. 

Ao Congresso caberá a tarefa de aprovar um amplo elenco de medidas indispensáveis para o equacionamento das finanças públicas e para maior eficiência da gestão governamental.  Suas decisões precisam ser pautadas pelos interesses da população e não por conveniências pessoais ou partidárias. A oposição deverá desempenhar seu papel fiscalizador sem, contudo, procurar impedir o governo de governar.

A radicalização observada nos últimos meses precisa ceder lugar para o diálogo construtivo e o respeito mútuo.

Os governos federal e estaduais devem preparar-se, contudo, para enfrentar ações de grupos que procuram impor suas opiniões e interesses por invasões de propriedades, bloqueios de rodovias, tumultuando a vida da população das cidades com paralisações do trânsito nos locais e horários de maior movimentação. 

É preciso preservar o direito de manifestações, mas elas precisam ficar dentro dos limites do respeito aos direitos de propriedade e de locomoção das pessoas.

Apesar desse quadro de dificuldades, existem esperanças. O presidente Temer já sinalizou com o caminho da austeridade - ao propor a redução do número de ministérios - e com a racionalidade da política econômica, escolhendo pessoas com experiência e competência comprovadas para comporem a equipe responsável pela gestão da economia.

O presidente interino precisa começar trabalhando pela redução da burocracia tributária e trabalhista. 

A credibilidade de Michel Temer e de seus colaboradores permitirá restaurar a confiança dos empresários, destravando os investimentos, e dos consumidores, na medida em que vislumbrem a melhora da economia. 

Os problemas não serão resolvidos num passe de mágica, mas à medida em que forem sendo equacionados permitirão que os agentes econômicos se antecipem à melhora efetiva da economia, contribuindo para que a reativação possa ser observada mais rapidamente.

Caberá aos empresários fazer a economia voltar a funcionar, rompendo a inércia produzida pelas medidas equivocadas do passado e pela incerteza paralisante dos últimos meses.

Em diversas oportunidades, o Brasil mostrou grande capacidade de reação. E estamos certos de que, mais uma vez, o País superará a crise antes do que muitos imaginam.