Opinião

Pela lei


A Nação se queda inerte, perplexa e amorfa diante do desafio que Lula lhe faz


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 06 de Abril de 2018 às 21:12

  | Historiador


Chegou-se ao final da tarde de 6 de abril.

Não se esgotou às 17:00 hs desta sexta-feira apenas o prazo para Lula se apresentar voluntariamente na sede da Polícia Federal em Curitiba quando deveria “ser cumprido o mandato de prisão”, o ponto fulcral do despacho do Juiz Federal Sérgio Fernando Moro.

Durante todo o dia, o Brasil assistiu uma pajelança midiática que tripudiou da justiça, da lei e da sociedade.

Da indiferença da maioria, da molecagem da militância e de um falso regozijo não se salvou ninguém. Perecemos todos um pouco que consentimos que a coisa pública fosse desmoralizada na mais essencial de suas finalidades, a distribuição de justiça.

A maior rede de televisão e os principais sites de notícias passaram o dia a divulgar, justificar e festejar a maior afronta à justiça já praticada na história do País: um ex-presidente se recusando a cumprir uma decisão judicial.

Algumas figuras públicas não se pejaram de vir a público emprestar apoio a esse desatino. Mas o silêncio eloquente da classe política disse tudo.

Estão todos juntos, quietos, mas pressurosos que a desmoralização de tudo se consume logo, em poucas horas, deixando Lula sair vitorioso dessa farsa vergonhosa e sem fim.

Não se esgotou, portanto, um prazo.

Independentemente do que aconteça, perdeu-se nesta tarde de 6 de abril a esperança de que houvesse no ex-presidente traços da dignidade correspondente ao cargo que um dia exerceu.

Esfumou-se a ilusão de que existisse alguma decência nas hostes partidárias aglutinadas em torno da figura de Lula.

Sobrou apenas a dura e desagradável constatação de que, como sociedade, continuamos a ser intimidados por uma minoria capaz de enfrentar e afrontar as instituições que deveriam nos proteger a todos, até de nós mesmos.

Nas últimas horas, mercenários e ventríloquos da opinião deitaram muita tinta virtual e falação monocórdia para nos convencer que tudo se trata de uma questão de Direito, levada a instâncias que não existem em lugar nenhum do mundo.

E parece que tiveram êxito. A Nação se queda inerte, perplexa e amorfa diante do desafio que Lula lhe faz. O que está acontecendo então?

O que está acontecendo no Brasil não é uma questão de Direito, como clamam juristas de algibeiras forradas, e tampouco de direitos, como querem militantes da causas duvidosas.

Simplesmente não está direito a Lei ser achincalhada por condenados, advogados, imprensa, partidos, políticos, sindicalistas e militantes, enquanto as autoridades incumbidas do seu cumprimento se escondem por trás de uma condescendência que ela não lhes faculta.

É preciso que, nas próximas horas, alguém faça alguma coisa dentro da Lei e pela Lei, para que ela continue a existir no País.

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

FOTO: Werther Santana/Estadão Conteúdo