Opinião

Passo certo


O Brasil dispõe de suficiente softpower para pressionar pelo fim do regime ditatorial da Venezuela e para isso basta acionar sua competente diplomacia para trabalhar, dentro de suas melhores tradições


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 24 de Janeiro de 2019 às 16:42

  | Historiador


Depois de os governos do Brasil, Estados Unidos, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Reino Unido  terem se posicionado pelo reconhecimento do oposicionista Juan Guaidó como presidente de um governo de transição incumbido de conduzir eleições livres na Venezuela, apelo também feito pela União Europeia, veio a reação esperada de quem compactua com o governo Maduro.

A Rússia alertou os Estados Unidos para não intervir na Venezuela, dizendo que “tal movimento causaria um cenário catastrófico”.

Como se o governo Putin estivesse preocupado em evitar cenários catastróficos, na verdade, uma especialidade de quem tem as mãos sujas de sangue na Ucrânia, na Síria e está sempre pronto a causar problemas em qualquer parte do mundo, de eleições a assassinatos de desafetos.

Mais um lance da geopolítica de agressão da Rússia, um país que parece ter se especializado em fazer o mal das mais diferentes maneiras.

Já o México afirmou que não desconheceria um governo com o qual mantém relações diplomáticas. O que deveria soar como sarcasmo da Secretaria de Relações Exteriores mexicana mostra, na verdade, o seu desconhecimento das nuances do trato diplomático e o fato de estar a serviço de um governo mais preocupado em preservar um parceiro ideológico do que encontrar solução de fato para uma crise.

Nesse caso, mais um episódio da velhacaria da velha esquerda latino-americana.

Assim, ler a lista de quem está de um lado e do outro diz muito de uma situação que ultrapassou a etapa das exortações. Uma maioria de bom senso quer evitar o desastre, enquanto a minoria de sempre só vê oportunidades e escapatórias, para deixar tudo do jeito que está.

Maduro, um ditador de fato, entronizou-se no poder de um país assolado por graves problemas econômicos causados pelo regime corrupto e autocrático que dirige, cujos efeitos transbordam aos países vizinhos na forma de uma crise humanitária e de segurança.

O Brasil deve tomar muito cuidado com a crise venezuelana. Por mais de uma vez , abordou-se neste espaço a deterioração da situação no país vizinho. É preciso agir, mas observando alguns aspectos fundamentais da politica externa brasileira.  

Primeiro: desde a Independência, o Brasil conseguiu evitar que conflitos mundiais se estendessem à América do Sul, levando a confrontos entre os países vizinhos ou destes conosco.

Segundo: desde o encerramento da Segunda Guerra Mundial, a política externa brasileira tem sido uma poderosa ferramenta a serviço do desenvolvimento nacional, para o que são priorizados os recursos do País.

Terceiro: a relação com os países vizinhos sempre foi da mais alta importância para o Brasil, mesmo em situações sensíveis em que as posições ou alinhamentos eram distintos. Uma questão de bom senso: as situações passam, a vizinhança continua.

Definitivamente, não interessa ao Brasil uma intervenção militar estrangeira na Venezuela que gere um conflito interno no país capaz de se desdobrar além de suas fronteiras. Nem que drene recursos dos quais precisamos para colocar nossa economia em ordem. E muito menos que espante os investimentos que gostam de segurança e estabilidade.

O Brasil deve dar passos seguros para a superação da crise venezuelana. Ele talvez seja o principal interessado nisso, pelo seu tamanho, papel e situação.

Reconhecer um governante alternativo ao de fato em um país é uma medida que será eficaz se ele detiver algum controle sobre parte do aparato estatal. Se assim não for, corre-se o risco de nada acontecer, o que, no caso da Venezuela, é exatamente o que Maduro deseja.

O Brasil dispõe de suficiente softpower para pressionar pelo fim do regime ditatorial da Venezuela e para isso basta acionar sua competente diplomacia para trabalhar, dentro de suas melhores tradições, nesse sentido, lembrando sempre que ela é instrumento do Estado brasileiro e, portanto, afinada com suas outras instâncias e ações.

Suspender a Venezuela na OEA; pleitear na ONU o bloqueio de  fundos, bens, armas e trânsito de autoridades do regime; exigir da Rússia a suspensão do posicionamento de armas e efetivos em território venezuelano; e mobilizar as chancelarias sul-americanas em torno desses objetivos seriam algumas medidas que mereciam ser contempladas pelo Brasil para por fim, de fato, à ditadura de Maduro.

Mas para dar o passo certo, talvez o governo precise acertar o passo.

 

IMAGEM: Reprodução/YouTube

 

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