Opinião

Por que os economistas chegaram tarde à desigualdade de renda


Não sabemos de fato com que modelo trabalhar no caso da distribuição de renda ? no máximo, temos algumas histórias semiplausíveis para esse fim


  Por Paul Krugman 15 de Janeiro de 2016 às 14:31

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Estou alguns dias atrasado em relação à coluna geralmente lúcida de Justin Fox na Bloomberg em que ele discute por que os economistas demoraram tanto para falar de desigualdade de renda.

Contudo, como sou um dos que escreveram, sim, a respeito do assunto há alguns anos ? especialmente sobre a ascensão do 1% ? creio que Fox passou batido por um aspecto importante: esse é o tipo de problema para o qual não há um modelo fácil.

Vamos recuar um pouco no tempo. Há, de modo geral, dois tipos de análise de distribuição de renda possíveis. Um deles diz respeito à distribuição do fator de renda ? capital x mão de obra e mão de obra com instrução superior x mão de obra com pouco estudo.

Os economistas nunca perdem de vista esses pares, já que é uma preocupação clássica deles ? é, na verdade, um tema muito importante na obra de David Ricardo, e pode ser trabalhado sob a forma de modelos pela velha teoria da produtividade marginal.

No meu campo original de estudos, o comércio, os debates em torno dos seus efeitos sobre a educação premium [dada pela relação entre a média dos salários dos trabalhadores com nível elevado de instrução e a média dos salários dos que têm nível de instrução inferior] foi objeto de muita reflexão durante os anos 90.

A outra análise diz respeito à distribuição pessoal de renda e riqueza. Por que os banqueiros que trabalham com investimentos ganham tão bem? Por que o abismo entre um CEO e um trabalhador médio cresceu de forma tão drástica depois de 1980?

 PETT; Kentc­uky/C­artoo­nArts Inter­natio­nal/T­he New York Times Syndicate

 

Porque não sabemos de fato com que modelo trabalhar no caso da distribuição de renda ? no máximo, temos algumas histórias semiplausíveis para esse fim.

Parte da razão pela qual o economista Thomas Picketty chamou tanto a atenção há alguns anos se deve ao fato de que ele ofereceu um esquema de modelo de desigualdade de riqueza que o vinculava a números macroeconômicos mais abrangentes, o que deu a todos nós algo sistemático sobre o que falar.

Picketty, porém, admite que o grande aumento da desigualdade até o momento tem origem no incremento de ganhos na cauda direita, o que pode ter alguma coisa a ver com normas. Contudo, seja como for, não há uma boa explicação em nenhum modelo de que dispomos por enquanto.

Vale a pena notar que não estamos falando apenas de um problema que diz respeito a economistas neoclássicos anglo-saxônicos. Ninguém sabe lidar muito bem com distribuição pessoal. Marx, por exemplo, privilegia a distribuição do fator ? sua obra se chama "O capital", e não "O 1%" ? e não há nada ali que nos ajude a entender os últimos 30 anos.

Mas, talvez você diga, as questões importantes não deveriam ser estudadas, mesmo que não haja modelos objetivos? Bem, sim, porém a capacidade de dizer alguma coisa interessante afeta, sem dúvida alguma, os tópicos da pesquisa, o que só se justifica até certo ponto.

Lembra-se do ensaio de 1950 de Raymond Chandler, "A simples arte do crime"? Ele dizia: "Se tudo permanecer como está, o que nunca acontece, um tema mais contundente resultará em um desempenho mais contundente. No entanto, há livros muito insípidos sobre Deus, e outros muito bons sobre como ganhar a vida e permanecer razoavelmente honesto."

É verdade que, a esta altura, os economistas estão trabalhando muito mais com a distribuição da renda pessoal. É, sobretudo, um trabalho empírico, parte da revolução dos dados nesse campo. Isso é bom. Porém, eles têm uma desculpa melhor do que você possa imaginar para não tê-lo feito muito antes.

*TRADUÇÃO: A.G.MENDES

CLIQUE ABAIXO PARA LER A PÁGINA DE PAUL KRUGMAN NO THE NEW YORK TIMES [EM INGLÊS]

Paul Krugman 15/01





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