Opinião

Panelaço, um barulho de protesto


Inédito nas grandes manifestações públicas brasileiras, eles surgiram há 45 anos no Chile e hoje estão voltados contra o PT


  Por João Batista Natali 23 de Fevereiro de 2016 às 15:07

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Algo inevitável: na noite desta terça-feira (23/02), enquanto as emissoras de TV veicularam por dez minutos o programa do Partido dos Trabalhadores, um novo panelaço foi inequivocamente ouvido nas pequenas e grandes cidades brasileiras.

Essa forma de protesto se tornou rotineira. Ela adquiriu pela primeira vez dimensão ensurdecedora em maio de 2015, durante o pronunciamento da presidente Dilma Rousseff, no Dia Internacional da Mulher.

Dilma então decidiu evitar declarações em rede nacional. Tanto que, para o 7 de Setembro, difundiu um vídeo pela internet que os interessados não iriam visualizar de modo simultâneo. Não haveria panelaço.

Mas ela voltou a ser objeto dessa forma de protesto quando, em 3 de fevereiro último, fez um pronunciamento sobre o combate ao vírus zika, um tema apartidário e em princípio de interesse nacional.

Os panelaços são recentes na história política brasileira. Eles não ocorreram durante o Segundo Império, quando em 1871 as ruas do Rio foram tomadas pelos abolicionistas e simpatizantes, em meio à votação da Lei do Ventre Livre. Foi o primeiro grande movimento em espaço público da história brasileira.

Nenhum panelaço contra o governo central aconteceu durante a Revolução de 1832. Nem tampouco em 1984, na campanha pelas Diretas-já.

Essa forma de protesto difuso nasceu em verdade no Chile. Em 1971, em protesto contra o encarecimento dos alimentos, uma jornalista e ativista liberal chamada Maria Cristina Morandé, convocou donas de casa para um ato público.

Transportar panelas seria uma forma de evitar confronto com os sindicalistas que apoiavam o governo de esquerda de Salvador Allende.

Em sentido político oposto, também o Chile criou anos depois os primeiros panelaços de esquerda. Eles ocorreram em 1986 e 1989, contra a ditadura do general Augusto Pinochet.

A ideia foi importada pelos argentinos e colocada em prática em 2001, como ato de oposição ao presidente Fernando de La Rua, que renunciou em meio aos protestos gerados pelo fim da paridade entre o peso e o dólar.

A mídia na Europa e nos Estados Unidos tem certa dificuldade em explicar a relação entre o protesto e a transformação das panelas em instrumento de percussão. Isso porque nem sempre o panelaço é uma reação ao encarecimento de alimentos.

Pode ser uma forma de rejeição política, como aconteceu, de modo surpreendente, em bairros mais pobres de Caracas, em novembro de 2015, quando não se calculava ainda o tamanho da derrota do governo bolivariano nas eleições que no mês seguinte renovaram o Parlamento.

O panelaço tem sido desacreditado pelo PT nas redes sociais. A tese é a de que se batem panelas apenas nos bairros de maior poder aquisitivo, onde os utensílios de cozinha seriam de preferência importados.

Mas essa versão não se sustenta. Com a presidente da República com índice de aprovação de apenas 12% (Datafolha), e com mais de 60% favoráveis ao seu afastamento ou admitindo que jamais votariam em Lula, a rejeição é bem mais ampla e ultrapassa as divisões entre classes sociais.

Outra maneira de desacreditar essa forma de manifestação difusa está em liga-la a fabricantes de panela supostamente interessados em estimular protestos contra o governo para ao mesmo tempo ganhar publicidade.

É uma tese que não tem nem pé, nem cabeça, mas que foi há alguns meses evocada, sem muita convicção, por uma blogueira do Paraná.

O que é óbvio é que o panelaço, ao contrário de uma manifestação em praça pública, não exige que o manifestante se vista, saia de casa e se locomova por ônibus ou metrô. Basta abrir a janela de casa ou do apartamento e bater panelas.

Há também a questão da curta duração, da forma de organização horizontalizada e do anonimato. Não existe um líder nacional ou líderes nacionais de um panelaço. Naqueles dez minutos o cidadão entra na rede do protesto e, ao fim, sai dela tão anônimo quanto entrou.

Foto:  Rafael Arbex/Estadão Conteúdo